Há obras que denunciam a irracionalidade persistente da humanidade. Umas, pelo humor, como “O Alienista”, de Machado de Assis; outras, mais sérias, e mais próximas da obra de hoje, como “As bruxas de Salem”, de Arthur Miller, arrancam a máscara humana do bicho precariamente civilizado e expõem a complicada física das torpezas, dos preconceitos, das agendas pessoais, dos cinismos, das limitações, catalisando-se mutuamente, no cadinho da sociedade, numa alquimia perversa, cada vez mais soez estonteante, que nos vai conduzindo por um calvário de ansiedades até à tragédia inevitável.
Quando Nelson Rodrigues estreou a peça “O beijo no asfalto”, em 1960, no Brasil, em pleno escândalo, estávamos a 4 anos do início do tenebroso período da Ditadura Militar. Em Portugal, estávamos ainda a 14 anos de romper a aurora que nos permitiria começar a sair da longa noite a que nunca pertencemos, ainda que alguns insistam a ela nos querer devolver – e que ainda está por cumprir a comunidade LGBTQIA+.
Faz, portanto, todo o sentido, que o Teatro Nacional de S. João, no Porto, coloque em cena esta peça (até dia 5 de Julho). Tragam amigos. Tragam amantes. Tragam as famílias. Esgotem a peça.
Obriguem a que seja repetida, porque ela é relevante, é actual, é urgente, para o momento em que estamos a viver, de guerra aberta contra a comunidade LGBTQIA+ em Portugal e em que os media, inflamados pelos algoritmos tóxicos das redes sociais, entraram numa espiral de histeria e sensacionalismo em que a deontologia e credibilidade, em vez de serem vistas como alicerces ou activos dos órgãos de comunicação social, são tomadas como taxas ou amarras.
Um rapaz cai para o lado. Um transporte público atropela-o. Um jovem abaixa e beija-o. A vítima morre nos seus braços.
Mas não é aqui que começa realmente a ser história. É apenas quando um jornalista sensacionalista e um covarde que é, por acaso, delegado de polícia, unem esforços e se ancoram sobre o que aconteceu, que começamos a ter o drama que, como um buraco negro, vai atrair e distorcer toda a realidade à sua volta, como um espelho que expõe a podridão de todos os que a ele são expostos. Para nós, começa com a própria folha de sala, convertida num jornal com a manchete assassina.
A peça, não é de fácil interpretação: há personagens-narradoras, nos cantos, constantemente a interromper os actores da acção, dando-lhes indicações sobre como devem agir – a que este elenco, de actores Brasileiros residentes em Portugal, reage admiravelmente, no momento, conjurando instantaneamente as expressões faciais, as emoções, o estado mental requerido, num exercício de representação que existe domínio do métier.

Tal traz um pequeno alívio cómico, mas que cada vez mais se torna insuficiente, perante a escalada de demência e maldade que se ergue contra um sujeito, cada vez mais isolado, preso a um processo kafkiano por um gesto. Os cenários, que se dobram e se desdobram, lembram aquele jogo de papel, o quantos-queres, que jogávamos em crianças, expondo as várias faces de uma tragédia patética, absurda e absolutamente desnecessária, em que somos confrontados com a nossa passividade, tornando-nos cúmplices deste criminoso tormento, até que sai o número final.
Como um “de profundis”, no momento em que o nosso coração se abate de vez, alguém solta um “Trevas!”, como um lamento, uma denúncia, um protesto, uma reivindicação tardia de sanidade, perante tanta vergonhosa falta de vergonha.
O surreal momento Almodóvar dá-nos uma falsa sensação de conforto: é camp, é music hall, é espectáculo. E, contudo, não conseguimos deixar de rir nervosamente, enquanto batemos palmas, porque a inversão foi bem sucedida: o palco tornou-se a realidade, e a vida quotidiana a que regressamos é que é agora a farsa justamente criticada.
“É alguém” é tudo o que nos deveria espontaneamente guiar. É isso, Arandir. Obrigado.
A lição é simples: num mundo podre, a empatia é crime. Sejam criminosos.
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Foto: José Caldeira (ensaio)


