opinião

Não brinquem com a tropa



(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)

Não brinquem com quem vos trata bem. E enquanto comunidade sejamos família.

Há decisões complicadas. Mas a vida é o que é. Decides dar-te uma oportunidade de amar de novo – nada de errado nisso – , a menos que comecem a brincar com a tua auto-estima. A menos que te façam sentir de novo aquilo que sabes que nunca foste: uma m…

Dói. E não vai doer um dia ou dois. Passarão semanas ou meses. Mas, quantas situações já passaste semelhantes ou até piores? A diferença agora é que somos mais velhos, logo mais sábios e resilientes.

Muitas vezes falo em querer afastar-me da heteronormatividade. E falo de coração, sem medos. Mas não é por fazer parte duma comunidade onde grassa o amor livre, que me podem querer obrigar a práticas às quais não estou habituado e não quero para mim. Já várias vezes disse que não gosto de relações abertas. Quem o quer, be my guest.

– Ah, porque segues o padrão que sempre viste em casa com os teus pais.

Não sigo. Não sigo de todo, porque as dinâmicas dos meus pais são as deles e não as minhas. Cresci, isso sim, num ambiente em que ao menor sinal de contrariedade, as pessoas não se separavam, mas esforçavam-se por ultrapassar os problemas juntos, sem desistir.

Vejo, ainda hoje, muitos casamentos heterossexuais que deram muito errado. As pessoas mantiveram-se juntas por conta duma moral inominável. Eu, procuro apenas ser feliz. Se estou a ser demasiado, só tenho de pedir desculpa. Mas não me imponham coisas que não quero e não aceito.

Há uns anos tive uma relação em que o meu parceiro me dizia: “É muito mais íntimo beijar alguém na boca, do que ter sexo com alguém.” Seja, até pode ser verdade. Só não é a minha verdade. Portanto, a pessoa em questão que coloque os beijos e as relações sexuais no olho do cu, a mim pouco me interessa.

Sei, estou sempre a bater na mesma tecla, mas, já várias vezes disse que sempre lutarei pela liberdade de poderes fazer o que quiseres. Mas, a tua liberdade termina onde começa a minha. E, portanto, se tenho um “marido” em casa, não preciso procurar fora. Construí-me e reconstruí-me milhares de vezes, não será diferente desta vez.

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Foto: https://depositphotos.com/pt/

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

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