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Filhos da PIDE: O armário não é teu



Para quem chega agora: a PIDE foi a polícia política do Estado Novo. Vigiava, interrogava, prendia, torturava. Acabou em 1974. Mas o interrogatório não acabou. Mudou de sala. Passou para dentro. Para o corpo de cada homem português que aprendeu a vigiar-se a si próprio antes que alguém o vigiasse. A força, o silêncio, a utilidade, a vergonha. Quatro paredes sem porta. A esta prisão interior chamámos masculinidade. E aos homens que a habitam sem saber que estão presos, chamamos filhos da PIDE.

Esta série, durante o mês do orgulho, fala deles. Das três primeiras partes — o interrogatório que herdaram, o corpo que nunca aprenderam a habitar, o homem que ainda pode nascer.

Em maio deste ano, uma denúncia entregue na Polícia Judiciária do Porto revelou a existência de encontros sexuais semanais entre homens em casas paroquiais e motéis no Norte do país. Alguns dos participantes eram padres. Os encontros eram organizados pelo Grindr, depois passavam para o WhatsApp. Os interessados recebiam uma palavra-passe e a morada. Os grupos eram apagados após cada encontro. Alguns homens iam mascarados. Outros tiravam a máscara ao longo da noite. A Diocese do Porto disse que foi “colhida de surpresa” e que “desconhece completamente o assunto.”

Claro que desconhece. A Igreja desconhece há dois mil anos tudo o que se passa dentro das suas próprias paredes quando o que se passa não combina com o sermão.

Mas este texto não é sobre a Igreja. Não é sequer sobre padres. É sobre máscaras.

Há um homem que vai a estes encontros de cara tapada e no domingo seguinte senta-se no banco da missa com a mulher e os filhos. Há um homem que durante o dia trabalha, paga contas, cumprimenta os vizinhos, e à noite entra num grupo de WhatsApp que vai ser apagado antes do amanhecer. Há um homem que deseja outro homem e que construiu à volta desse desejo uma operação secreta com a mesma estrutura que a PIDE usava para vigiar os seus avós: palavras-passe, encontros clandestinos, documentos destruídos, e a certeza absoluta de que o que não é dito não existe.

E eu não consigo odiá-lo. Consigo ter pena. Porque esse homem não é livre. É um prisioneiro que construiu a sua própria cadeia e atirou a chave para dentro do confessionário.

O desejo não é uma doença. Nunca foi. A doença é o que fizeram ao desejo.

Ensinaram os homens portugueses que desejar outro homem era pecado. Que era fraqueza. Que era vergonha. Que era “coisa de maricas.” E os homens acreditaram. Não porque fossem estúpidos. Porque não lhes deram outra história. A única história disponível era esta: sê homem, sê forte, deseja mulheres, e se o teu corpo te pedir outra coisa, cala-o. Engole. Tranca. Faz de conta. Vai ao ginásio. Vai à bola. Bebe mais uma cerveja. E se o desejo não desaparecer, esconde-o tão fundo que pareça não existir.

Mas o desejo não desaparece. O desejo é água. Pode ser represado. Pode ser desviado. Pode ser escondido debaixo de betão. Mas encontra sempre uma fissura. E quando encontra, sai com a força de tudo o que foi contido. Sai no Grindr às três da manhã. Sai na casa paroquial com a porta trancada. Sai na máscara que se usa para esconder a cara de padre. Sai na violência contra quem vive abertamente o que eles vivem em segredo. Sai no voto no Chega, porque odiar quem é livre é mais fácil do que admitir que também se queria ser.

A homofobia mais feroz vem sempre de dentro do armário. Não é uma teoria. É um padrão. O homem que grita mais alto contra os direitos das pessoas LGBTI é quase sempre o homem que mais medo tem de si próprio. Porque se aceitar que o desejo existe, toda a arquitectura da sua vida, o casamento, os filhos, a reputação, o lugar na hierarquia, desmorona. E desmoronar dá mais medo do que viver a mentir.

Mas viver a mentir também mata. Mata por dentro. Mata a possibilidade de intimidade verdadeira. Mata a capacidade de ser visto por inteiro. Mata a alegria. E às vezes mata mesmo: o suicídio entre homens é quatro vezes superior ao das mulheres em Portugal. Quatro vezes. E ninguém pergunta porquê. Porque perguntar porquê obriga a olhar para o sistema que produziu esses homens. E o sistema não gosta que olhem para ele.

Eu conheço esses homens. Não os das orgias. Os outros. Os que me escrevem em privado. Os que me mandam mensagens às duas da manhã. Os que dizem: “eu nunca falei disto com ninguém.” Os que têm 45 anos e nunca disseram em voz alta que desejam outro homem ou que sentem emoções por uma mulher trans. Os que choram a escrever porque as palavras saem pela primeira vez. Os que pedem desculpa por existir. Pedem desculpa a mim, uma Transfem, por sentirem o que sentem. Como se o desejo precisasse de absolvição.

Não precisa.

O desejo é a coisa mais antiga que temos. Mais antiga do que a Igreja. Mais antiga do que o Estado. Mais antiga do que qualquer lei, qualquer diagnóstico, qualquer catecismo. O desejo existia antes de lhe terem dado nome. E vai continuar a existir depois de todos os nomes que lhe derem. Podem chamar-lhe pecado. Podem chamar-lhe doença. Podem chamar-lhe desvio. O desejo não ouve. O desejo é. E o que é não precisa de permissão para existir.

Sete mil anos de civilização e um homem no Norte de Portugal ainda precisa de uma palavra-passe para tocar noutro homem. Precisa de uma máscara. Precisa de um grupo de WhatsApp que se apaga antes do amanhecer. Precisa de uma casa paroquial com a porta trancada. Precisa de tudo isto para viver cinco horas de verdade. E depois volta para a mentira. E a mentira é o casamento. E a mentira é a missa. E a mentira é o voto. E a mentira é a vida inteira.

Isto não é liberdade. Isto é uma prisão com melhor decoração.

O mês do orgulho existe para isto. Não para a purpurina. Não para o carro alegórico. Não para a festa. O orgulho existe para dizer a esses homens: o interrogatório acabou. Podes depor. Podes tirar a máscara. Podes dizer o teu nome e o nome do teu desejo na mesma frase e o mundo não acaba. Muda. Mas não acaba. E o que muda é quase sempre melhor do que o que estava.

O desejo não te torna fraco. Torna-te humano. E o humano, quando é inteiro, quando não precisa de máscara nem de palavra-passe nem de grupo apagado, é a coisa mais bonita que existe.

Os filhos da PIDE ainda estão a aprender a desejar sem pedir autorização. Mas alguns já estão a aprender. E o primeiro passo não é sair do armário. É perceber que o armário não é teu. Foi construído por quem tinha medo do que encontrarias se saísses.

Sai. O que encontras é o que sempre esteve lá.

Tu. Inteiro. Sem máscara. Sem palavra-passe. Sem vergonha.

E isso sim, é divino.

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Mia Cheia de Graça Actriz, formadora e activista trans. Portuguesa e congolesa, do Porto. Co-fundadora do Coletivo Xeilonas, escreve com outras personas quando a paciência acaba e a estima se mantém.