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Nas vésperas do fim, Adriano escreve contra o nosso esquecimento



«Antínoo morreu; já não me resta um deus.»

— Memórias de Adriano, parte V, “Saeculum Aureum” (ed. Relógio D’Água, 2024)

No primeiro sopro do livro, o velho imperador Adriano, já no limiar da morte, pega na sua pena e dirige-se ao jovem Marco Aurélio. Não escreve para gravar gloríolas militares nem para ditar um epitáfio complacente: escreve para explicar a um sucessor querido – e, por extensão, a nós – como se pode governar o mundo sem o reduzir a cinzas. Esta transmissão de saberes políticos, provocada pela iminência da morte, projecta-se sobre todo o romance de Marguerite Yourcenar, reeditado pela Relógio D’Água em 2024: é uma lição de História vestida de carne e sangue, perfeita para qualquer aluno de História que queira sair dos manuais e entrar, de corpo inteiro, no Império Romano.

Adriano apresenta-se como “César pensante”: devorador de poetas gregos, obcecado pela arquitectura das cidades, convicto de que governar é antes de tudo arte de não humilhar. A ética do poder que ele defende – poupar o vencido, cultivar a clemência, preferir a aliança à chacina – contrasta, dolorosamente, com o tom crispado das nossas tribunas políticas e, já agora, com a retórica inflamada das bancadas de futebol. Num tempo em que o adversário é tratado como inimigo a abater, Adriano lembra que uma vitória acompanhada de vingança é uma derrota futura.

Yourcenar não omite o amor que lhe incendiou a velhice: Antínoo, o jovem bitínio cuja morte precoce lançou o imperador numa devoção sem paralelo, assinalada por estátuas espalhadas de Roma ao Egito. A autora convoca, com delicadeza e sem anacronismos, um mundo onde as sexualidades escapavam ainda às caixas da heteronormatividade: os gladiadores, companheiros de arena, que partilhavam perigo e afecto, não precisavam de palavra “homossexualidade” para nomear a sua camaradagem. Na Roma de Adriano o desejo era plural, assumido, celebrado em mármore; lição útil para quem, ainda hoje, acha esquisito haver amantes fora do padrão.

Marguerite Yourcenar escreve como quem talha veio de mármore: frase longa, mas limpa; metáfora justa, mas nunca em excesso; erudição que não pesa. Cada parágrafo é uma demonstração prática de boa escrita, coisa rara num mundo saturado de textos apressados. Levar Memórias de Adriano para a sala de aula ou para um jardim, não é apenas estudar História — é mostrar, com exemplo vivo, como a língua pode ser ferramenta de precisão e elegância.

O romance, porém, não se fecha nas minúcias do passado. Ao evocar fronteiras instáveis, revoltas da Judeia, jogos de poder no Senado, Adriano sugere que nenhum império é eterno e que a febre expansionista cobra sempre tributo humano. A memória, insiste o narrador, é o único modo de evitar a repetição dos desastres da História. Daí a melancolia com que termina: se o esquecimento apagar os nomes, desaparece também a aprendizagem e o conhecimento que desses nomes poderíamos receber.

Livro de História(s) que é ele próprio História, nestas Memórias, Adriano recorda que governar – uma cidade, um país, ou simplesmente a própria vida – exige atenção ao outro, curiosidade pelo diferente e coragem para amar mesmo o que escapa às normas. Quando fechamos a última página, fica a pergunta: que legado estamos dispostos a deixar quando chegar o nosso fim? 

Tradução: Maria Lamas

EAN: 9789897835087

Data de publicação: 31/10/2024

Nº de páginas: 332

André Soares

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