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"Miss" de Ruben Alves: “Uma personagem que só quer ser livre”

Ruben Alves Miss.jpg

Depois do estrondoso sucesso "A Gaiola Dourada", o realizador Ruben Alves está de regresso com uma história de identidade e coragem. Alexandre Wetter é "Miss". O filme estreia hoje nas salas de cinema de todo o país.

 

dezanove: Disseste na antestreia que este filme era sobre sonho e sobre identidade… como é que esta ideia surgiu?

Ruben Alves: A identidade é uma coisa que me toca. N' "A Gaiola Dourada” falei da identidade de um povo. Aqui falo da identidade de um ser. O meu encontro, por acaso, com o Alex nas redes sociais para fazer um filme, inicialmente para televisão, sobre uma personagem trans em fase de transição fascinou-me. Eu disse que tinha de ser um filme de cinema. Por isso é que ele tem a liberdade que tem, tem a coragem de assumir a diferença, a sua feminilidade e faz performances com isso. Para mim isto não é uma diferença, mas ainda o é para a sociedade.

 

Mas a ideia do filme já vinha de trás ou só se construiu ao conheceres o Alex?

RA: As duas coisas. Já tinha a história, mas ainda não sabia como a ia contar. Quando o encontrei disse que tinha de ser uma personagem assim. Foi uma simbiose. Encontrei o pretexto do Miss France e de uma personagem que não quer entrar em caixas nem seguir regras, mas que depois vai entrar num concurso só com regras clássicas e heteronormativas.

 

Depois d’ “A Gaiola Dourada” a fasquia estava muito elevada… No final da antestreia do filme recebeste uma genuína ovação de pé ao longo de minutos de toda a plateia. Como a recebeste?

RA: Sim, sentimos. Tal como eu o Alex tem um instinto muito desenvolvido, temos uma lucidez muito orgânica e sentimos as coisas. Sentimos que estes aplausos eram verdadeiros e nada forçados. Sabia que nesta plateia estava um mix, alguns franceses, alguns políticos, pessoas do cinema, da arte, foi emocionante. Eu não faço nada para receber glória e aplausos. Este filme, como segundo filme, foi um risco pelo tema. Eu podia ter feito alguma coisa mais próxima d‘ “A Gaiola Dourada”. Mas eu até acho que os dois filmes têm muito a ver porque são a minha forma de mostrar as emoções. Quando sinto que tenho de fazer, faço. Por isso receber estes aplausos foi óptimo, vi o meu trabalho reconhecido. Lá está, eu nunca faço as coisas pelo resultado, faço pelo conteúdo e não pela forma. Esta é a história desta pessoa e que eu quis contar. Vamos estrear num contexto de covid, mas espero que as pessoas venham por aquilo o filme diz, que faça bem à alma. Fez-me bem à alma ver que as pessoas da antestreia, todas diferentes, gostaram. Deram-me emoção com esses aplausos.

 

RA: Precisamente, como é que está a ser recebido este filme no estrangeiro em contexto de pandemia? Pessoas com medo de ir ao cinema, outras sem dinheiro para ir ao cinema...

RA: Devagarinho, porque primeiro o filme tem de estrear em França, mas hoje de manhã recebi um telefonema a dizer que o meu filme vai passar num festival no Japão. Temos de resistir. A cultura é super importante.

 

Alexandre Wetter Miss.jpg

Como surgiu a oportunidade de entrar neste filme e ser o protagonista?

Alexandre Wetter: Foi o Ruben que me descobriu no Instagram. Ele procurava uma pessoa andrógina para um projecto. Quando vi o primeiro filme dele “A Gaiola Dourada” disse uau! Disse-lhe que não queria trabalhar com ele em televisão, mas sim no cinema. Este tema é demasiado importante e precisamos do melhor meio para conseguir passar a mensagem. Só para televisão não seria o mesmo, não teríamos a mesma liberdade. Isto foi há cerca de três anos.

 

Há uma corrente no activismo LGBT, em particular as pessoas T, que defende que os papéis das personagens trans apenas devem ser interpretados por actores ou actrizes trans. O que pensas sobre esta matéria? Este filme pode dar-lhes voz?

AW: O meu ponto de vista sobre este tema é claro. No que me diz respeito quando um actor se propõe a um papel é capaz de desempenhar qualquer papel. Compreendo que as pessoas LGBT se queiram ver representadas no cinema e que precisem trabalhar. Mas seria como dizer que apenas os médicos poderiam fazer o papel de médicos. É um pouco delicado e compreendo, mas não devemos esquecer o trabalho de pesquisa que leva ao desempenho dos actores. Um actor deve ter essa capacidade e inteligência de interpretar papéis diferentes. Eu sou a favor da representação, que haja mais pessoas LGBT representadas, mas também que estas pessoas estejam integradas e isso deixe de ser um assunto. No fundo, adorava que houvesse mais pessoas trans a fazer todos os tipos de papéis e não apenas papéis trans.

RA: Eu fiz um filme para quebrar estas caixas, gavetas, rótulos… Esta sociedade quer-nos colocar dentro de caixas, gavetas, rótulos e esta personagem que eu desenhei não quer isso: Quer ser livre! Esta personagem não quer ser mulher. Só quer viver a sua feminilidade e quer ser livre para isso. Assume-o e acho isso maravilhoso.

O meu propósito no início era fazer um filme sobre transexualidade, até porque é um assunto que me diz muito por amizades próximas, mas quando conheci o Alex achei que isto era ainda mais complexo, mais comovente e fiquei sensibilizado. Recentemente na Bélgica uma ministra trans foi eleita, mas o assunto não foi a identidade de género dela, mas sim a sua eleição e isso é maravilhoso. Os temas trans não têm de ser o assunto.

 

Sem sermos spoilers que simbolismo têm os cravos que vemos no filme?

RA: Têm um simbolismo de ligação a Portugal e com esta revolução que tivemos, única no mundo. É a revolução de um ser que advém do amor e termina em liberdade.

 

Amanda (Pascale Arbillot), responsável no filme pelo desfile das misses, diz uma frase que potencia bastante reflexão: “De tanto pensarmos na forma, esquecemos o conteúdo”. Consideras que a sociedade de hoje não valoriza o conteúdo? Que conselhos darias aos Alex’s de hoje que têm sentimentos contraditórios e querem ser “alguém” ao invés de não serem “ninguém” na vida?

AW: Para se ser alguém é preciso, em primeiro lugar, conhecer-se a si próprio, sem ter influências exteriores, sem ser influenciado pelos clichés que nos querem impingir, sem nos forçarem, nem projectarem ideias sobre nós. É reencontrar os sonhos de criança que temos em nós. É acolher o amor dos outros, aquelas que nos compreendem, aquelas que nos constroem, que nos acrescentam algo.

Ruben Alves e Alexandre Wetter Miss.jpg 

E o Alex do filme conseguiu-o, portanto, há esperança.

AW: A história do filme é essa. O importante não é só a finalidade, mas o caminho percorrido.  Não podemos esquecer que haverá sempre alguém que nos amará, mesmo que nesse momento não exista ninguém e que estejamos sozinhos sem ninguém para nos ajudar. É preciso avançar apesar das dificuldades e manter-nos mentalmente sãos.

RA: No filme, o Alex perde-se um bocado pelo caminho, mas é importante que para além do Amor dos outros, ele próprio saber amar-se. Se não te amas, não estás preparado para receber o amor dos outros. Precisas de amor para te construir.

 

 

Entrevista de Paulo Monteiro