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Padre Fernando Santos: “O ideal era que os líderes religiosos estivessem presentes nesta vigília”

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A vigília de Lisboa de homenagem às vítimas do massacre de Orlando contou com a participação de cerca de 200 pessoas. Entre elas estava o padre Fernando Santos, membro da Igreja Anglicana em Portugal e responsável por quatro comunidades na região de Lisboa.

Esta terá sido das primeiras vezes que um membro da hierarquia de uma igreja participou num acto convocado pela comunidade LGBT em Portugal. Uma realidade que, no entanto, não é desconhecida pela Igreja Anglicana noutros países. “No Brasil, por exemplo, há várias paróquias envolvidas no movimento LGBT, em que participam em marchas como cristãos. Por vezes, no contexto português, consideramos que a Igreja é só a Igreja Católica, quando há mais realidades, formas e posturas”, disse Fernando Santos em entrevista ao dezanove. Em Portugal a comunidade anglicana está concentrada nas regiões da Grande Lisboa e Grande Porto e conta com cerca de cinco mil membros.

 

dezanove: É inédito encontrar um representante religioso em convocatórias LGBT. Porque decidiu vir a esta vigília?

Padre Fernando Santos: Achei que era importante estar unido a este momento em que todos estamos implicados e em que todos somos responsáveis. Sempre que somos intolerantes com o outro, que não somos capazes de acolher, de aceitar as suas as diferenças, somos responsáveis por estes extremismos, porque os alimentamos com as nossas atitudes.

 

A religião ajuda a alimentar estes extremismos?

A religião também tem extremismos que provocam outro tipo de extremismos como o que assistimos há dias nos Estados Unidos. Mas a religião não tem essa função, é precisamente a contrária. No cristianismo, a mensagem é a da não exclusão. Mas isso leva tempo. Estão a ser dados passos grandes em algumas confissões religiosas, noutras tem sido mais lento. Mas acredito que já muito se fez. A homossexualidade deixou de ser tabu.

 

Como é que a Igreja Anglicana encara o tema?

Nós assumimos abertamente esta realidade. Temos no contexto da comunidade anglicana, nomeadamente até há algum tempo, um bispo nos Estados Unidos assumidamente homossexual. Claro que não estamos todos de acordo, não há um consenso. Mas há esta capacidade de enfrentar, encarar e aceitar o outro, mesmo que não concordemos. Há muito trabalho na comunidade anglicana, muitas redes que envolvem comunidades e paroquias. No Brasil, por exemplo, há várias paróquias envolvidas no movimento LGBT, em que participam em marchas como cristãos. Por vezes, no contexto português, consideramos que a Igreja é só a Igreja Católica, quando há mais realidades, formas e posturas.

 

Gostava de ter encontrado nesta vigília representantes católicos?

Acredito que no meio desta multidão haja alguns. É verdade que o ideal era que os líderes religiosos estivessem aqui presentes, como estiveram noutros países. Acompanhei algumas manifestações em alguns lugares. Nos Estados Unidos, onde temos uma Igreja mais numerosa, vi bispos à frente destas manifestações e a dar a cara.

 

No caso português, nota alguma evolução entre os católicos nos últimos anos em relação à forma como encaram as pessoas homossexuais?
O Papa Francisco está a agitar as mentalidades, mas nada disto se muda por decreto. É uma questão cultural que não tem nem um ou dois anos. Tem séculos. Acredito que, neste momento, mesmo não sendo a postura ideal de aceitação do outro na sua diferença, já é assunto. Até há algum tempo não era assunto. Podem ser passos pequenos, mas já são passos concretos.

 

Há um sector do activismo LGBT que tem uma opinião muito crítica em relação à Igreja Católica e à religião. Costuma acompanhar estas declarações?

Confesso que é algo que me incomoda um bocadinho. Mesmo aqui já vi alguns cartazes um bocadinho incómodos, pelo menos para mim. Acho que isto também é culpa dos líderes religiosos que não se envolvem nestas questões. Eu estou aqui também para desmistificar essa ideia. Na Igreja nem todos temos a mesma visão das coisas. Estou aqui enquanto cristão e clérigo, a solidarizar-me com este momento.

 

Fala-se cada vez mais de diálogo inter-religioso. As questões LGBT entram no diálogo inter-religioso em Portugal?
Até agora não têm sido assunto. O trabalho inter-religioso é também muito recente. Em Portugal havia já algum trabalho, mas era reduzido e com pouca visibilidade. Na parte que me toca, estou envolvido num grupo de trabalho no Alto Comissariado para as Migrações e esse é um ponto que não tem sido abordado. Na última reunião desafiei os meus colegas a estarem presentes aqui esta noite.

 

Qual foi a reacção?
Foi de alguma surpresa, de alguma postura politicamente correcta, mas pouco mais que isso.

 

Encontra aqui as fotos da vigília de Lisboa.

 

Rui Oliveira Marques