[Nota prévia: À data da publicação deste texto, a informação pública disponível indica que o Arraial Lisboa Pride 2026 não se realizará em Junho, como habitualmente acontece. Contudo, não existe um cancelamento definitivo oficialmente anunciado. Os organizadores referem continuar em diálogo com as entidades envolvidas para procurar soluções alternativas que permitam a realização do evento ainda durante 2026, embora sem data, local ou formato confirmados até ao momento. O presente texto reflecte sobre o impacto psicológico, social e simbólico da situação actualmente conhecida e da incerteza que a rodeia.]
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Há perdas que não fazem barulho suficiente para serem compreendidas por quem nunca precisou delas para sobreviver. Há ausências que parecem administrativas, logísticas, quase burocráticas, mas que, por dentro, tocam uma zona antiga da história de muitas pessoas: a zona onde se aprendeu que existir podia ser perigoso, amar podia ser vergonhoso, aparecer podia ser demais. Para algumas pessoas, o cancelamento ou a não realização de um evento é apenas uma notícia. Para outras, é a interrupção de um ritual de pertença. E para muitas pessoas LGBTI+, a não realização do Arraial Lisboa Pride no seu formato habitual não pode ser lida apenas como uma falha de calendário, de produção, de licenciamento ou de articulação institucional. Há acontecimentos que uma cidade não pode deixar cair como se fossem apenas estruturas, palcos, grades, horários, autorizações e custos. Porque há eventos que não existem apenas para acontecer. Existem para dizer a uma comunidade: vocês têm lugar. Vocês são vistos. Vocês não precisam de desaparecer para serem tolerados. O Arraial Lisboa Pride foi, durante anos, uma dessas formas públicas de reconhecimento. Para quem sempre teve o amor representado em filmes, novelas, anúncios, casamentos, fotografias de família, ruas, igrejas, escolas e conversas banais de domingo, talvez seja difícil compreender o que significa encontrar, pela primeira vez, uma multidão onde o próprio desejo não precisa de se encolher. Mas para muitas pessoas LGBTI+, esse encontro não foi banal. Foi estruturante. Foi quase inaugural. Foi a primeira vez em que o corpo deixou de pedir licença. A primeira vez em que uma mão dada não parecia uma infração. A primeira vez em que um beijo não precisava de se esconder no intervalo da noite. A primeira vez em que alguém olhou à volta e percebeu: afinal, não sou uma excepção monstruosa no mundo. A psicologia social sabe há muito que a pertença não é ornamento; é necessidade humana fundamental. Baumeister e Leary (1995) mostraram que a necessidade de pertença é uma das motivações mais profundas da vida psíquica. Meyer (2003), ao formular a teoria do stress minoritário, demonstrou que o sofrimento das pessoas LGBTI+ não nasce apenas de conflitos internos, mas da exposição persistente à rejeição, discriminação, ocultação, expectativa de agressão e vergonha internalizada. Hatzenbuehler (2009) aprofundou como o estigma social se transforma em sofrimento psicológico, em ansiedade, depressão, isolamento e maior vulnerabilidade suicidária. Isto significa que a visibilidade pública não é apenas política identitária; é saúde mental. Não é excesso militante; é proteção psíquica. Não é decoração progressista de uma cidade cosmopolita; é uma das formas pelas quais uma comunidade historicamente empurrada para a margem pode recuperar presença, corpo, voz e futuro. A teoria queer acrescentaria talvez que a questão nunca foi apenas “aceitar” pessoas LGBTI+ dentro da cidade, como quem concede autorização benevolente a uma diferença tolerável. A questão é outra: quem tem direito a aparecer? Quem pode ocupar a praça sem se justificar? Quem pode existir sem ser traduzido para a norma? Butler (2004) lembraria que há vidas cuja inteligibilidade social continua precária; vidas que precisam de ser repetidamente reconhecidas para não voltarem a ser lançadas para uma zona de irrealidade social. Sedgwick (2003) ajudou-nos a compreender como a vergonha queer não é apenas emoção privada, mas uma pedagogia cultural que entra no corpo, no olhar, na voz e na forma como se deseja. Por isso, um Pride, um Arraial, uma marcha, uma noite de encontro, não são apenas festa. São práticas públicas de desvergonhamento. São interrupções coletivas da injunção antiga: sê discreto, não incomodes, ama em silêncio, existe menos. O Arraial Lisboa Pride, na sua continuidade ao longo dos anos, foi também isto: uma pedagogia inversa. Ensinou que a cidade também podia ser nossa. Ensinou que havia comunidade onde antes havia solidão. Ensinou que a alegria podia ser uma forma de resistência. Ensinou que a celebração, quando nasce depois da vergonha, não é futilidade; é reparação. Há pessoas que provavelmente conheceram ali o primeiro namorado, a primeira namorada, o primeiro grupo de amigos queer, a primeira família escolhida. Há pessoas que terão ido sozinhas e voltado menos sozinhas. Há pessoas que talvez não tenham contado a ninguém que aquele arraial lhes salvou alguma coisa por dentro. Não no sentido romântico e exagerado da palavra “salvar”, mas no sentido clinicamente sério de oferecer uma experiência corretiva: a experiência de não ser recusado pelo olhar do mundo. Quem trabalha em saúde mental sabe que isto importa. Sabe que a vergonha repetida isola. Sabe que a invisibilidade adoece. Sabe que o reconhecimento regula. Sabe que uma pessoa não se torna inteira apenas porque a lei lhe concede direitos; torna-se mais inteira quando encontra espaços onde esses direitos se transformam em experiência vivida. E é aqui que a falha se torna grave. Porque quando um evento desta natureza deixa de acontecer, sobretudo num momento europeu de recrudescimento de discursos anti-LGBTI+, anti-trans, anti-diversidade, anti-“ideologia de género”, anti-corpos que não obedecem, o seu desaparecimento nunca é neutro. Mesmo que a intenção não tenha sido discriminatória, o impacto inscreve-se num clima social onde muitas pessoas já sentem que a sua presença pública voltou a estar sob vigilância. A política contemporânea aprendeu a atacar minorias não apenas retirando direitos diretamente, mas tornando a sua visibilidade cansativa, controversa, discutível, sempre sujeita a negociação. Primeiro questiona-se a bandeira. Depois a educação. Depois a linguagem. Depois as casas de banho. Depois os corpos trans. Depois os livros. Depois os eventos. Depois a própria ideia de que uma comunidade precisa de espaço público para respirar. E quando uma cidade falha em proteger um dos seus maiores rituais de visibilidade LGBTI+, mesmo que por omissão, mesmo que por desorganização, mesmo que por conflito institucional, a mensagem que muitas pessoas recebem é brutalmente simples: o nosso lugar continua dependente. Continua frágil. Continua a precisar de autorização. Continua a poder desaparecer. É por isso que o Presidente da Câmara
Municipal de Lisboa deve pedir desculpa. Não como gesto performativo. Não como frase vazia. Não como gestão reputacional. Deve pedir desculpa porque, numa democracia madura, as instituições reconhecem o impacto das suas falhas, sobretudo quando essas falhas atingem comunidades historicamente vulnerabilizadas. Deve pedir desculpa porque Lisboa não pode celebrar diversidade quando é conveniente e tratá-la como problema logístico quando se torna difícil. Deve pedir desculpa porque uma cidade que acolhe turistas, congressos, festivais, santos populares, marcas, palcos e interesses económicos tem também a obrigação cívica de proteger os espaços onde minorias encontram reconhecimento. Deve pedir desculpa porque pedir desculpa, aqui, não seria confessar culpa jurídica; seria reconhecer dano simbólico. E o dano simbólico também existe. Também pesa. Também fere. Também se acumula. Também adoece.
Uma desculpa pública não resolveria tudo, mas começaria por fazer uma coisa essencial:
interromperia a indiferença. Diria à comunidade LGBTI+ que a sua tristeza não é exagero, que a sua revolta não é capricho, que a sua perda não é menor. Diria que o Arraial não era apenas uma festa que se podia adiar, substituir ou relativizar. Era memória coletiva. Era saúde comunitária. Era cultura democrática. Era um lugar onde muita gente aprendeu a existir um pouco menos contra si própria. E talvez seja isto que mais importa dizer, com firmeza e sem medo: quando uma cidade deixa cair os lugares onde os seus cidadãos mais vulnerabilizados se sentem vivos, a cidade fica menor. Não apenas menos diversa. Menos humana. Menos lúcida. Menos democrática. Porque a democracia não se mede apenas nas urnas, nos regulamentos ou nos discursos institucionais sobre inclusão. Mede-se também na forma como protege os corpos que durante séculos foram ensinados a esconder-se. Mede-se na forma como sustenta a alegria pública daqueles a quem tantas vezes foi reservado o silêncio. Mede-se na coragem de dizer: aqui, ninguém terá de voltar para a sombra para que a cidade se sinta confortável. Por isso, sim: peça desculpa, Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Peça desculpa não apenas pelo que não aconteceu, mas pelo que essa ausência fez lembrar. Peça desculpa pelo vazio deixado no lugar onde deveria haver música, encontro, corpo, orgulho, memória e futuro. Peça desculpa porque há pessoas que este ano não terão aquela noite em que talvez fossem descobrir que não estavam sozinhas. Peça desculpa porque uma cidade que não compreende o valor psicológico da pertença corre o risco de confundir gestão com cuidado, tolerância com reconhecimento, e silêncio com paz. E depois da desculpa, faça o mais importante: garanta que nunca mais uma comunidade inteira tenha de perguntar se ainda tem lugar no coração público de Lisboa.
Nuno Tomaz Santos, psicólogo clínico (OPP 30806), psicoterapeuta de orientação relacional e profissional com formação especializada em Sexologia Clínica, Intervenção Psicológica com Pessoas LGBTQIA+, Suicídio e Comportamentos Autolesivos, Dependências e Luto.
Referências
Baumeister, R. F., & Leary, M. R. (1995). The need to belong: Desire for interpersonal attachments as a fundamental human motivation. Psychological Bulletin, 117(3), 497–529.
Butler, J. (2004). Undoing gender. Routledge.
Hatzenbuehler, M. L. (2009). How does sexual minority stigma “get under the skin”? A psychological mediation framework. Psychological Bulletin, 135(5), 707–730.
Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129(5), 674–697.
Sedgwick, E. K. (2003). Touching feeling: Affect, pedagogy, performativity. Duke University Press.

