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Maria João Vaz, a vida que começou depois dos cinquenta




Durante décadas, viveu como se estivesse a representar um papel imposto, ensaiado pela família, pela escola e por uma sociedade onde o género não se questionava. Hoje, Maria João Vaz (n. 1964) fala da sua história como quem descreve um longo intervalo entre dois atos: um passado cumprido por obrigação e um presente finalmente habitável. Actriz, mulher trans, activista discreta, Maria João nasceu tarde — mas não tarde demais.

Quando veio ao mundo, nos anos 60, Portugal vivia ainda sob a rigidez do Estado Novo. A moral dominante, sustentada por uma ideia fixa de família, papéis sociais e masculinidade normativa, funcionava como um sistema de vigilância interiorizada. Foi nesse contexto que cresceu, com o nome masculino que lhe foi atribuído à nascença e que carregou durante mais de meio século. Desde cedo, porém, algo destoava. Não se tratava de rebeldia, mas de uma incongruência silenciosa, difícil de nomear, impossível de explicar.

A infância foi marcada por uma sensibilidade que não encontrava lugar. Na escola, em casa, nos círculos sociais, tudo parecia exigir adaptação permanente. Havia comportamentos aprendidos, gestos reprimidos, desejos escondidos. Ainda criança, automutilava-se sem saber porquê; mais tarde compreenderia que a dor podia ser um sintoma de disforia de género — uma realidade que, à época, não tinha sequer nome no vocabulário comum. O mal estar era vivido como defeito pessoal, como algo a corrigir, nunca como identidade legítima.

Filha de uma família lisboeta de classe média, com uma forte presença cultural — livros, música, ópera — Maria João recorda um ambiente simultaneamente protetor e opressivo. O pai, funcionário da TAP, homem culto e frustrado, mantinha uma visão rígida do mundo; a mãe, secretária, procurara no casamento uma forma de emancipação possível. Entre ambos, cresceu alguém que aprendeu cedo a esconder-se para sobreviver. A casa era refúgio e prisão, lugar de segurança e de medo.

Na adolescência e juventude, o esforço de “normalização” intensificou-se. Para agradar, para não destoar, para evitar a exclusão, masculinizou-se o mais possível. Foi à tropa, casou, teve três filhas. Construiu uma vida conforme, enquanto, em segredo, existia outra — a de Maria João — vivida à porta fechada, entre culpa e alívio, como se fosse um desvio e não uma verdade.

O teatro surgiu quase por acaso, por sugestão materna. Entrou para o Conservatório, formou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema e construiu uma carreira discreta, feita de cinema, televisão e publicidade. O reconhecimento chegou em meados da década de 1990, com um anúncio que se tornou icónico — “Tou, xim!” — e que fixou o seu rosto no imaginário colectivo. O sucesso trouxe visibilidade, mas também reforçou a sensação de aprisionamento: quanto mais conhecido como homem, menos espaço parecia haver para Maria João existir.

Apesar de trabalhar regularmente, sobretudo em publicidade, sentia-se sempre à margem. No teatro e no cinema, as oportunidades rareavam. Durante anos, sustentou-se com trabalhos ocasionais, numa travessia profissional irregular, enquanto a vida interior continuava suspensa. Mesmo no casamento, a sua identidade verdadeira permanecia oculta, embora não totalmente invisível: uma das filhas chegou, em criança, a conhecer Maria João, sem dramas nem espanto.

A viragem só chegaria muito mais tarde. Em 2018, coincidindo com a aprovação da Lei n.º 38/2018, que consagrou em Portugal o direito à autodeterminação da identidade de género, deu-se aquilo a que chama a sua “epifania”. Não foi um diagnóstico médico nem uma leitura académica, mas uma relação afectiva que lhe devolveu uma evidência simples: não se tratava de uma “faceta”, nem de um papel ocasional. Era uma mulher. Sempre fora.

A transição iniciou-se na casa dos cinquenta e decorreu, em grande parte, durante a pandemia. Entre hormonas, cirurgia realizada em Espanha, mudanças corporais e administrativas, Maria João viveu o processo como um renascimento tardio e, paradoxalmente, sereno. Queimou fotografias do passado, apagou registos profissionais antigos, fechou de vez o ciclo de uma identidade que nunca sentira como sua. “Foi como nascer de novo”, diria mais tarde.

Desde então, retomou a carreira artística já enquanto actriz. Subiu ao palco do Centro Cultural de Belém, participou em séries e curtas metragens, trabalhou com companhias e encenadores diversos. Em 2024, integrou o elenco da peça “Tudo sobre a Minha Mãe”, adaptação teatral do filme de Pedro Almodóvar (“Todo sobre mi madre”, 1999), encenada por Daniel Gorjão, num contexto marcado por polémica em torno da representação de personagens trans. A sua posição, ponderada e firme, resume-se a uma convicção: num mundo verdadeiramente igual, estas discussões não seriam necessárias.

Hoje, Maria João Vaz descreve-se como alguém ainda em aprendizagem. Não apenas profissional ou pessoal, mas existencial.

Fala de uma infância prolongada, de uma maturidade que começa agora, de uma vida que só recentemente se tornou inteira. Publicou a sua autobiografia: “Memória de uma epifania“, editada pela Leya/Oficina do Livro, em 2023, e envolve-se, com discrição, em causas ligadas aos direitos das pessoas trans, consciente de que a sua visibilidade pode ser, para outros, um sinal de possibilidade.

Depois de mais de cinquenta anos de silêncio, Maria João não fala de ressentimento, mas de tempo perdido. E, sobretudo, de tempo recuperável. A sua história não é apenas a de uma transição de género, mas a de um acerto tardio entre identidade e existência. Uma vida que, finalmente, deixou de ser paralela para passar a ser vivida em plenitude.

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Paulo Marques