(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)
“Eu amo quem quiser, seja homem ou mulher!” Quantas vezes não ouvimos esta frase repetida ad nauseam nas marchas do orgulho LGBTQIA+? E o resto? O que nos foi roubado?
Quantos de nós fomos ensinados a não ser efeminados, a não brincar com bonecas, obrigados a jogar futebol ou a usar azul? Quantos não fomos instruídos de que gostar de ler, de teatro ou de arte eram coisas de paneleiros? Que casamento era entre um homem e uma mulher e que uma criança para ser ‘normal’ tinha de ter um pai e uma mãe? Afinal não havia sido assim com Nosso Senhor Jesus Cristo – esqueceram a parte da narrativa em que Jesus teve dois pais, mas adiante…
O que tenho a dizer em relação a todas as verdades absolutas que me foram inculcadas ao longo de décadas? E o que me foi roubado? Pois é. Nesse ponto, diz o povo, e com razão, torce a porca o rabo. Ninguém se preocupa com as sovas que levei, nem tão pouco com todas as vezes que me anulei enquanto pessoa, de forma a satisfazer uma sociedade atrasada e tacanha.
E antes que se levantem os Dons Sebastiãos desta vida – ou deverei dizer Venturas? – não, não falo de cor. Mais que uma afirmei – e afirmo – que tudo quanto escrevo nas minhas crónicas foram situações experienciadas ou vistas e analisadas com o meu habitual olhar crítico.
Tinha quase 31 anos quando, a ferros, saiu a lei que permitiu o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Nunca casei, ainda que seja um sonho antigo. Pode ser que aconteça. Se aparecer a pessoa certa. Algo difícil, quando tanta gente é dada a relações abertas e eu nunca gostei de correntes de ar. À parte esse pormenor, sei que seria olhado de lado por familiares e amigos, mas isso… Eles que tratem os traumas deles.
Algo que sempre acalentei também foi ser pai. Na minha fase heterossexual, quando queria agradar aos outros, tinha todo um plano familiar montado. À medida em que me fui assumindo e aceitando, – vou mais longe, reconstruindo – a vontade de ser pai nunca passou. Recordo que em 2014 me dirigi à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, para perceber como funcionava o processo de adopção, ainda me inscreveram nuns cursos, mas depressa perceberam que a ideia de ser pai solteiro partia do facto de ser gay… Logo atiraram comigo para uma lista de espera de 10 anos, como quem diz: – Até lá, este desiste!
E desisti! Claro, como em todos os processos, este deixou marcas. Ouço muitas vezes mães que perdem crianças durante a gestação e têm de fazer o luto. Eu passei não direi que por um processo idêntico, mas por um processo que até hoje magoa. Eu só queria partilhar com uma criança o amor que tinha para lhe dar enquanto pai (sinto nojo de quem mete no mesmo saco homossexualidade e pedofilia, é misturar alhos com bugalhos e apenas demonstra quão impreparada a nossa sociedade está para tudo o que sai da norma).
O tempo foi passando e, entretanto, em 2016, a lei que permitiu a adopção por casais do mesmo sexo também passou. Mas fiquei, de certa forma, adormecido. Cuidador dos meus pais e dos meus avós, segunda licenciatura, COVID, a vida aconteceu e construí uma carapaça. Comecei a apregoar aos 7 ventos que não gostava de crianças. Que era um crime ter filhos, tendo em conta o estado do mundo, entre outras desculpas arranjadas à pressa aquando de perguntas inconvenientes, por parte de quem a própria vida não lhes chega.
‘Eu, filhos? Detesto crianças.’ Dizia isso, ficando sempre com um amargo de boca ao ver o olhar melancólico dos meus pais ao verem os netos dos amigos ou dos irmãos (atenção, bem sei que são eles que têm de gerir as suas expectativas, não eu, ainda assim…).
Nem de propósito. Trabalhei 12 anos numa empresa de prestação de serviços informáticos. Por motivos que pouco interessam, seria absurdo estar a falar de situações de assédio moral numa empresa como aquelas – mas, estou a fugir do assunto – tive de mudar de profissão. E adivinhem o que faço agora? Pois é. Sou professor do 3.° ciclo. E não, não tenho filhos, mas tenho 200 crianças a meu cargo, descobrindo, para grande alegria, que não detesto crianças…
A sociedade, essa sim, fez-me, uma vez mais (passaria o resto do dia a falar de situações) a adaptar-me a uma realidade que nunca desejei ser a minha: chegar perto dos 50 anos, sozinho, sem ter filhos. Com uns aconteceu porque quando a lei passou não tinham já condições económicas para ter filhos, com outros porque, simplesmente, como eu, nos foi roubada a capacidade de sonhar, mais do que isso, realizar um sonho. Que mundo este! Até quando seremos impedidos de fazer o que queremos só porque sim? Apenas por chocar quem bate no peito todas as semanas e cospe no pobre ao seu lado, por chocar os que deixam as mulheres e os filhos em casa para dormir com outros homens, por chocar as famílias tradicionais, que enchem as famílias de porrada e fome, mas desconhecem o significado da palavra AMOR?
Um pouco de justiça neste mundo doente.
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Foto: https://depositphotos.com/pt
António S., um homem queer a caminho dos 50 anos


