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Entrevista a Alexandra Barbosa: Como a vida de Camel Toe deu um filme (com vídeo)

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Alexandra Barbosa vai estar esta sexta-feira à noite no Festival Política, no cinema São Jorge, a apresentar o filme “Camel Toe”. O projecto nasceu na Escola Artística Soares dos Reis do Porto e será agora exibido em Lisboa. “A primeira vez que contactei o Bruno para fazer o filme ele respondeu-me o seguinte: 'Estava há um ano à tua espera para fazer este filme.' E posso dizer que me apaixonei por ele”, conta a realizadora em entrevista.

 

 

“Camel Toe” valeu uma nomeação para os Prémios Sophia Estudante,  da Academia Portuguesa de Cinema. O filme teve um impacto maior do que aquele que estavas à espera? 
A nomeação para os Prémios Sophia Estudante foi uma grande surpresa, mas acima de tudo, toda a viagem do Camel Toe pelos festivais nacionais tem sido arrebatadora. Mesmo sabendo a força que o filme tem foi sem dúvida espantosa a atenção que ele recebeu e a forma como as pessoas abraçaram o projecto. No entanto, sinto ainda, em muitos casos, uma relutância no que toca à sua divulgação devido ao tema que ainda é, infelizmente, controverso. Todos os projectos escolares são um mistério no que toca à sua divulgação e como tal também eu tinha receio que o filme ficasse no esquecimento, principalmente devido à minha vontade de partilhar com o mundo a história do Bruno e a força que ele tem, para além de ser um tema tão importante e com tanta necessidade de divulgação em Portugal. 


Como surgiu a ideia de realizares este documentário?

A ideia surge inicialmente com o desenvolvimento do conceito de metamorfose, que era, nesse ano, o tema proposto pela Escola Artística Soares dos Reis. A primeira coisa que me surgiu foi trabalhar temas relacionados com a sexualidade ou género e a metamorfose pela qual as pessoas passam para se transformarem. E lembro-me de pensar, na altura, que isto seria algo que toda a gente iria querer trabalhar. Por algum tempo abandonei a ideia mas rapidamente voltei a ela quando percebi que ninguém queria pegar neste tema tão importante. O filme só nasceu quando eu conheci o Bruno. Andava a pesquisar pessoas dentro da comunidade LGBTQ que me pudessem dar mais informações sobre ela e que me ajudassem a desbloquear uma via mais especifica para o trabalho e a primeira vez que contactei o Bruno para fazer o filme ele respondeu-me o seguinte: “Estava há um ano à tua espera para fazer este filme.” E posso dizer que me apaixonei por ele. 


O que se seguiu?

A partir daqui encontramo-nos várias vezes, fui fazendo perguntas difíceis e ele foi-me respondendo, ainda hoje tenho gravações de horas de conversa sobre a sociedade e a forma como ela vê todas as questões que o filme acabou por vir a tratar. Para além de toda a discussão numa vertente mais política fui também entrando na vida do Bruno e no seu passado. Depois de finalmente o conhecer por inteiro decidi que o filme tinha de ser sobre ele e sobre a visão tão positiva e corajosa que ele tem das relações humanas e do mundo que o rodeia. 

Depois de finalmente o conhecer por inteiro decidi que o filme tinha de ser sobre ele e sobre a visão tão positiva e corajosa que ele tem das relações humanas e do mundo que o rodeia.  

 

 

Quais os aspectos que mais te surpreenderam na história de Camel Toe/Bruno?
Todas as coisas que o Bruno me contou sobre a vida dele foram espantosas, e foram-no principalmente devido à personalidade do Bruno hoje, tão divertida, aberta e compreensiva, sempre pronto a animar toda a gente, independentemente do seu passado traumático. O Bruno é alguém que pegou em toda a energia negativa e a reciclou para que possa espalhar energia positiva, e a Camel Toe é a materialização disto.

 

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E em termos de reacções? O filme já foi apresentado em várias salas. Como é que o público recebe esta história?

A primeira apresentação do filme foi na Escola Artística Soares dos Reis num auditório que albergava grande parte dos alunos. Lembro-me que foi a seguir ao intervalo e que mal conseguia respirar quando os créditos entraram. Apresentei o projecto durante uma hora e falei sobre discriminação, sobre a necessidade de olharmos para o mundo de uma maneira menos egoísta, perdi-me no discurso e fiquei extremamente feliz quando acabei.  Saí da sala e os meus amigos acompanharam-me, estavam bastante emocionados. Foi algo que me abalou muito, o momento em que percebi que o filme é muito maior que eu e que significa muito para muita gente. Na mesma noite fui sair com amigos, e nas ruas do Porto tinha imensa gente a dar-me os parabéns. Foi uma experiência extraordinária e sinto-me extremamente completa por saber que de certa forma, por muito pequeno que seja, o filme ajuda alguém.


Que outros projectos tens em mãos ao nível de realização? Em termos de cinema, o que pretendes fazer no futuro?

Neste momento estou no primeiro ano do curso de cinema da Escola Superior de Teatro e Cinema. Já fiz algumas curtas, que podem encontrar no meu Vimeo https://vimeo.com/alexandrabarbosa e que vou começar, eventualmente, a enviar para festivais. Entretanto comecei a aperceber-me que o meu trabalho tende a ser muito relacionado com estas questões de género e de certa forma o desenvolvimento interior. Sei que quero, sem dúvida, continuar a realizar mas ainda não sei se me mantenho na onda do documentário ou da ficção. Se é que esta divisão existe sequer. O sonho é crescer através dos outros e lutar pela liberdade individual e de expressão, tanto em sociedade como nas artes, sem tabus.