Há perguntas que parecem inocentes e não o são: “Então e o orgulho hetero, para quando?” é uma delas. Dita com um sorriso condescendente, muitas vezes por alguém que se considera tolerante, a pergunta revela, por baixo da aparente ironia, uma ignorância monumental sobre aquilo que continua a acontecer — em Portugal, na Europa, no mundo — a quem não cabe nos contornos da heterossexualidade normativa. Responder a essa pergunta exige paciência, factos e a disposição de olhar para a realidade sem os filtros do conforto de maioria.
Comecemos pelo princípio. O mês de Junho não foi escolhido ao acaso. Na madrugada de 28 de Junho de 1969, num bar do bairro de Greenwich Village, em Nova Iorque, eclodiu a Rebelião de Stonewall. A polícia invadiu o Stonewall Inn — um dos raros espaços onde pessoas LGBT podiam simplesmente existir — e encontrou, pela primeira vez, resistência organizada. Os protestos e confrontos que se seguiram duraram vários dias e tornaram-se um símbolo da resistência contra a discriminação e a violência sofridas por pessoas LGBTQIA+. O que nasceu ali não foi uma festa. Foi uma trincheira.
Mais de meio século depois, a trincheira continua de pé. E continua necessária. Em Portugal, os crimes de ódio contra pessoas LGBTI+ aumentaram 38% em 2023, tendo sido documentados 347 incidentes, segundo dados da PSP e da GNR recolhidos pela ILGA-Europa. O Observatório da Discriminação contra Pessoas LGBTI+ da ILGA Portugal recebeu 469 denúncias entre 2020 e 2022, mais de metade relativas a incidentes de ódio, sendo que menos de um quarto resultou em queixa oficial. O que fica por contar é, como sempre, muito mais do que aquilo que chega aos registos.
Portugal saiu do top 10 do Mapa Arco-Íris da ILGA Europa, ficando em 11.º lugar, com a pior pontuação precisamente na categoria de crimes e discursos de ódio. Um país que se orgulha de ser moderno e inclusivo, mas que vai cedendo terreno nas métricas que medem a segurança real das pessoas — não nos papéis, mas nas ruas, nos locais de trabalho, nas famílias.
Em Portugal, os discursos de ódio anti-LGBTQIA+ e transfóbicos intensificaram-se, especialmente através de comentários hostis e de sucessivas tentativas de bloquear medidas legais em matérias de igualdade. Os discursos em torno da chamada “ideologia de género” estão também na origem de um aumento de 185% de conteúdos anti-LGBTQI+ nas redes sociais no período entre 2019 e 2022 — muitos deles circulando com grande violência, impacto e partilha, ligados a pessoas de extrema-direita, mas não só.
A desinformação não é neutra: tem consequências diretas sobre vidas concretas, sobretudo as mais jovens e as mais vulneráveis. A ILGA-Europa alerta que os discursos anti-LGBTI, aliados a leis que ponham em causa direitos, estão a ter impacto nos níveis de suicídio e saúde mental das populações afectadas.
Há um crime que, em Portugal, funciona como espelho de tudo o que se quer não ver. Em 2006, Gisberta Salce Júnior, uma mulher trans brasileira de 45 anos, foi encontrada morta no Porto, depois de ter sido agredida e violada por um grupo de 14 adolescentes. Depois de vários dias de agressões físicas e sexuais motivadas por transfobia, Gisberta acabou morta num poço da cidade do Porto. A morte de Gisberta foi um choque a nível nacional, não sendo caso único — existindo, infelizmente, outros antes e depois — mas definitivamente o mais vivo no imaginário colectivo. O Porto acabou por homenageá-la com uma rua. Tarde, como quase sempre.
E ainda assim há quem pergunte para que serve o mês do orgulho.
Serve para que não se esqueça. Serve para que os números não se transformem em abstracção. Em 2024, a homossexualidade era ainda criminalizada em 61 Estados membros das Nações Unidas, sendo que pelo menos sete desses países preveem a pena de morte para os homossexuais. Quem vive em democracias consolidadas com direitos consagrados tende a esquecer que a geografia da liberdade sexual é profundamente desigual — e que mesmo dentro dessas democracias, a liberdade real não se distribui de forma equitativa.
A pergunta sobre o orgulho hetero parte de um pressuposto falso: o de que estamos em igualdade de circunstâncias. Não estamos. Ninguém perde emprego, família, saúde mental ou vida por ser heterossexual. A heterossexualidade não precisa de visibilidade porque nunca foi invisibilizada. Nunca foi criminalizada. Nunca foi alvo de terapias destinadas a corrigi-la.
Marchar em junho — ou em qualquer outro mês — é um acto político no sentido mais rigoroso do termo. É afirmar que se existe, que se tem direitos, que não se vai desaparecer por decreto ou por pressão social. É, para muitos, literalmente, uma questão de sobrevivência. Para os que não precisam dessa afirmação, resta uma única tarefa: perceber por que razão os outros precisam, e colocar-se ao lado deles.
Não é preciso ser gay, lésbica ou trans para entender isto. É preciso, apenas, ser humano.
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