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Longa vida ao Queer Lisboa!



Um espaço de pessoas livres, progressistas e humanistas.

Começou o melhor entre os melhores festivais culturais da cidade de Lisboa. Se tivesse de definir o Queer Lisboa numa só palavra, seria, sem dúvida: casa.

Este festival de cinema é, e sempre foi, um espaço de pessoas livres, progressistas e humanistas. Dos programadores aos voluntários, dos artistas aos cineastas, todos fazem parte de uma comunidade que se mantém, edição após edição, na vanguarda do melhor que o mundo sociocultural tem para oferecer — e não apenas no que toca à temática LGBTQIA+.

Foram muitas as vezes em que me confrontei comigo próprio, no escuro das salas do São Jorge ou da Cinemateca, depois de uma curta, um documentário ou um vídeo experimental. Obras que me expunham a realidades livres das barreiras convencionais do politicamente correto, permitindo-me pensar além do mundo que diariamente me oprimia e limitava. Ali, podia experimentar uma realidade paralela que, na verdade, é a minha — mas vivida com outra perspectiva: a do oprimido em pé de igualdade.

Em suma, ali podia ser eu mesmo, sem as habituais barreiras, sem ter de encarnar sempre o papel do “bonzinho” condescendente para merecer lugar de fala.

No Queer Lisboa, temos a oportunidade de ser até o “mau da fita” sem carregar a culpa que nos é imposta diariamente por sermos “diferentes”. É um espaço onde podemos sentir o mesmo que uma pessoa normativa sente ao identificar-se com uma personagem vilã num qualquer filme de acção: um empoderamento natural, legítimo e sem pecado. Algo que raramente encontramos nos meios de comunicação habituais, que preferem apagar ou culpabilizar as minorias.

A dimensão social deste festival é, para mim, de extrema importância. Entre copos de vinho branco e vodkas Absolut, um grupo de rebeldes afirma-se sem medo, celebrando o facto de existir como minoria. Foi sempre nesse ambiente que conheci algumas das pessoas mais incríveis da minha vida.

O Queer Lisboa é, sem dúvida, uma imensa família de rebeldes — punks do amor — que se revoltam artisticamente contra a opressão interseccional, permitindo-se existir em plena comunhão de ser. E confesso: nada sabe tão bem como perceber que essa simples existência assusta os opressores de hoje.

O Queer Lisboa é, sem dúvida, uma imensa família de rebeldes — punks do amor — que se revoltam artisticamente contra a opressão interseccional, permitindo-se existir em plena comunhão de ser. E confesso: nada sabe tão bem como perceber que essa simples existência assusta os opressores de hoje.

O festival representa uma comunidade específica, cheia de garra e compaixão, que é ao mesmo tempo espaço de ruptura e de acolhimento. Pode parecer contraditório para os distraídos ou para os turistas culturais, mas para nós, família Queer Lisboa, é tão óbvio como acordar todos os dias.

Tive o privilégio de viver essa família de perto. Durante três edições, sentei-me nos lugares reservados junto ao ecrã, explorando, ainda em início de carreira, tudo o que a dança me permitia experimentar. Sempre humilde, sempre afirmando: “não sou da área do cinema, mas sinto-me em casa nesta geolocalização sociocultural”. Obrigado, portanto, por me deixarem fazer parte desta rebeldia — arma intelectual de gatilho pronto a ser disparado em igualdade contra um mundo assumidamente vil e cruel.

Não surpreende, por isso, que este espaço combativo seja tantas vezes ignorado ou até cinicamente ameaçado, seja pelo corte de apoios orçamentais ou por entraves formais impostos por forças tradicionais e obsoletas. Forças que hoje sobrevivem apenas como uma pequena reminiscência de poder. O que não entendem é precisamente a essência dessa palavra: poder. O poder que o Queer Lisboa transporta não é financeiro, é existencial. Está em cada uma de nós, no simples gesto de acordar. Não desaparece com um orçamento zero. O capital jamais apagará o poder de simplesmente ser.

Por isso, a todas as que me leem: sejam! Vão ao Queer Lisboa e desfrutem da rebeldia de existir.

Não poderia terminar sem recordar toda a família Queer Lisboa, incluindo a que hoje habita a esfera da memória. O Daniel é e será sempre o que significa pertencer a esta família. Mesmo não estando fisicamente presente, representará eternamente o nosso espírito de amor rebelde — punks do amor, de coração pronto a disparar. Estejas onde estiveres, Daniel, estás connosco. Para sempre. 

❤️

Longa vida ao Queer Lisboa!

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Dário Pacheco

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