Verdade! Parece mentira, mas faz hoje sete anos que criei este grupo aqui no Facebook. Nasceu como forma de terapia para uma fase de depressão que estava a passar e pelo facto de achar que não havia, à data, grupos queer deste género; eram quase todos grupos para engate, o que não quer dizer que aqui o Conversas não tinha já sido palco de situações desse género (sim, ninguém é santo).
Como já muitos sabem, nunca me passou pela cabeça que o grupo crescesse tanto. Presentemente, somos mais ou menos 3500 membros, número que vai oscilando para cima e para baixo, tal como os interruptores. Destes membros poucos são os que intervêm activamente no grupo; digamos que temos uma maioria silenciosa, uns por opção, outros por receio. Várias pessoas já me confessaram que, com receio de dizer algo que ofenda alguém, preferem ficar calados. Já eu sou um desbocado e, como é do conhecimento geral, politicamente incorrecto, mas sem intenções de ofender seja quem for.
Nas relações amorosas, os sete anos são geralmente uma altura de crise, com muitos relacionamentos a não sobreviverem a esse prazo. Quanto a nós, digam-me vocês. Ainda faz sentido a existência deste grupo?
Diria que o Conversas teve duas fazes, a pré-covid e a pós-covid. Na primeira, a malta aderia aos nossos “eventos”, fossem eles jantares, piqueniques, idas ao cinema e mesmo ao teatro. Na segunda fase, parece que a malta perdeu o interesse pelos “eventos”. Acho que não é um problema só aqui do grupo, mas sim da vida no geral. O covid, em vez de aproximar as pessoas, isolou-as, tornou-as mais dependentes da vida digital e, como tal, menos sociais.
Infelizmente, do covid para cá, os direitos LGBT e os direitos humanos no geral têm vindo a ser postos em risco. Assuntos que se julgavam mortos e enterrados, renascem pelas piores razões. Refiro-me a referir às terapias de conversão, ao facto de voltarem rumores de que a homossexualidade é uma doença, ou à polémica em redor da transexualidade. Em relação à primeira, lembro-me sempre de um filme que, provavelmente, muitos de vocês nunca viram – o LARANJA MECÂNICA, de Stanley Kubrick. Nesse filme, um jovem delinquente extremamente violento é sujeito a uma terapia de choque, que o torna num “doce” com efeitos trágicos. Isto para não falar de coisas mais graves, como as legislações anti-LGBT, de países como o Uganda. Em conclusão, estamos a ir de melhor para pior e isso assusta-me.
Sei que a insistência dos pronomes neutros por parte da nossa comunidade não caiu muito bem na opinião pública e o facto de se querer forçar e insistir tanto com os mesmos, em nada nos ajudou. Sou, e sempre fui, defensor de direitos iguais para todos, independentemente da sua identidade de género, etnia, religião ou política; mas não sou favor de direitos especiais, seja para quem for. Acho que um dos grandes problemas à volta dos pronomes e identidade de género, tem a ver com o facto da maioria das pessoas não o entender, e não é a forçar que se consegue fazê-las entender.
Na minha perspectiva (criticada por muitos pelo facto de eu ser um gay branco, cisgénero e binário, o que faz de mim alguém com, supostamente, uma vida facilitada), não temos a obrigação de aceitar seja o que for, mas sim de respeitar. Um exemplo prático e polémico – faz-me confusão, e na minha consciência não consigo aceitar, que pessoas LGBT se identifiquem com um partido como o Chega, mas tenho que respeitar a ideologia de cada um. Só me preocupa é quando essa ideologia pode colocar em causa os meus direitos enquanto ser humano; assim, só me resta votar contra aquilo que eu acredito que me irá prejudicar. No fundo, este tipo de coisas fica sempre à consciência de cada um.
Muito se fala ultimamente que as novas gerações são menos inteligentes que as anteriores, mas tenho uma teoria sobre o assunto. Não acredito que sejam menos inteligentes, acho que são é mais preguiçosas. Actualmente, toda a informação necessária está só à distância de um click; não é preciso saberem nada, basta procurarem e depois têm ferramentas como o chatgpt e a AI para pensar por eles. Existem apps para tudo, para o bom e para o mau. O mais grave é que acreditam em tudo o que lhes aparece nas redes sociais, não se questionando sobre a sua veracidade ou procurarem opiniões divergentes sobre os assuntos. Infelizmente, é um problema que já contagia todas as gerações. Claro que este pensamento colectivo é do agrado das classes dirigentes, pois um povo que não pensa é um povo que não causa problemas e aceita tudo.
Depois, vivemos numa época em que as pessoas parecem viver numa redoma de vidro; tudo pode ser ofensivo, o melhor é não dizermos o que pensamos, mais vale mentir do que dizer uma verdade que pode ferir, para quê criar situações ou dizer coisas que possam provocar desconforto? A teoria é que se não concordares com o que alguns decidiram que é o correcto, és contra eles, logo és “fóbico” qualquer coisa. O facto de não concordarmos com algo não nos faz inimigos, e a conversar é que a gente se entende. Mas quando diferentes lados não se querem ouvir, o resultado é desastroso e, no caso da nossa comunidade, quem fica a perder somos todos nós.
Porra, isto está muito sério! Vamos lá aligeirar um pouco a coisa e fazer uma curta viagem ao antigamente.
Quanto era um jovem gay (estou com 61, portanto isso já foi no século passado), não existia a internet e nem sonhávamos com apps para engates. As coisas fluíam de outra maneira, olhares furtivos nos corredores dos centros comerciais, na rua ou no escuro do cinema, eram a forma que tínhamos de conhecer alguém, na maioria das vezes só para sexo. Este acontecia nos wc dos referidos centros-comerciais, na última fila do balcão dos cinemas ou no vão de uma escada cuja porta do prédio tinha sido deixada aberta… e já existia a praia 19 (mas eu ainda não sabia da sua existência). Lá para os finais dos anos 80, apareceu a primeira sauna gay de Lisboa, mas, apesar de não ser inocente, nunca lá fui. Acreditem, isto era bem mais divertido e excitante que os Grindrs deste mundo, por isso deixem o digital e venham para a rua. A adrenalina sabe bem!
Desculpem este longo testamento da vossa bicha administradora, e fico a aguardar as vossas opiniões sobre se faz ou não sentido manter o grupo e, em caso afirmativo, sugestões de como o podemos tornar melhor, mais interessante, mais relevante. Quanto a possíveis futuros eventos, temos um piquenique no horizonte, no sábado dia 23 de Maio no parque da Quinta das Conchas.
Parabéns a todos nós, espero que a nossa comunidade se fortaleça e que os nossos direitos não andem para trás. Beijinhos e abraços para todos!
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Jorge Tomé Santos, administrador do grupo de Facebook “Conversas Queer”


