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Amanhã à Mesma Hora: afinar o colectivo para criar mundos mais livres



 

No novo livro de Martim Sousa Tavares, a orquestra transforma-se num lugar a partir do qual podemos pensar o trabalho em equipa, a responsabilidade das lideranças e a importância da empatia. Uma reflexão que também permite interrogar a história dos movimentos LGBTQIA+ e as pessoas que souberam congregar causas, afectos e formas de resistência.

 

O título “Amanhã à Mesma Hora” transporta-nos imediatamente para a repetição. Para o ensaio que termina com a promessa de um regresso, para o trabalho que não ficou concluído, para a necessidade de voltar a encontrar os outros e recomeçar. Uma orquestra nunca fica definitivamente afinada. Tal como uma comunidade, uma escola, uma associação ou um movimento político, precisa de escutar, corrigir, negociar e reconstruir continuamente a forma como os seus elementos se relacionam.

 

Em Amanhã à Mesma Hora — Dez lições sobre o trabalho em equipa, publicado pelas Livros Zigurate em Maio de 2026, Martim Sousa Tavares utiliza o universo das orquestras para reflectir sobre o funcionamento dos grupos, a gestão das expectativas, o erro, a pressão, os conflitos e as lideranças. O livro tem 168 páginas e prolonga o trabalho de divulgação musical desenvolvido pelo maestro, aqui fazendo da música uma metáfora para pensar as relações humanas. 

A música é o ponto de partida, mas não constitui o ponto de chegada. O que está verdadeiramente em causa é a possibilidade de transformar um conjunto de pessoas especializadas numa comunidade capaz de produzir algo que nenhuma delas conseguiria realizar isoladamente.

 

As pessoas antes da partitura

Uma das formulações mais certeiras do livro surge logo na primeira lição: “O melhor e o pior das orquestras são as pessoas” (Tavares, 2026, p. 13).

 

A frase parece evidente, mas contém uma crítica importante à forma como frequentemente pensamos as organizações. Podemos dispor de excelentes recursos, profissionais qualificados, objectivos formalmente definidos e estruturas aparentemente eficientes. Nada disso garante, por si só, que exista uma verdadeira equipa. A qualidade do resultado depende da forma como as pessoas se escutam, partilham responsabilidades e reconhecem que o seu trabalho produz efeitos sobre o trabalho dos outros.

 

Nas melhores orquestras descritas por Martim Sousa Tavares, cada pessoa contribui para tornar mais leve e mais consistente o trabalho colectivo. Não apenas os músicos, mas também quem prepara as partituras, organiza os ensaios, comunica com o público ou acolhe os artistas. Esta deslocação do olhar é particularmente relevante: uma organização não é feita apenas pelas figuras que ocupam o palco.

 

Também nos movimentos sociais há muito trabalho que permanece fora de cena. Há quem escreva comunicados, acompanhe pessoas em situação de vulnerabilidade, organize manifestações, consiga espaços para reuniões, distribua alimentos, responda a mensagens durante a noite ou simplesmente permaneça ao lado de quem já não consegue continuar sozinho. Uma liderança inspiradora não é apenas aquela que profere o discurso mais mobilizador. É também aquela que reconhece e torna visível o trabalho que permite que o colectivo exista.

 

Liderar não é ocupar todo o espaço

O livro convida-nos ainda a pensar a liderança para lá da imagem do maestro todo-poderoso que controla, a partir do pódio, cada gesto da orquestra. Uma liderança eficaz não se limita a dar ordens. Deve estabelecer um propósito, criar condições de trabalho e ajudar cada pessoa a compreender de que modo a sua função contribui para o percurso comum.

 

Isto não significa que os conflitos desapareçam ou que todas as pessoas tenham de pensar da mesma maneira. Uma equipa não é um grupo sem divergências. É um grupo que encontra formas de impedir que as divergências destruam a possibilidade de agir em conjunto.

 

Esta questão é particularmente importante nos movimentos LGBTQIA+, frequentemente atravessados por diferenças de classe, raça, género, geração, nacionalidade e capacidade económica. Não existe uma única experiência LGBTQIA+, tal como não existe uma única prioridade capaz de representar todas as pessoas. Uma liderança responsável não deve apagar essa pluralidade para produzir uma imagem artificial de unidade. Deve, pelo contrário, criar condições para que as diferentes vozes sejam ouvidas sem que as mais poderosas ocupem permanentemente o centro.

 

Os movimentos sociais também não são orquestras convencionais. Nem sempre possuem uma partitura comum, um palco definido ou uma única pessoa a dirigir. São frequentemente espaços polifónicos, descentralizados e marcados por dissonâncias. Ainda assim, a metáfora musical permanece útil, desde que não seja utilizada para justificar obediências cegas. O desafio não consiste em eliminar a diferença, mas em organizar a pluralidade sem silenciar quem historicamente teve menos possibilidades de ser escutado.

 

A empatia como prática política

Martim Sousa Tavares recusa uma concepção superficial da empatia, reduzida à simpatia, à cordialidade ou às boas maneiras. Para o autor, trata-se da capacidade de compreender as pessoas com quem trabalhamos, interpretar os seus sinais e reconhecer o impacto das nossas acções sobre os outros. Como escreve: “Ser empático é, no fundo, ser uma pessoa entre pessoas” (Tavares, 2026, p. 17).

 

Nos movimentos LGBTQIA+, a empatia nunca foi apenas uma competência emocional. Foi, muitas vezes, uma condição de sobrevivência.

 

Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera compreenderam isso de forma particularmente concreta. Depois de Stonewall, participaram na criação da Street Transvestite Action Revolutionaries, conhecida pela sigla STAR, uma organização que apoiava jovens queer e trans em situação de sem-abrigo. A sua intervenção não se limitava à reivindicação pública de direitos: procurava responder às necessidades materiais de quem era excluído da família, do emprego, da habitação e, por vezes, dos próprios movimentos gays e lésbicos mais institucionalizados. 

 

A liderança de Johnson e Rivera era inspiradora precisamente porque transformava o cuidado numa prática política. Criar um abrigo, partilhar comida ou proteger jovens expulsos de casa não eram gestos exteriores à luta. Eram formas de construir, no presente, o mundo que desejavam tornar possível.

 

As suas trajectórias também nos recordam que os movimentos podem reproduzir internamente as mesmas exclusões que afirmam combater. As pessoas trans, racializadas, pobres, trabalhadoras do sexo ou sem habitação foram frequentemente empurradas para as margens das narrativas oficiais da libertação LGBTQIA+. Uma liderança empática deve ser capaz de identificar esses processos e perguntar continuamente quem permanece fora da fotografia, quem não tem acesso ao microfone e quem suporta os custos invisíveis da mobilização.

 

Harvey Milk e a construção de alianças

A mesma reflexão pode ser feita a partir da actuação de Harvey Milk. Eleito em 1977 para o Conselho de Supervisores de São Francisco, Milk tornou-se uma das primeiras pessoas assumidamente gays eleitas para um cargo público nos Estados Unidos. A sua importância, porém, não resulta apenas da visibilidade institucional que alcançou. Resulta também da capacidade de estabelecer alianças para além da comunidade gay. 

 

Um dos exemplos mais significativos foi a aproximação entre activistas LGBTQIA+ e o movimento sindical durante o boicote à cerveja Coors. Activistas e proprietários de bares gays apoiaram os trabalhadores e os sindicatos; em contrapartida, exigiram que estes reconhecessem a discriminação sofrida por trabalhadores homossexuais e apoiassem a sua contratação. O boicote tornou-se um momento importante de aproximação entre o movimento laboral e o movimento LGBTQIA+.

 

Milk compreendeu que a liberdade não se constrói em compartimentos estanques. A luta contra a discriminação em razão da orientação sexual não podia ser separada das condições de trabalho, da habitação, do acesso aos serviços públicos ou da protecção das minorias. A congregação de causas não implicava dissolver a especificidade das reivindicações LGBTQIA+. Significava reconhecer que diferentes formas de desigualdade se sustentam mutuamente e que nenhuma comunidade se liberta deixando as outras para trás.

 

Esta é uma das lições que a leitura de Martim Sousa Tavares permite transportar para o campo político: uma equipa com propósito não se limita a defender o seu pequeno território. Cada pessoa deve compreender que a sua actuação afecta o conjunto e que o colectivo perde força quando transforma as necessidades dos outros num problema secundário.

 

Um livro que também se escuta

Um dos recursos mais felizes de “Amanhã à Mesma Hora” é a inclusão de códigos QR, que remetem para vídeos, interpretações musicais e episódios referidos ao longo do texto. Não funcionam como simples ornamento tecnológico. Permitem escutar e observar aquilo que o autor procura descrever.

 

A leitura torna-se, assim, uma experiência simultaneamente textual, visual e sonora. Podemos interromper a página, apontar o telemóvel e entrar num concerto, observar um maestro, acompanhar uma interpretação ou perceber como determinado episódio se materializa musicalmente. Aprende-se muito através destes conteúdos, sobretudo porque a música possui dimensões que dificilmente cabem apenas na descrição escrita: o gesto, o silêncio, a respiração coletiva, o tempo de entrada e o modo como uma orquestra reage ao inesperado.

 

Os códigos QR transformam o livro numa espécie de partitura aberta. O leitor deixa de receber apenas a interpretação do autor e pode confrontá-la com os acontecimentos, os sons e as imagens convocados. É também uma maneira inteligente de aproximar públicos que talvez não possuam formação musical, demonstrando que compreender uma orquestra não exige dominar previamente toda a sua linguagem técnica. Um dos exemplos mais expressivos é o quarto andamento da Sinfonia n.º 88, de Haydn, dirigido por Leonard Bernstein. Quase sem recorrer aos braços, o maestro conduz através do olhar, das sobrancelhas, do sorriso e de pequenos movimentos da cabeça. A sequência torna visível uma das ideias centrais do livro: liderar não significa preencher todo o espaço nem controlar permanentemente cada gesto. Bernstein pode reduzir a direcção ao essencial porque existe uma linguagem comum, construída pelo trabalho, pela confiança e pelo conhecimento mútuo. O maestro não desaparece, mas permite que a orquestra respire e assuma a sua parte de responsabilidade.

 

O grande mérito de Amanhã à Mesma Hora está em mostrar que o trabalho colectivo não depende apenas da competência individual. Depende da capacidade de reconhecer um propósito, lidar com os egos, assumir responsabilidades e perceber que nenhuma excelência técnica compensa indefinidamente um ambiente de trabalho destrutivo.

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Autor: Martim Sousa Tavares

Amanhã à Mesma Hora — Dez lições sobre o trabalho em equipa

Editora: Livros Zigurate

Publicação: Maio de 2026  

Páginas: 168