(Crónicas de um homem gay a caminho dos 50 anos)
Início a minha crónica de hoje, a pedir desculpa ao excelentíssimo leitor. Porquê? Por ser frontal e não estar com rodeios. Sim, de facto, há homens que têm uma cona, e então?
Começo o meu discurso de forma algo inflamado, pois a cada dia que passa vejo cada disparate dito e escrito. E não, não é por Donald Trump ou Giorgia Meloni – já para não mencionar Luís Montenegro, um facho disfarçado de democrata – enoja-me ouvir os comentários duma comunidade que se esperaria coesa e com norte, todos a remar na mesma direcção. Sim, falo da nossa, a LGBTQIA+.
Quantas vezes não tenho amigos gays com comentários como:
# Ele é muito giro, mas não tem pila.
# Nunca vi um homem tão giro, mas…
# Até tenho amigos que são, nada contra.
Cada qual é livre – não sei se neste aspecto se trata propriamente de liberdade – de se sentir ou não atraído ou não por alguém, mas é um caralho que faz um homem? E as desculpas que dão? Parecem os racistas ou homofóbicos. Ah, eu não sou A ou B até tenho amigos pretos/paneleiros (preencher o leitor com o apropriado).
Eu só saí do armário perto dos 30 anos. Foi um processo extremamente demorado e doloroso, que ainda hoje tenho de fazer diariamente. A sociedade não está preparada para pessoas como nós. Agora ponham a mão na consciência… Estas pessoas não só sofrem por gostar do sexo “errado” (muitas aspas) como – e isto não sei explicar, pois não sou biológo – estão aprisionadas num corpo que não é o seu, não lhes pertence. Alguma vez pensaste nisto? Consegues imaginar o trauma ou, porventura, já te deste ao trabalho de ver a taxa de suicídio dentro da comunidade trans? Pois… É tudo muito bonito quando nos passa ao lado. Ainda assim não nos esqueçamos que quem começou a revolta de Stonewall foram duas mulheres trans: Silvia Rivera e Marsha P. Johnson. Imagina! Se hoje é difícil ser transexual, como não seria em 1960.
No final dos anos 1970, ser homem, era fumar, beber muito, coçar os colhões e cuspir para o chão. E hoje?
Há coisas que sempre me fizeram confusão. Nasci no final dos anos 1970, ser homem, na época, era fumar, beber muito, coçar os colhões e cuspir para o chão. E hoje? Questionamo-nos verdadeiramente o que é ser homem? É que está provado e mais que provado que a masculinidade tóxica e a misoginia não faz de ninguém homem. E, no meio disto tudo, o que mais me dói – sendo muito honesto – é ver este perpetuar de estereótipos dentro da comunidade LGBTQIA+.
Ninguém te obriga a dormir com ninguém. Ninguém escolhe por quem te sentes atraído. Gostas de coçar os colhões? Força. Mas, a vida são dois dias. Num mundo onde possas ser um bom ser humano, não sejas um André Ventura desta vida. A empatia nunca fez mal a ninguém.
Foto: pinkmantaray
António S., um homem queer a caminho dos 50 anos


