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“Crio para aquela pessoa queer que está sozinha numa terra que ninguém se lembra”: A fantasia interseccional de Ricardo Paes, ilustrador e autor de Triadin Tales



Ricardo Paes é ilustrador, professor e activista. É o criador de Triadin Tales (disponível no Patreon e em Webtoon), um webcomic de fantasia interseccional em que construiu um universo próprio: uma nação de refugiados, cinco protagonistas de origens diversas, e uma proposta política e afectiva que recusa antagonistas absolutos. Fora das páginas do webcomic, Ricardo ensina línguas, interpreta sonhos, integra o núcleo criativo Fabulae – Histórias Interativas e Jogos Narrativos e participa activamente em várias lutas activistas. Falámos sobre arte, isolamento, resistência e sobre o que significa criar para quem ainda não encontrou a sua gente.

Apresenta-te aos nossos leitores: quem és e como defines o teu trabalho criativo e de activismo?

Sou o Ricardo e desde sempre me vi como alguém à margem. Não superior nem inferior, mas permanentemente a olhar de fora para dentro. Seja pela neurodivergência, seja pela fluidez da minha identidade de género durante a adolescência, vivia um isolamento que durante muito tempo acreditei ser exclusivamente meu. Só na vida adulta percebi que há imensas pessoas a habitá-lo também.

Quando surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o Japão como professor, decidi que não queria deixar para trás a prática artística. Pelo contrário, queria aprofundá-la. Foi aí que canalizei toda a energia criativa para o que se tornaria o projecto da minha vida: contar a história de um mundo não utópico, mas possível. Uma sociedade imaginada, no âmbito da fantasia, que esteja apenas alguns passos à frente dos progressos que ainda estamos a tentar conquistar.

O primeiro capítulo dos Triadin Tales é pensado como a introdução a um anime: os painéis são maioritariamente horizontais, a experiência é quase cinematográfica. Está cheio de armas de Chekhov e de simbologia que vem de outra faceta da minha vida: a escrita de diários de sonhos e a interpretação onírica.

O projecto Triadin Tales tem mais de quinze anos de gestação. O que sobreviveu ao tempo e o que mudou?

A essência da história permanece intacta. O que mudou foram as iterações, os refinamentos, a maturidade com que abordo os temas. Em 2018 cheguei a fazer uma exposição no Japão com uma abordagem mais tradicional, com os gradientes e os tons típicos do mangá, mas com a minha própria voz. Hoje o projecto está mais depurado. O que atrasa a progressão é a realidade de quem cria de forma independente: a necessidade de ter um trabalho convencional para se sustentar, e de fazer arte nas horas que sobram.

Num mundo que exige que tudo seja monetizado, qual é a realidade concreta da criação de arte independente?

Não percebo muito de marketing, e se tivesse investido mais nessa área teria provavelmente mais visibilidade, mas não me vou desvalorizar. Acredito genuinamente no valor do que faço. Neste momento atravesso um revés concreto: a minha tablet Wacom Cintiq, com que trabalhei quase dez anos, avariou. Substituí-la custa cerca de 1.500 euros. Não é uma ferramenta barata. Por isso tenho estado a focar-me em esboços tradicionais, a escrever guiões, a organizar capítulos e painéis em papel, à espera de poder regressar ao digital.

O que admiro muito é a iniciativa irlandesa de rendimento mínimo para artistas. O que vejo à minha volta é muita gente a fazer boa produção que nunca consegue aprofundar como gostaria, porque está sempre a saltar de projecto em projecto para sobreviver. A minha visão de arte e cultura é que ela deve ser sustentável para quem a produz, mas focada em beneficiar a sociedade, enriquecer o pensamento crítico e abrir novos diálogos.



Quais as principais influências que inspiram a tua obra?

O universo Marvel, especificamente os X-Men, ajudaram-me a sobreviver a adolescência. As questões da identidade de género e da orientação sexual colocavam-me em confronto directo com a hegemonia da sociedade, e a sensação de isolamento tornava esses períodos genuinamente perigosos. O que me fez aguentar foi ler histórias com personagens cujas experiências eram análogas às minhas, desejar-lhes bem, querer ver o desenrolar das suas vidas. Da mesma forma que alguém fez um contributo artístico que chegou até mim, sempre senti que queria fazer algo semelhante.

A influência japonesa no projecto também não é acidental. Com o tempo, identifiquei-me muito com as práticas budistas e, ao viver no Japão, com o xintoísmo, por exemplo no que toca ao respeito pela natureza, à purificação da mente através de rituais simples do quotidiano. Quis integrar tudo isso no universo que estava a construir.

O estúdio Ghibli e Miyazaki trouxeram uma outra dimensão fundamental para a forma como eu conto histórias, que é a ausência de antagonistas absolutos. Nos Triadin Tales há momentos de antagonismo, mas não é o conflito estrutural da narrativa. O que me interessa são os conflitos internos de cada personagem, o processo de crescimento pessoal, não a suplantação de outrem.

Por isso o projecto aborda a neurodivergência e a saúde mental com tanto peso quanto as questões de raça e género. E por isso me declaro abertamente anti-guerra e de esquerda: a violência que assistimos é, para mim, uma manifestação de um patriarcado obsoleto e de egos políticos que perpetuam uma escassez artificial para manter hierarquias que não têm qualquer necessidade de existir.


Descreves Triadin Tales como uma “fantasia interseccional”. O que significa isso na prática?

A interseccionalidade está inscrita nas personagens e no mundo que habitam. Os cinco protagonistas representam experiências diversas: temos descendentes japoneses, irmãos gémeos afrodescendentes marcados por trauma de guerra, uma relação entre duas raparigas, e uma personagem trans com raízes nas tribos indígenas originárias do território.

Não só é uma história que procura representar a comunidade queer ou dar-lhes protagonismo vivificante. Traz também uma proposta antirracista e descolonizadora. O mundo que eu criei não é uma nação de imigrantes, mas sim de refugiados. Nenhuma cultura apaga as outras: aprendem todas entre si e enriquecem-se mutuamente. É uma proposta descolonizadora tanto nas questões étnicas como na indigeneidade. Em 2026 estamos a assistir a muitos retrocessos, mas isso não significa que sejamos menos a lutar pela justiça social. Foi também por isso que o activismo e a militância passaram a fazer parte integrante do meu percurso, não apenas a expressão artística.


O que podemos esperar no futuro dos Triadin Tales?

Isto é o meu projecto de vida, e vou continuar a trabalhar nos Triadin Tales. Claro que há outro tipo de trabalhos que faço em paralelo: ensino português para estrangeiros, inglês e introdução ao japonês, e trabalho com interpretação de diários de sonhos.

Através do colectivo COMOV, com sede no distrito de Torres Vedras, imprimimos os dois primeiros capítulos em versão física, como teste. Estamos também a ponderar uma tradução para português.

Tenho conta no Patreon e no Webtoon e, se o projecto ganhar mais audiência e mais apoio, o meu objectivo é expandir o universo e construir uma equipa interseccional de criadores (escritores e artistas de qualquer género, etnia e contexto cultural) que possam contar as suas histórias dentro deste universo, ou fora dele, de forma cooperativa. Semelhante ao modelo Marvel, mas assente na partilha e não na hierarquia. Para mim, não basta falar de inclusão: quero vivê-la no próprio processo de criação. O meu activismo não está separado da arte. É a mesma coisa.


Que mensagem queres deixar aos leitores do dezanove.pt?

Isto é um pouco emocionante porque vai mesmo à raíz da minha criação… Uma pessoa pode sentir-se muito sozinha, mas se procurar, vai encontrar quem a apoie. Há uma criança queer numa terra pequena que toda a gente chincalha, e é exatamente para essa pessoa que eu crio. Para que, naquele momento tão duro, não se sinta sozinha. Para que talvez um dia decida emancipar-se, criar um núcleo LGBTQIA+ na sua localidade, partilhar a sua história. O que nos move, apesar de tudo o que sofremos e de toda a gente que nos critica, é amor. Amor pelo próximo, amor pela nossa diferença e pela riqueza que ela traz às nossas vidas, à sociedade, ao planeta.

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