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Entrevista a Fernando Santos: “Morrer Como Um Homem”

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“Ver e rever tantas vezes aquela Tónia [Fernando Santos que comumente conhecemos como Deborah Krystall] no ecrã foi uma coisa apaixonante”. As palavras são de Inês Marto que fez mais uma entrevista a quem todas as noites também brilha nas noites do Finalmente Club.

 

 

dezanove: “Morrer Como um Homem” tem como ponto de partida inicial a vida de Ruth Bryden, apesar de não ser uma biografia e ter tido depois diversas histórias como inspiração, explica João Pedro Rodrigues, em entrevista a João Lopes a 22 de Outubro de 2010, incluída nos extras do DVD comercializado do filme. Como foi o processo de dar vida a Tónia e de criar essa personagem, essa ficção que contém tantas verdades?

Fernando Santos: Criar o personagem da Tónia não foi fácil, porque também continha alguns episódios passados na minha vida, também por coincidência em relação ao personagem que estávamos a abordar, que era o caso da história da Ruth Bryden. Foi bastante difícil, algumas passagens do próprio script, porque muitas coisas faziam parte da minha vida, tinham acontecido também comigo e era voltar a reviver algumas situações muito complicadas que tinha vivido no passado. Mas, pronto, com muito boa vontade fiz o possível.

 

O processo de criação da Tónia foi feito de forma mais técnica e metódica, ou mais intuitiva e crua? Como é que se desenrolou essa parte criativa ao longo da rodagem do filme?

O processo de criação da personagem Tónia foi feito, da minha parte, com uma entrega total de alma e coração. Embora depois estivesse tecnicamente muito bem dirigido pelo João Pedro Rodrigues. Mas, da minha parte, completamente entregue a tudo aquilo que era preciso fazer.

 

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Sendo que se trata de uma personagem que transporta tanto conflito interno e tanta densidade logo desde a primeira cena, quais foram, para si, as partes mais marcantes de interpretar?

As cenas mais complicadas para mim de fazer foram, sem qualquer sombra de dúvida, no Hospital. Filmar no Hospital Santa Maria alguns dias, deitado numa própria cama, com as roupas de lá. E, sobretudo, as duas cenas que tenho no Cemitério dos Prazeres. Uma às quatro da manhã, que foi a primeira e que foi para mim um choque muito forte, porque tenho um respeito muito grande por aqueles lugares onde a vida terminou, por toda aquela carga de respeito que se tem. E realmente a do hospital. O resto, também, estava numa fase muito sensível, mas foi feito com mais facilidade. Estas duas foram realmente as duas cenas mais difíceis de fazer.

 

João Pedro Rodrigues afirma, na mesma entrevista, que, por um lado, procura sempre que a rodagem do filme confirme o que está escrito no guião. Mas, por outro, procura que haja também qualquer coisa, no produto final, em que aquilo que estava planeado ganhe outra forma. E, para o Fernando, assistir ao produto final do filme alterou em alguma coisa a sua própria percepção sobre o enredo?

Não me lembro se tentei alterar, ou se pedi para alterar alguma coisa no guião, porque respeitava muito o João Pedro Rodrigues. Isso aconteceu-me mais num outro filme em que participei também, n’ A Outra Margem, do Luís Filipe Rocha. Mas neste do João Pedro Rodrigues eu acho que cumpri tudo aquilo que estava no guião e que me pediram para fazer. Aliás, eu parti para fazer esse filme com a intenção de entrega total, sem sequer reclamar absolutamente nada. Aquilo que me pedissem para fazer, eu faria. Desde que estivesse dentro das minhas possibilidades, claro.

 

A esta distância, como é que olha para Tónia e tudo o que ela simboliza? Suponhamos que conhecia hoje alguém como ela. O que é que gostaria de lhe transmitir?

Quando olho para o personagem Tónia, à distância, vejo ainda muitas coisas do meu passado. E gostaria que este personagem não voltasse a existir. Aconselho-o a todas as pessoas que tentam, de alguma forma, viver este tipo de vida sem se consciencializarem, sem pensarem muito bem nos passos a que pode levar, porque realmente, se não for bem gerido, pode acabar de uma forma muito dramática. E é realmente lamentável.

 

E a sociedade? Como é que acha que a sociedade perspectiva, hoje em dia, temáticas como as que são abordadas no filme? Pode o cinema contribuir para um olhar mais amplo?

A sociedade é muito complexa, tem que ser bem educada, para que não aconteça o reverso da medalha. Eu penso que tem que ser educada de forma a não ferir a dignidade das pessoas e fazê-las entender da melhor maneira uma ou outra realidade que às vezes elas não conseguem compreender. O cinema, eu acho que é uma das melhores, senão a melhor arte de fazer chegar às pessoas uma mensagem que desejamos que elas entendam.

 

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O cinema queer tem ganho, nos últimos anos, uma maior projecção, quer internacionalmente quer em Portugal. O que é que considera que falta fazer, no cinema queer Português, actualmente?

O cinema queer, eu acho que falta fazer tudo. Na minha opinião, tem-se avançado, passo a passo, mas muito lentamente e com alguns filmes que são alguns clichés que as pessoas acabam por não… Não sei. Sinceramente, eu acho que há muito por fazer, e ainda bem que sim, para as gerações vindouras terem ainda muito para desbravar, neste campo do cinema queer.

 

Por fim, pedia-lhe que comentasse como pensa e como sente dois momentos do filme. Nomeadamente, a cena em que Tónia, ao rezar para encontrar o rosário de ouro que tinha desaparecido, diz o seguinte: “É uma cruz muito pesada para uma mulher como eu. Perdão, Senhor, que nem mulher sou. (…) É castigo pela minha vaidade.”. E quando diz, já no hospital: “Tanto trabalho para fazer a Tónia. Bastou um dia e a Tónia acabou.”

A oração e a reflexão no hospital, eu acho que é realmente o resultado final de um projecto que, embora tenha sido destinado pela vida, acaba por fazer o personagem chegar à conclusão de que viveu uma vida errada, embora muitas vezes tentando convencer-se que estava a fazer aquilo que queria e que gostava, mas, no final, é a prova de que não funciona, que é um sistema que é erróneo… É uma coisa que é tratada com pinças, com muita delicadeza, com muita sensibilidade. A transexualidade, não se pode descrever isto assim de uma forma muito simples, mas, com o coração e não com a razão, eu acho que se deve pensar muito bem. Porque o ser humano é muito complexo – hoje pensa de uma forma, com o passar do tempo a mentalidade vai mudando também – e nem sempre chega à conclusão de que, o que gostava aos vinte anos, aos quarenta tem exactamente a mesma forma de sentir e de pensar. Não cabe à pessoa naquele preciso momento achar a razão e a solução perfeita, porque nós não somos perfeitos. O ser humano não é perfeito. É muito complicado, é uma coisa difícil de gerir e de resolver.

 

Entrevista de Inês Marto

Fotos: Rosa Filmes