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Esta crónica é um epílogo. Se calhar alguns de vocês estavam a torcer para esta saga do All by Myself que se estendeu durante cerca de um mês da minha vida acabar bem, se calhar alguns de vocês não porque, sejamos francos, escrever acerca das dificuldades é sempre mais gratificante para quem lê do que ler mais um final feliz. A minha grande reflexão neste epílogo é acerca da palavra timing.

 

Costuma-se dizer que timing é tudo na vida e a própria palavra quase funciona como um sinónimo da palavra sorte. Implica que algo aconteça na altura certa e eu acho que aconteci na altura errada da vida desta pessoa e esta pessoa aconteceu na altura errada da minha vida.

A última semana foi um misto de emoções. Apesar de tudo, eu orgulho-me da coragem que consegui encontrar para me colocar numa posição vulnerável (a mana não anda só a pregar aos outros e tenta colocar em prática o que prega, tá?), e partilhar com a outra pessoa o que estava a sentir. Reparei agora que ainda não lhe arranjei um nome e, por um motivo que ficará óbvio no final desta crónica, vamos chamar-lhe Jamie (apesar de o moço ser português).

O Jamie foi uma pessoa que apareceu na minha vida sem ser através das apps o que foi refrescante, e foi também uma pessoa que apareceu em circunstâncias cheias de coincidências. A química e a atracção foram imediatas, o sexo foi incrível, a conversa continuou óptima durante semanas, o sexo voltou a ser incrível uma segunda vez, mas depois chegámos inevitavelmente à praga do 3º encontro, em que os problemas parecem surgir do nada. Se calhar será mais exacto dizer que os problemas são inventados, não se sabe muito bem porquê uma vez que não estão relacionados com nada que eu tenha feito ou dito, além de ‘vemo-nos no fim de semana?’. A reacção que se seguiu fez-me parar agora de escrever para arranjar palavras para seguir em frente.

Podíamos resumir tudo em mais um caso de “não és tu, sou eu”.

Podíamos resumir tudo em mais um caso de “não és tu, sou eu”, mas a diferença capital aqui é que eu estava a gostar a sério. E porque estava a gostar a sério, tentei genuinamente perceber o outro lado e colocar-me no seu lugar, mas não consegui. Isso frustra-me tremendamente porque me considero uma pessoa empática, mas parece que a minha empatia batia repetidamente numa parede de betão inquebrável e demasiado alta para escalar. Concluí que o melhor era dar um passo atrás e deixar de tentar e disse ao Jamie que o ia fazer. O problema é que ainda hoje, parece que o Jamie não me quer deixar ir completamente apesar de também não me deixar querer entrar.

Da minha parte, eu fiz o que podia e devia ter feito: abri o jogo e mostrei o que tinha para oferecer e coloquei a bola do lado dele, por assim dizer.

Mas o epílogo não foi feliz. Foi desconfortável, irritou-me, desagradou-me e deixou-me um bocado mal e mais uma vez a achar que perdi tempo. A achar que perdi tempo e também a perguntar-me para que é que serve amadurecer emocionalmente se inevitavelmente isso só parece ser um íman para gajos com síndrome de Peter Pan que se recusam a crescer, mas que, por algum motivo, gravitam em direcção a pessoas melhor resolvidas. (Se calhar tenho uma Fada Sininho dentro de mim… uma fada já sabia que tinha, só não sabia que era a Sininho… preferia que fosse a Fada Madrinha da Cinderela porque essa pelo menos veste as esfarrapadas em ‘Versássssse' e em ‘Gusse’ e elas vão lindas e maravilhosas lacrar as inimigas nos bailes).

Tentei não ficar chateado com a situação. A forma como me chateio implica um gasto de energia enorme e, sinceramente, não vale a pena chatear-me com alguém que conheço há pouco tempo, mas claro que a situação deixou marcas. Talvez algumas dessas marcas pudessem ter sido evitadas, mas eu acho que para as evitar tinha que me ter tornado no problema-maior da nossa comunidade: um zombie sexual que vive num mundo de niilismo emocional, e num estado de anestesia completa ao facto de que o sexo envolve outras pessoas. Não estou a dizer que é impossível ter sexo que não é mais do que um bom momento entre duas (ou mais) pessoas que acaba ali (e já recebi olhares reprovadores de várias enfermeiras em clínicas - não em Portugal, ressalve-se - quando disse o número de parceiros sexuais dos últimos três meses...). No entanto, quando há empatia de ambas as partes para levar as coisas além de um primeiro encontro óptimo, e quando se entra aos bocadinhos na vida da outra pessoa, há que reconhecer que o outro nos deixou entrar. Isso não implica que tenhamos que namorar, mas implica que o trato tem necessariamente que ser diferente porque estamos perante uma pessoa que assumiu vulnerabilidades connosco e que nos abriu a porta. No meu caso, sem esperar retorno, mas esperando respeito. Pode ser matematicamente objectivo que não se assumiram compromissos, mas lidar com pessoas não é o mesmo que resolver uma equação em que só há um resultado possível e certo. Lidar com pessoas implica compreender que embora as variáveis da equação e o resultado sejam objectivos, há um impacto em alguém. Há consequências e a empatia é a única coisa que ajuda a melhorar essas consequências.

Pode ser matematicamente objectivo que não se assumiram compromissos, mas lidar com pessoas não é o mesmo que resolver uma equação em que só há um resultado possível e certo. Lidar com pessoas implica compreender que embora as variáveis da equação e o resultado sejam objectivos, há um impacto em alguém. Há consequências e a empatia é a única coisa que ajuda a melhorar essas consequências.

Reconhecer esse impacto, mas racionalizá-lo é só perpetuar mais um ciclo vicioso em que, inicialmente, só nos apercebemos que se calhar magoámos a outra pessoa, mas como nós próprios saímos ilesos, a falta de empatia não nos leva a querer mudar. Eventualmente, o tempo, o timing e a idade tratam de nos fazer perceber cada vez mais que também nos estamos a magoar a nós mesmos por não estamos a desenvolver competências emocionais para quando deixarmos a fase da vida em que a beleza da juventude nos permite escapar ilesos de quase tudo. Mas não me cabe a mim ensinar isso ao Jamie e se calhar ele precisa de o aprender por ele próprio, da mesma maneira que eu aprendi.

Eu gostava muito de não ter escrito este epílogo. Parte-me um bocadinho o coração, mas pelo menos faço-o com a consciência tranquila que da minha parte não ficou nada por dizer, e apesar de tudo, o que foi dito, foi dito sem azedumes, sem cobranças e com um afecto e bondade genuínos.

Jamie is over and where can I turn?

Covered with scars I did nothing to earn.

Maybe there’s somewhere a lesson to learn

But that wouldn’t change the fact,

That wouldn’t speed the time

Once the foundation’s cracked

And I’m still hurting.

Jason Brown em The Last Five Years

 

R. J. Ripley