A ofensiva em curso no Parlamento português não é um incidente isolado, mas uma estratégia deliberada de erosão da dignidade humana. Sob o pretexto de “proteger as crianças” ou restaurar o “rigor científico”, a direita parlamentar — com o PSD, CDS e Chega à cabeça — aprovou recentemente projectos de lei que visam reverter décadas de progresso. A exigência de relatórios médicos para o reconhecimento da identidade de género é o regresso à patologização: o Estado volta a exigir que um médico valide quem tu és, retirando-te a autodeterminação conquistada em 2018.
Este ataque estende-se com crueldade às escolas e aos mais jovens, transformando as instituições de ensino em campos de batalha ideológicos. Ao tentarem proibir o uso de bloqueadores de puberdade e ao removerem as proteções para o uso do nome social, estes partidos estão a silenciar identidades em formação. Não se trata de ciência, mas de um apagamento institucional que empurra jovens para o isolamento e para o sofrimento psicológico, ignorando os apelos de associações como a AMPLOS e a ILGA Portugal sobre a segurança dos alunos.
A comunidade LGBTIA+ enfrenta ainda outros atentados que mostram a face mais dura desta reação conservadora, como a vandalização de exposições artísticas em Évora. Esta normalização do discurso de ódio, alimentada por figuras públicas, é o combustível para um retrocesso que não parará nos direitos trans. É um projeto político que utiliza os corpos mais vulneráveis para testar os limites da democracia, servindo de prelúdio para ataques a outras liberdades individuais que considerávamos adquiridas.
A retórica da “ideologia de género” é o cavalo de Troia utilizado para desmantelar políticas de igualdade que protegem todos os cidadãos, independentemente da sua orientação. Ao atacar a educação sexual nas escolas, a direita retira aos jovens as ferramentas necessárias para identificar e denunciar situações de abuso e discriminação. Este obscurantismo pedagógico serve apenas para manter estruturas de poder patriarcais que a sociedade portuguesa já tinha começado a questionar com coragem e clareza.
Nas frentes mediáticas, assistimos à proliferação de listas que rotulam activistas e defensores de direitos humanos como “terroristas ideológicos”, uma tática de intimidação tipicamente autoritária. Este clima de perseguição visa silenciar a dissidência e criar um ambiente de medo onde a diversidade é vista como uma ameaça à coesão nacional. A estratégia é clara: dividir a classe trabalhadora através de guerras culturais para que as desigualdades económicas passem para segundo plano.
O acesso à saúde específica para pessoas transgénero está sob um ataque sem precedentes, com propostas que visam burocratizar e dificultar tratamentos essenciais. Ao impor barreiras administrativas e médicas desnecessárias, o Estado falha no seu dever de garantir o bem-estar físico e mental de todos os cidadãos. Esta desumanização nos cuidados de saúde é uma forma de violência institucional que ignora consensos científicos internacionais em favor de preconceitos ideológicos.
O acesso à saúde específica para pessoas transgénero está sob um ataque sem precedentes, com propostas que visam burocratizar e dificultar tratamentos essenciais. Ao impor barreiras administrativas e médicas desnecessárias, o Estado falha no seu dever de garantir o bem-estar físico e mental de todos os cidadãos. Esta desumanização nos cuidados de saúde é uma forma de violência institucional que ignora consensos científicos internacionais em favor de preconceitos ideológicos.
A utilização política da infância é particularmente cínica, pois os mesmos que dizem proteger as crianças são os que as expõem ao bullying e à exclusão social. Ao impedir que as escolas sejam espaços seguros e inclusivos, a direita condena uma geração de jovens LGBTIA+ à invisibilidade e ao trauma. A protecção real das crianças passaria pelo apoio às suas identidades e pelo combate firme a todas as formas de preconceito no ambiente escolar.
Vemos também uma tentativa de reverter os avanços nas leis laborais que protegem contra a discriminação baseada na identidade ou expressão de género. O objetivo é criar um mercado de trabalho onde a conformidade é premiada e a diferença é punida com a precariedade ou o desemprego. Esta visão mercantilista da existência humana reduz o cidadão à sua capacidade de produção, negando-lhe o direito básico à sua própria identidade no espaço público.
A nível municipal, a retirada de apoios a centros comunitários e associações que trabalham com a população LGBTIA+ é uma forma de asfixia financeira deliberada. Sem estes espaços de apoio, muitas pessoas perdem a sua única rede de segurança e de integração social, ficando à mercê da marginalidade. É um ataque indireto, mas eficaz, que visa desmantelar o tecido associativo que sustenta a resistência e a solidariedade entre pares.
As propostas de “terapias de conversão”, embora muitas vezes mascaradas de aconselhamento neutro, representam uma das formas mais bárbaras de tortura psicológica contemporânea. Tentar “curar” o que não é doença é um crime contra a integridade humana que a direita tenta normalizar sob a capa da liberdade religiosa ou de consciência. Este retrocesso clínico é uma afronta à dignidade e um desrespeito total pelas ordens profissionais que já condenaram tais práticas.
A representatividade política também está sob fogo, com ataques pessoais constantes a eleitos e figuras públicas que pertencem à comunidade LGBTIA+. O objetivo é esvaziar a esfera política de vozes diversas, garantindo que as decisões continuem a ser tomadas por uma elite que não conhece nem respeita a pluralidade social. Esta tentativa de homogeneização política é um passo perigoso para a degradação da própria democracia parlamentar e representativa.
A solidariedade internacional é agora mais importante do que nunca, pois Portugal está a ser usado como laboratório para movimentos transnacionais de extrema-direita. O financiamento de grupos de pressão conservadores por parte de organizações estrangeiras revela uma agenda coordenada que ultrapassa as nossas fronteiras. Resistir a estes ataques é, portanto, uma luta pela soberania nacional contra o avanço de ideologias importadas que odeiam a liberdade e a igualdade.
Concluímos que a defesa dos direitos das pessoas transgénero e da comunidade LGBTIA+ é a linha da frente da defesa da própria democracia. Se permitirmos que os direitos de uma minoria sejam atropelados, abrimos caminho para que qualquer direito fundamental seja revogado conforme as conveniências do poder. A resposta tem de ser firme, colectiva e sem cedências a quem usa o ódio como plataforma de governo e a exclusão como destino comum.
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João d’Oliveira



Um Comentário
johnny cool
O João não escreveu e foi primeiro co-signatário de uma petição à AR, juntamente com muitos colegas do BE, incluíndo a Catarina Martins, em 2018, reduzindo a transexualidade a nada? Não se entitula ele próprio de tr@ns?