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Por falar em bullying…

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No passado dia 20 de Maio, Portugal torna público, entre diferentes canais de comunicação social, mais um caso de discriminação e violência motivada por bullying. Entre diferentes manchetes, lia-se: “Criança atropelada para fugir de Bullying, na Estrada Nacional 10-12”.

Com admiração, assistíamos a mais uma entre tantas vítimas de massacre físico e psicológico infligido entre jovens em meio escolar. Felizmente, este jovem, que terá entre 12-16 anos, sofrera apenas ferimentos físicos ligeiros, (mas psicológicos incalculáveis), tendo a jovem que o agrediu sido punida pela escola que frequentam com um procedimento disciplinar, ficando ambas as crianças a ser seguidas pelo psicólogo escolar. Aparentemente, um final “feliz”.

No entanto, importa compreender que o bullying, comportamento de abuso que assume diferentes formas, física, verbal, emocional, e cada vez mais presente entre os meios tecnológicos que nos rodeiam, o cyberbullying, deixa marcas permanentes na saúde psicológica das suas vítimas como o baixo-nível de auto-estima, a desconexão afectiva e social ao longo do percurso de vida, resultando muitas das vezes em comportamentos suicidas ou até mesmo à morte. Este jovem mostra ter escapado a um final trágico mas terão fugido as consequências deste episódio?

Segundo a Amnistia Internacional, no seu manual educativo de direitos humanos e combate à discriminação de 2017, #StopBullying, mostra-nos que em Portugal, 1 em cada 5 estudantes estão directamente envolvidos em comportamentos de bullying. Mais recentemente, a campanha da Guarda Nacional Republicana (GNR), #NãoSouUmAlvo, iniciada no início deste ano com vista a contrariar a violência nas escolas, mostra-nos que em 4 500 escolas policiadas mais de 5 600 crianças foram assinaladas sob injúrias e ameaças. Também, a organização de jovens LGBTI+, rede ex aequo, que trabalha com jovens nas escolas sobre tópicos LGBTI+, no seu relatório anual de 2019, desvela que 79% dos jovens tinham sofrido incidentes de bullying antiLGBTI+.

O dezanove.pt, enquanto portal de notícias LGBTI+ que preza pela liberdade de expressão e denúncia das diferentes formas de violência e discriminação, dá voz a uma das muitas vítimas de bullying por motivo da sua orientação sexual e expressão de género. Um exemplo dos muitos que nos chegam e que, devido à salvaguarda pessoal do jovem em causa, mantemos no anonimato:

 

Como descreves as formas de bullying e violência experimentada na escola?

Os insultos, discursos de ódio e manipulação eram a forma mais comum, mas também se deram situações de agressão (física). 

Quais os factores mais recorrentes que apontas incitadores de bullying?

A expressão de género e orientação sexual.

Que estruturas de apoio identificarias/identificaste para contornar/denunciar esta realidade?

Na altura [quando tinha 10 e 13 anos] não denunciei porque não senti segurança para tal, senti que a escola e família não estavam preparadas para me ajudar e que iria ser algo desvalorizado.

Que apoio consideras existir ou deveria existir nas escolas para reduzir a violência entre jovens?

Deveria haver apoio psicológico nas escolas que fosse mais seguro, activo, atento e consolidado. Os adultos - principalmente professores - deveriam estar mais atentos e ter melhor formação para lidar com este tipo de situações.

Deixa-nos uma mensagem que gostasses de passar a quem continua a sofrer de bullying.

Tudo passa, tudo melhora. Por mais que pareça algo impossível e distante, é possível SIM encontrarmos pessoas que nos aceitem e com quem nos sintamos segures.

Mantendo o seu anonimato, este entrevistado hoje com 19 anos revela-nos um dos factores mais perpetuadores destes comportamentos tóxicos, a dificuldade entre os jovens em encontrarem nas escolas espaços inclusivos e de segurança para todos, onde sejam abordados temas sobre educação para a paz, respeito, igualdade, tolerância, solidariedade, cooperação e não violência, desenvolvendo-se de forma integral, sem medos, para uma cidadania activa.

Em Portugal, país que segundo a UNICEF mostra estar no top 15 dos países do bullying juvenil, na Europa e USA, mostram faltar políticas antibullying em ambiente escolar. Políticas que sejam capazes de diagnosticar os efeitos do bullying (onde, como e com quem), que encoraje as vítimas e agressores a programas de acompanhamento e reflexão ao invés da punição, que possibilite estimular um ambiente de aceitação para a diversidade e de denúncia da violação do direito à não discriminação. É urgente olhar para o bullying como um problema de discriminação social que afecta toda a comunidade e não apenas inserido em ambiente escolar.

 

Daniel Santos Morais

Mestre em Sociologia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Licenciado em Estudos Europeus pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra