O ano de 2025 reservou momentos diferentes para assistir à união civil de três casais, sendo que nenhum dos eventos aconteceu ao fim-de-semana, combatendo, assim, a exigência financeira de uma festa que se deseja especial e marcante.
Um deles foi o casamento do meu irmão João, que se casou numa segunda-feira, juntando amizades e familiares, lágrimas e sorrisos, num final de tarde ventoso e com música pela madrugada. Nada de extravagante, o orçamento pensado ao detalhe e toda a gente feliz, celebrando a união do jovem casal. Porém, faltou um pai, usando como justificação as quezílias com a ex-mulher.

Por sua vez, Ana Miranda e Rute Candeias escolheram uma sexta-feira muito quente para celebrar a sua união: 42ºC na Quinta das Riscas e um dia inteiro de festa, incluíndo a visita da mascote Jubas, por se tratarem de sportinguistas ferrenhas. Curiosa e tristemente, em cada casamento homossexual que comparecemos, há sempre ausências marcantes – um pai ou uma mãe, que não aceita aquela relação, cuja falta é compensada por outro parente ou por outras amigas. As palavras da Rute, no momento da troca de votos, foram muito precisas.
– Naquela altura fui contra tudo e contra todos para que ficássemos juntas.
Na verdade, as histórias repetem-se. Uma relação homossexual que surge, de forma inesperada (para quem assiste de fora) e conclui-se que se trata de “uma fase.”
– Vai passar, vai passar.
Porém, os anos sucedem-se e a relação acumula etapas e desafios. Arrenda-se um apartamento, contraem-se empréstimos e junta-se dinheiro para que o copo de água seja inesquecível. Tudo isto foi amplamente conseguido, tendo sido um tio, muito sorridente, a acompanhar Rute até ao altar.
À época, quando se debatia, na sociedade portuguesa, o casamento civil entre pessoas do mesmo género, ouvia-se muitas vezes:
– Tanta gente a passar fome e andamos a perder tempo com estas leis?
Muitos queriam referendar direitos humanos, como se o acesso ao casamento civil fosse apenas um direito exclusivo da heterossexualidade. Actualmente, há cerca de mil e cinquenta casamentos homossexuais por ano, sendo que a actual simpatia portuguesa pela extrema-direita traz o receio da perda do direitos alcançados anteriormente. Será que algumas pessoas “arco-íris” têm escolhido casar-se por esse motivo? Não temos dados suficientes para uma resposta informada, contudo, a recente convulsão social obriga a uma reflexão profunda e a uma escolha ponderada no momento de ir às urnas.

Ora, mas voltemos à Miranda e à Rute: fumo verde, cachecóis no ar, a primeira dança e o corte da primeira fatia, com as pequenas noivas a serem roubadas do topo do bolo, à vista de toda a gente. Uma boda feliz, um investimento num acto simbólico que nunca será capaz de resumir todo o amor que pode unir dois seres humanos.
Ambas querem estender a família, para além dos cães Sky e Star, que transportaram as alianças, estando para breve o investimento num tratamento de PMA (Procriação Medicamente Assistida). Além dos empregos a tempo inteiro, trabalham juntas no projecto MiCandy, criando cestas de maternidade com produtos essenciais para bebés. Às noivas Rute e Miranda, desejamos que possam reservar um cesto bem apetrechado para o bebé que há-de vir e que seja um processo curto e premiado com muitas alegrias, pois a “nossa” MiCandy é sempre a mais bonita.

Podem consultar a página da MiCandy aqui: https://www.instagram.com/micandyofficial/
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Márcia Lima Soares


