Pensei muito antes de escrever estas palavras. Pensei se elas teriam algum sentido, se lhes eram reconhecidas alguma importância, se queria mesmo escrever sobre isto. Mas eu sinto a sua importância, a sua necessidade. Muitos dizem para não dar crédito, que quanto mais se mexe mais mal cheira, entre tantos outros chavões. Mas infelizmente é preciso falar-se sobre este tema.
Falo-vos desde experiências pessoais, antigas e recentes. Falo-vos pela necessidade, pela dor e sentido de injustiça. Falo-vos pela raiva que cresce em mim.
A experiência que estou prestes a partilhar convosco, não acontece só comigo, bem sei. Acontece com tantas pessoas iguais a mim, com tantas pessoas LGBTQIAPN+. Esta é a realidade de muitas de nós: a homofobia das redes sociais.
Estou a passar neste momento por um ataque homofónico numa das minhas redes sociais. Comentários maldosos, de pessoas que não me conhecem e que eu não conheço de lado nenhum. Este grande ataque acontece em dois momentos distintos: primeiro uma foto, depois um vídeo.
Aconteceu a 27ª Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa no passado dia 6 de Junho. Como em todas as marchas que participei, de Lisboa ou de outra zona do país, tenho um outfit específico, algo que eu crio propositadamente para esses momentos. Tem sido uma espécie de tradição: uma cauda com as cores da bandeira e excertos de poemas de escritores LGBT portugueses, uma saia arco-íris ou, como este ano, uma capa com as 6 cores da bandeira. Faço-o para sair à rua, manifestar e mostrar orgulhosamente que sou uma pessoa LGBTQIAPN+. Faço-o por vaidade e para mostrar a todas as pessoas com que me cruzo que é possível vivermos de forma livre, como somos, na nossa verdade. Faço-o por mim e por tantas outras pessoas. E com elas me tenho cruzado, quer na marcha ou fora dela, com risos, beijos e abraços. Faço-o sempre disponível para uma foto, dois dedos de conversa, um sorriso roubado.
A meu lado tenho sempre as pessoas mais incríveis, que me suportam, que me motivam, que me apoiam. Sim, tudo sinónimos para reforçar a ideia de que sou um felizardo, que não estou sozinho. E isso devia bastar (e basta!).
Eu não sou ninguém, não sou uma figura pública, alguém com um cargo importante, um influenciador ou algo desse género. Sou alguém que aprendeu da pior maneira a importância de viver a sua verdade, alguém que lutou contra comentários, olhares, descriminação. Sou uma pessoa comum, como tantas outras, e é só isso que eu quero.
Como dizia atrás, antes deste pequeno contexto, há praticamente uma semana que sou violentado com comentários homofóbicos numa rede social em específico: o Facebook. Aconteceu a marcha de Lisboa, fotos foram tiradas e num álbum partilhado pela dezanove.pt, apareço eu. A marcha foi no sábado, celebrei esse dia com os meus amigos, diverti-me, ri, sorri de verdade. Mas eis que no domingo acordo com várias notificações no Facebook: abri e haviam mais de 900 comentários na minha foto. Comentários dirigidos a mim, à minha família, mas que eram também para tantas de nós. Mais de 900 comentários homofóbicos numa publicação de uma página LGBT.
Não respondi a nenhum desses comentários. Limpei a cabeça, fiz um vídeo a falar sobre essa situação e para mim tinha acabado por ali. Publiquei nos dias seguintes fotos da marcha com pessoas, fotos minhas e alguns vídeos. Ontem partilhei o último da “saga”, um vídeo gravado numa brincadeira, fazendo referência a um meme dos apanhados da televisão, algo que me era perfeitamente engraçado e normal. As noites parecem ter algo misterioso e hoje de manhã voltei a acordar com mais de 1000 comentários nesse vídeo. E novamente, grande parte desses comentários, são comentários homofóbicos.
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https://www.facebook.com/share/r/1Lzw3qVGiG/?mibextid=wwXIfr
Certo é que eu acabo por lidar com isso relativamente bem. Desvalorizo, rio-me com os mesmos comentários iguais de sempre, faço piadas, fico em pele de galinha com os erros ortográficos e sigo viagem. Há uma camada que já é muito difícil de ser ultrapassada por pessoas que não me conhecem, não sabem quem sou, de onde venho, o que passei até ao momento. Pessoas de mal com a sua vida que têm a necessidade de diminuir os outros para se sentirem bem.
Contudo, hoje, ficou cá um bichinho que me dizia que precisava de falar sobre este assunto. Precisava de falar sobre ele para mostrar que não está tudo bem com estes comentários, que não é possível seguir a vida tranquilamente, que ainda existe muita homofobia neste país onde tantas vezes somos confrontados com o comentário “não existe homofobia”. Precisamos de falar disto, discutir, fazer entender aos outros que isto também é uma corda de suicídio, uma ponte para a morte, que causa mau estar. Precisamos falar disto publicamente, com as pessoas à nossa volta, nos canais de comunicação que nos sejam acessíveis.
No vídeo que fiz no domingo, foram vários os comentários e as mensagens que caíram, dando apoio, dizendo para eu seguir com a minha vida e não dar importância, etc. Mas isto não é sobre mim. Isto não é só um ataque à minha pessoa. Isto é um ataque a uma comunidade. Isto é aquilo que tantas de nós passamos nas redes sociais.
Falamos em liberdade de ser, mas até que ponto? Tenho de me colocar num armário das redes sociais? Tenho que deixar de as ter? Fechá-las? Temos de ser sempre nós a recuar, a deixarmos de publicar, alterarmos as definições? Temos de ser sempre nós a escondermo-nos, na forma como nos vestimos, nos apresentamos, vivemos a nossa vida? No trabalho, nas escolas, nas ruas, nas redes sociais? Temos de ser sempre saco de boxe para pessoas infelizes e termos de continuar calados para não apanharmos, para não criarmos confusão, deixarmos passar impunes todos estes comentários?
E por mais que isto me custe, é também aqui que todas nós falhamos. Falhamos na protecção do outro, mesmo que não gostemos dele. Falhamos quando deixamos que nos cerquem, que nos empurrem de novo para dentro do armário. Dos meus tempos de seminário tenho uma memória bem presente: quando alguém ou alguma coisa acontecia com um de nós seminaristas, todos os outros estavam a seu lado para o proteger e defender, quer gostássemos dele ou não. Era parte da nossa família. E eu tomei isso para a minha vida, manifesto-me quando algum dos meus sofre um ataque, mesmo não conhecendo. É isso que eu faço com a minha vida, dando o corpo às balas pelos meus. E nós, grande maioria de nós, fecha-se a olhar para o seu umbigo, para a sua casa cheia de plantas e esquece-se que existem irmãos lá fora que precisam de ajuda, de apoio, de uma palavra amiga. Aquela mensagem que ignorámos, aquele vídeo a denunciar um abuso que não demos importância. Aquela manifestação que não fomos porque “não é nada comigo”, quando viramos a cara a um assédio ou agressão. Falhamos todas essas vezes. E eles, os homofóbicos, só nos causam dano porque se juntam uns aos outros para rebaixar, para magoar. Eles só conseguem porque nós não conseguimos unirmo-nos contra estes ataques. É mais fácil calar.
Mais uma vez, isto não se trata de mim e ao mesmo tempo sim. Chamam-me de corajoso e eu não me sinto nem um pouco. Não quero saber e, na verdade, o que mais me dói são comentários contra os meus pais. Uma simples foto e um vídeo satírico tornaram-se virais, numa montra de homofobia, de escárnio. Umas simples publicações deram voz a milhares deles. E a estes milhares, juntam-se tantos outros milhares em tantas outras publicações por essas redes fora. Só falamos, só saímos de casa quando as coisas nos tocam diretamente. Até lá, assistimos incólumes ao avanço de uma opressão cada vez com mais força. Enquanto existir opressão a uma pessoa LGBTQIA+, a luta continua a ser de todos nós.
Ismael Sousa


