a saber

Tibira, o crime homofóbico registado mais antigo do Brasil colonial



A história de Tibira mostra-nos que a homofobia no Brasil não é um fenómeno recente e que, pelo contrário, está intrinsecamente ligada ao processo de colonização. Tibira, indígena tupinambá acusado de sodomia, foi executado em 1613 ou 1614. Este episódio foi descrito pela primeira vez na obra História das coisas mais memoráveis acontecidas no Maranhão nos anos de 1613-1614, de Yves d’Évreux.

Tibira significa em tupi “homem-mulher” e terá sido um nome atribuído postumamente pelo frei francês que descreveu o sucedido. Segundo o sociólogo e antropólogo Luiz Mott, fundador da ONG Grupo Gay da Bahia, este foi o primeiro caso documentado de execução por motivos de homofobia no Brasil.

A homofobia não era comum entre muitos povos indígenas. Pelo contrário, relações sexuais e afectivas entre pessoas do mesmo sexo eram comummente aceites, bem como expressões fluidas de género. Colonos portugueses e franceses relataram choque e surpresa perante a existência de indígenas homossexuais e de identidades de género diversas e reagiram com repressão e violência para controlar o que consideravam “depravação”.

Possivelmente para servir de exemplo, Tibira foi assim brutalmente assassinado, sem autorização formal da Inquisição ou do Papa. Neste espetcáculo cruel e desumanizador descrito por Évreux, o mártir foi amarrado à boca de um canhão no Forte de São Luís.

Durante séculos, a história de Tibira permaneceu praticamente esquecida. Hoje, a sua memória tem vindo a ser recuperada como símbolo da violência exercida contra a diversidade sexual e de género no contexto da colonização. Foi inaugurada uma placa de homenagem a Tibira em São Luís, e o Grupo Gay da Bahia defende a sua canonização. A história de Tibira pode também ser conhecida com maior detalhe no livro São Tibira do Maranhão, 1614-2014, Índio Gay Mártir, de Luiz Mott.

Recordar Tibira é também reconhecer que a homofobia no Brasil tem uma origem colonial, profundamente ligada à imposição de normas morais europeias. Conhecer esta história é também uma forma de reconhecer que muitos dos desafios do presente têm raízes profundas no passado colonial.

.

Fotos: Reprodução Instagram

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *