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Desejo em estado bruto: Crush, de Richard Siken



Crush não é um livro sobre amar com calma. É um livro sobre amar sem travão.

A edição portuguesa da Laika Edições revela-se fiel a uma poesia que não pede autorização para existir. Os poemas aceleram, repetem-se, insistem. As imagens acumulam-se como pensamentos obsessivos. A linguagem é ofegante. E essa vertigem é deliberada: a forma acompanha o descontrolo do desejo.

Aqui, o amor não é abrigo. É risco. É antecipação da perda no exacto momento do fulgor. O sentimento oscila entre intensidade absoluta e vazio súbito. Nada se estabiliza. Tudo pulsa, tudo ameaça desaparecer.

Siken escreve o desejo entre homens sem ironia protectora, sem filtro, sem suavização. A masculinidade surge vulnerável, dependente, exposta. E essa exposição continua a ser um gesto político, mesmo quando o livro não se assume como manifesto.

Há excesso? Há. Repetição, acumulação, intensidade quase violenta. Mas é nesse excesso que reside a sua verdade. Crush não quer ser confortável. Quer ser honesto.

Num tempo de narrativas apaziguadas sobre relações LGBTQIA+, este livro recorda-nos que amar pode ser vertigem, obsessão e medo. Amar pode ser correr para o incêndio.

Sobre o autor

Richard Siken (n. 1967) é um poeta norte-americano cuja obra marcou decisivamente a poesia contemporânea do século XXI. Em 2005 publicou Crush, livro vencedor do Yale Series of Younger Poets Prize e amplamente reconhecido pela forma intensa e vulnerável como aborda o desejo, a obsessão e a perda, tornando-se referência central na poesia queer contemporânea.

Em 2015 regressou com War of the Foxes, aprofundando a reflexão sobre identidade e linguagem. Com formação em Psicologia e Belas-Artes, e trabalho desenvolvido também no campo das artes visuais, Siken mantém uma obra breve mas de forte impacto crítico e literário.

Imagens: Cybele Knowles e Laika Edições.

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