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Os apoiantes do Chega são os novos marginalizados?



Há um fenómeno curioso a acontecer em Portugal.

Depois de anos a ouvir falar de grupos marginalizados, comunidades vulneráveis e pessoas vítimas de discriminação, parece que surgiu uma nova minoria.

Os apoiantes do Chega.

Pelo menos é essa a impressão que se tem ao ouvir alguns relatos.

Pessoas que passaram anos a dizer que os imigrantes eram o problema, que as pessoas LGBTQIA+ eram o problema, que os ciganos eram o problema, que os refugiados eram o problema e que praticamente qualquer minoria era o problema, estão agora a descobrir uma realidade inesperada:

Há quem não queira conviver com elas.

O choque tem sido enorme.

Conheço quem tenha deixado de frequentar uma oficina depois de descobrir que o gerente apoia o Chega.

Outros contam histórias semelhantes sobre restaurantes, cafés, lojas ou pequenos negócios.

Uma senhora contou-me recentemente que o marido chegou a casa, soube que um amigo era apoiante do Chega e afastou-se dele com a rapidez de quem acabou de descobrir que o amigo tinha lepra. 

E, ao que parece, não é caso único.

Há amizades que arrefecem.

Há convites que desaparecem, como por exemplo aquele jantar que não aconteceu mais, ou o churrasco de domingo que foi simplesmente cancelado.

Há clientes que deixam de aparecer.

Há pessoas que simplesmente decidem gastar o seu dinheiro noutro sítio.

Nada disto é organizado.

Não existe uma associação secreta para o afastamento de apoiantes do Chega.

Não há reuniões clandestinas.

Não há grupos de coordenação.

Há apenas pessoas a tomar decisões sobre quem querem ter à sua volta.

Ainda assim, alguns apoiantes do partido parecem genuinamente surpreendidos.

Como é possível?

Como é que as pessoas os estão a julgar pelas suas opiniões?

Como é que alguém pode decidir não se relacionar com eles por causa das ideias que defendem?

É uma pergunta fascinante.

Sobretudo porque estamos a falar de um movimento político que construiu grande parte do seu discurso precisamente a julgar pessoas pela sua nacionalidade, orientação sexual, identidade de género, religião, origem étnica ou condição social.

Mas agora é diferente.

Agora são eles.

E isso muda tudo.

De repente, descobrimos que ser associado a um grupo pode trazer consequências sociais.

Quem diria?

Durante anos ouvimos que a exclusão era apenas “liberdade de opinião”.

Agora que algumas pessoas escolhem livremente afastar-se, passou a chamar-se discriminação.

É uma reviravolta curiosa.

Talvez a mais curiosa de todas seja esta:

Ninguém está a propor leis para limitar os seus direitos.

Ninguém está a impedir ninguém de votar.

Ninguém está a sugerir que devam ter menos protecção perante a lei.

As pessoas estão apenas a fazer uma escolha muito simples.

A mesma escolha que fazem todos os dias quando escolhem os amigos, os parceiros, os locais onde gastam dinheiro ou as pessoas com quem querem partilhar uma mesa.

Porque existe uma diferença considerável entre ser perseguido e deixar de ser convidado para jantar.

E talvez esteja aí toda a confusão.

Os apoiantes do Chega não são uma minoria marginalizada.

Mas alguns parecem estar a descobrir, pela primeira vez, aquilo que muitas minorias conhecem há décadas:

As nossas escolhas têm consequências.

E nem sempre são agradáveis.

Sobretudo quando passamos anos a aplaudir a exclusão dos outros e acabamos surpreendidos quando alguém decide excluir-nos da sua lista de contactos.

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