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“Enquanto houver vento há sentimento” de Samuel Rolo



Pela escrita de Samuel Rolo em “Enquanto houver vento há sentimento”, podemos deparar-nos com uma história real de alguém que se tenta encontrar em várias fases da sua vida, tendo percebido logo desde muito cedo, que em algo era diferente dos seus amigos. Com várias tentativas de encontro de identidade, com várias “fugas”, fosse através de viagens, pela escrita, e até mesmo pela tentativa de ser alguém que não si próprio, que Tomás, finalmente almeja a Liberdade.

“Às vezes é preciso sair de tudo o que conhecemos para, finalmente, entrarmos em nós mesmos. O outro, o distante, o que parece estranho, ensina-nos mais sobre quem somos do que os espelhos a que estamos habituados” (p.34) 

Enquanto criança, reprime-se, tenta esconder, com vergonha e anseio rápida mudança, quem verdadeiramente é enquanto gay. Já em idade adulta, a morte da sua mãe fê-lo repensar na sua existência e na forma como se mostrava ao mundo, às amizades, à família, às pessoas da aldeia – desejava ter tido “A” conversa com sua mãe. Contudo, como instinto de proteção, por medo de desiludir, com medo de que o olhassem de forma diferente, nunca o fez. 

“A dor (…) Mostra-nos, sem rodeios, que as perdas não se evitam, apenas se atravessam. E às vezes, é preciso perder alguém que amamos para compreender que o maior desrespeito que lhes podemos fazer é não vivermos autenticamente a vida que eles nos deram.” (p. 26) 

William, o seu cão, que, como revela a personagem da história, chegou a ser um reflexo de si próprio, na medida dos traumas, medos e hesitações, mas sem vontade de desistir, transformou-se em cura, numa fonte de amor. E em silêncio, novamente, o amor surgiu, por um patudo, de olhos castanho meigos.

“Havia qualquer coisa de profundamente certo naquela relação. Nenhum dos dois exigia nada. Nenhum dos dois fingia. (p. 39)

Fazer o seu coming out enquanto pessoa LGBTQIAP+ na aldeia foi algo desafiante para si, com momentos medrosos, porém, conseguiu enfrentá-los e normalizá-los, invocando, a avó Leonor e a ternura com que o acolheu no momento de se assumir, e que nunca lhe largou a mão nos momentos de silêncio a dois na cozinha. Houve a aceitação simples, carregada de um incondicional amor. 

“Eu sei, meu querido”, disse ela, continuando a mexer a marmelada que fazia.

“Uma avó sabe sempre. E uma avó ama sempre, aconteça o que acontecer. (p.68)

Largos anos mais tarde, na terra que o viu crescer, com auxílio de terapia, e sem amarras e com mais certezas de si, conseguiu dar a mão ao seu companheiro por aquelas ruas que o viram crescer, passar por vizinhas que, outrora, o viam brincar, entrarem na mercearia da esquina e serem felicitados pela proprietária, o falarem abertamente da sua relação e história, normalizando a sua existência e vivência, foram vitórias muito significativas. 

Uma verdadeira história de resiliência, com os seus altos e baixos, mas com a certeza de que à margem da felicidade e liberdade não era desejável. 

Rodeado de muito amor, de amizades, de viagens e descobertas, do seu cão, e de uma família que, com todos os seus defeitos e qualidades, sempre esteve lá para si. O seu caminho permitiu a Tomás envolver-se no activismo à sua maneira, conseguir levar a sua história a outras pessoas e dizer-lhes que não estão sozinhas.

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Jéssica Vassalo

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