Entre os grandes concertos, os reencontros, a estreia do Palco Literário e o momento espontâneo de um jovem português que acabou a dançar em palco com Zara Larsson, o NOS Alive voltou a afirmar-se como um espaço onde milhares de pessoas celebram a música, mas também a diversidade, a pertença e a liberdade de serem quem são.
Durante três dias, o dezanove.pt acompanhou o NOS Alive 2026 no Passeio Marítimo de Algés. Entre concertos, conversas, encontros e histórias partilhadas por quem vive o festival, saímos com uma ideia clara: o NOS Alive continua a ser um dos espaços culturais portugueses onde muitas pessoas LGBTQIA+ dizem sentir-se mais confortáveis para serem simplesmente elas próprias.
Ao longo da nossa reportagem, falámos com festivaleiros de diferentes idades, orientações sexuais, expressões de género e nacionalidades. Entre concertos e momentos de descanso, repetiu-se uma percepção comum: a de que o NOS Alive é um espaço inclusivo, transversal e seguro. Casais do mesmo género, pessoas não-binárias, jovens a viverem o festival pela primeira vez e visitantes internacionais descreveram um ambiente de respeito onde a diversidade faz parte da experiência colectiva.
Num contexto internacional em que os direitos LGBTQIA+ continuam a enfrentar desafios em vários países, esta sensação de pertença não deve ser subestimada. A inclusão mede-se também pela forma como as pessoas experienciam um espaço. E foi precisamente esta ideia que mais ouvimos ao longo dos três dias: a possibilidade de viver a música, os afectos e a identidade com naturalidade.
Muito mais do que concertos
Em termos musicais, o NOS Alive voltou a afirmar-se como um festival de experiências e não apenas de concertos.
Nick Cave & The Bad Seeds protagonizaram um espectáculo de grande intensidade emocional, transformando o Passeio Marítimo de Algés num momento de comunhão colectiva entre o silêncio reverente e a entrega absoluta do público. Também os Foo Fighters, perante um recinto esgotado, percorreram diferentes fases da sua carreira, demonstrando porque continuam a ser uma das maiores bandas de rock da actualidade.
Ambos foram, sem dúvida, dois dos momentos mais marcantes desta edição.
Mas houve também espaço para artistas particularmente relevantes para públicos LGBTQIA+. Lorde regressou aos palcos portugueses com um dos concertos mais aguardados do último dia, confirmando a forte ligação emocional que mantém com várias gerações de fãs queer. Florence + The Machine voltou igualmente a demonstrar porque é uma das artistas mais acarinhadas pela comunidade LGBTQIA+, num espectáculo tão intenso quanto celebratório.
No Palco Heineken, Zara Larsson trouxe a energia pop que a tornou uma referência para muitos jovens LGBTQIA+, enquanto nomes como Wolf Alice, Jehnny Beth e Skunk Anansie reforçaram um cartaz marcado por diferentes expressões artísticas e identidades.
O momento de Afonso
O concerto de Zara Larsson acabaria também por proporcionar um dos momentos mais inesperados e celebrados desta edição.
Durante a interpretação de Lush Life, a artista sueca convidou um jovem português chamado Afonso a subir ao palco para dançar consigo. Aquilo que começou como uma interacção espontânea transformou-se rapidamente num dos momentos virais do festival, graças à confiança, energia e alegria demonstradas pelo jovem perante milhares de pessoas.
A reação do público foi imediata, com uma enorme ovação que fez de Afonso uma das figuras improváveis do Alive 2026.
Nos dias seguintes, o momento acabou também por suscitar comentários menos positivos nas redes sociais, alguns deles centrados na forma como o jovem se expressou em palco. Ainda assim, a onda de apoio revelou-se largamente maior e acabou por reforçar uma ideia que o dezanove.pt encontrou repetidamente ao longo dos três dias: a importância de existirem espaços onde os jovens possam celebrar quem são, expressar-se livremente e sentir-se acolhidos sem receio de julgamento.
Num festival onde tantas pessoas falaram de pertença e inclusão, o momento de Afonso acabou por simbolizar precisamente essa liberdade.
Diversidade em palco
Entre as propostas mais explicitamente queer da programação destacou-se Titica. A artista angolana, uma das figuras trans mais importantes da música africana contemporânea e uma referência incontornável para muitas pessoas LGBTQIA+ dos PALOP, marcou presença no palco WTF Clubbing, representando uma visibilidade ainda rara nos grandes festivais portugueses.
O último dia ficaria ainda marcado por outro dos momentos mais celebrados do festival: o regresso dos Buraka Som Sistema. O reencontro de uma das bandas mais influentes da música portuguesa das últimas décadas encerrou a edição com uma explosão de energia colectiva, funcionando quase como uma celebração da identidade cultural contemporânea portuguesa.
Literatura: a novidade de 2026
Para além da música, esta edição ficou marcada pela estreia do Palco Literário, a principal novidade da programação de 2026.
O espaço trouxe escritores, músicos e criadores para conversas sobre literatura, criatividade e cultura, reforçando a ideia de que o festival pode ser também um lugar de reflexão e descoberta.
Para o dezanove.pt, que acompanha regularmente a produção cultural LGBTQIA+, esta aposta representa igualmente a criação de novas oportunidades para diferentes histórias, memórias e vozes encontrarem o seu público.
Um espaço para pertencer
No final destes três dias de reportagem, o balanço que fazemos vai para além dos números, dos palcos cheios ou dos nomes internacionais.
O que fica são as conversas que tivemos, os testemunhos que recolhemos e a confirmação de que a cultura continua a ser um poderoso espaço de encontro.
O NOS Alive 2026 mostrou que é possível reunir milhares de pessoas num mesmo recinto e criar um ambiente onde diferentes gerações, identidades, orientações e experiências coexistem com naturalidade.
Num festival onde a música continua a ser a principal linguagem comum, a diversidade, a inclusão e o sentimento de segurança partilhado por tantas pessoas LGBTQIA+ continuam a ser algumas das suas maiores forças.
E isso, para o dezanove.pt, merece ser celebrado.
.
Imagem: NOS Alive | EiN


