Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de
alguma forma se modificaria.
Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em relação à luz. E além da certeza, a premonição de
um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim.
A obra Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, é uma das mais importantes obras da literatura brasileira contemporânea. Composto por 18 contos que nos deixam de lágrimas nos cantos dos olhos e estômago apertado, este livro escrito em 1982 em plena ditadura militar, leva o leitor para um Brasil silenciado, repleto de medo e repressão e no início da
crise do VIH.
Republicado agora pela Laika Edições em Portugal, aqui encontramos 18 histórias de personagens comuns, que podiam ser qualquer um de nós. E são também 18 histórias repletas de personagens que nos ficam na memória durante muito tempo. Em comum têm a solidão, o desejo de encaixar, o medo de perder quem amam e a tentativa constante de encontrar sentido num mundo em mudança. São contos sobre a procura de amor, identidade e pertença e a constante sensação de vazio que vive neles e que o leitor acaba por sentir em si também.
A escrita de Caio Fernando Abreu não é uma escrita vulgar, comum. É preciso ler com
calma e atenção, mas é também uma escrita densa, que emociona, agarra e preenche o
leitor. Morangos mofados não é um livro para ler rapidamente; é um livro para saborear. É uma escrita que exige tempo, atenção e entrega, mas recompensa quem aceita esse convite.
Há livros feitos para entreter e livros feitos para mudar vidas. Morangos mofados pertence sem dúvida alguma ao segundo grupo. Não nos traz grandes revelações, mas desperta-nos para as dores e sensibilidades humanas. É um livro que fala em cada palavra mas também nos silêncios; o que fica por dizer nas entrelinhas é tão ou mais importante do que aquilo que é dito.
Escrito há mais de 40 anos, Morangos Mofados é um livro que continua actual. As suas inquietações não pertencem apenas ao Brasil dos anos 1980, mas à condição humana. O autor aborda temas como a sexualidade, o afecto e o preconceito com uma sensibilidade e uma empatia impressionantes e dá voz a personagens que raramente encontravam espaço
na literatura. É uma obra melancólica e esperançosa, que nos convida não apenas a ler, mas a sentir.


