opinião

Cinquenta sombras de cinzento



Não. Esta crónica não vai ser acerca de literatura de cordel que dificilmente passaria o teste de Bechdel.

Vai ser sim o desenvolvimento de um tema que venho abordando e mencionando em várias crónicas e que é a gama de tons cinzentos que a relação entre duas pessoas pode assumir.

Como venho dizendo, a meu ver, quando falamos no envolvimento mais íntimo entre duas pessoas (e claro que falo sempre a partir do prisma de um homem-cis gay), temos necessariamente que que discutir as coisas com abertura à subjectividade que acompanha sempre o relacionamento entre duas pessoas.

No entanto, a minha experiência (tanto como actor involuntário em literatura de “faca e alguidar”, como enquanto observador e ouvinte das experiências dos meus amigos) é que parece existir uma polarização imensa na forma como muitos homens olham para os relacionamentos e em relação à forma como uma pessoa pode existir na vida de outra pessoa. Concretamente, parece-me existir uma crença vincada em que alguém só pode ser uma de duas coisas: ou um engate completamente casual que não se repete e se faz de conta que não existiu, ou uma situação em que química e atracção são confundidas com compatibilidade para a vida.

Não vou armar-me em Dalai Lama dos relacionamentos e dizer que sempre fui ultra-iluminado e nunca jamais em tempo algum me incluí em nenhum destes grupos. Claro que já… vão ler as crónicas acerca do chamado “Jamie-gate” e vão perceber a facilidade com que eu às vezes confundo “química e atracção” com “compatibilidade para a vida”… No entanto, e também comparando aquilo que tem sido a minha experiência em Lisboa com aquilo que foi a minha experiência na última década numa cidade e país diferentes, eu sinto bastante falta da abertura de espírito da parte das outras pessoas para ocuparmos um lugar na vida um do outro que ficava algures entre este preto e branco. Também me surpreende a incredulidade com que algumas pessoas reagem quando eu digo que tinha “fuckbuddies” regulares, que nunca me apaixonei por nenhum deles apesar de gostar bastante da companhia de todos, e que fiquei amigo de todos mesmo depois de eles terem arranjado namorado. 

… quando eu digo que tinha “fuckbuddies” regulares, que nunca me apaixonei por nenhum deles apesar de gostar bastante da companhia de todos, e que fiquei amigo de todos mesmo depois de eles terem arranjado namorado. 

Nada disto significa anestesia emocional ou desumanização do outro, pelo contrário: a meu ver, reforça o facto de reconhecermos plenamente que a outra pessoa não é só um objecto sexual e que é um ser humano com emoções, necessidades e sentimentos tal como nós, sem que  nada disso acarrete um compromisso para a vida e traga simplesmente um reconhecimento do outro em toda a sua natureza.

A outra pessoa não é só um objecto sexual e que é um ser humano com emoções, necessidades e sentimentos tal como nós, sem que  nada disso acarrete um compromisso para a vida…

Reconheço que esta noção clara da diferença entre “química e atracção” e “compatibilidade para a vida” era ajudada pelo facto de nessa altura eu estar numa relação estável (e aberta) com outra pessoa e esse facto sempre foi respeitado pelos outros. Uma das coisas com as quais tenho tido dificuldade agora que estou “single and ready to mingle”, é manter essa clareza que tinha antes, porque inevitavelmente a ideia de “potencial para alguma coisa” anda sempre a pairar e, de uma maneira geral, tenho encontrado uma resistência enorme na maioria das pessoas que tenho conhecido em querer navegar o terreno cinzento entre “engate” e “compromisso” e, felizmente ou infelizmente, é essencial navegar esse terreno para se perceber exactamente de que forma é que o outro se pode encaixar na nossa vida.

Terreno cinzento entre “engate” e “compromisso” e, felizmente ou infelizmente, é essencial navegar esse terreno para se perceber exactamente de que forma é que o outro se pode encaixar na nossa vida.

O motivo pelo qual as pessoas evitam navegar esse terreno é algo de que também já falei: o medo. Medo de sofrer, medo da desilusão, etc. No entanto, é urgente reconhecer duas coisas: as outras pessoas não têm culpa dos nossos medos e a única coisa que combate o medo é o conhecimento, mas para esse conhecimento (ou amadurecimento, se quisermos) chegar, temos que ser nós a dar o primeiro passo e, passe o cliché, sair da nossa zona de conforto. (E não resisto a citar a piada mórbida de que o caminho para o topo do Monte Evereste está carregado com as ossadas de pessoas que decidiram sair da sua zona de conforto).

O medo

Acho que precisamos todos de nos lembrar um bocadinho mais que já tivemos um ou dois anos e a única forma como conseguimos aprender a caminhar foi a cair repetidamente, da mesma maneira que só aprendemos a falar depois de balbuciar muito.

As pessoas dão trabalho, mas o amadurecimento só chega quando decidimos deixar de olhar para o nosso umbigo e começamos a olhar as outras pessoas nos olhos. E fica já o cliffhanger para a próxima crónica que vai ser acerca de narcisistas patológicos. Fun, fun, fun!

 

R. J. Ripley

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