opinião

“Stonewall é todas as histórias que são nossas”



O meu primeiro contacto com a revolta de Stonewall remonta aos anos de faculdade, em Coimbra, em 1979-80, quando comecei a ter acesso a publicações e associações estrangeiras que o mencionavam, sobretudo as francesas como a Masques – Revue des Homosexualités, e mais tarde o Gai Pied.

Correspondia-me com elas, inicialmente através da minha participação no Grupo da Mulher, a secção feminista da Associação Académica de Coimbra, e depois através do CHOR – Coletivo de Homossexuais Revolucionários e da relação de amizade com o João Grosso. As dificuldades insuperáveis que então enfrentava qualquer esforço de organização política gay e lésbica (ainda se estava longe da sigla LGBT, para já nem falar em queer), e que hoje são inimagináveis para as gerações mais jovens, faziam-me sentir que associações, movimentos, marchas, era coisa que acontecia aos sortudos de “lá de fora”. Em sítios como os Estados Unidos, os países do centro e do norte da Europa, e também até de Espanha, mas que verdadeiramente não era coisa para nós. Com o surgimento da SIDA, então, acreditei que não seria nunca. Muito me enganava, felizmente, ainda que tivéssemos tido de passar pela provação coletiva da epidemia, que vivi em estado de terror e de repetido luto, a dizermos uns aos outros que o simples facto de aparecer com regularidade num bar equivalia a fazer “prova de vida”.

 

Pela parte que me toca, não se tratava de desistir ou de regressar a um armário de onde saí, para não voltar, pelos meus dezassete anos, o que me valeu ter colegas do liceu a quererem fazer-me um julgamento popular. A homofobia omnipresente não me deixava esquecer que eu era quem eu sabia que era, contra tudo e contra todos quantos não queriam que eu fosse e não me deixavam esquecê-lo, e tanto pior quanto eu menos lhes fazia a vontade. Eu sabia que continuaria, mesmo que não houvesse mais ninguém e aqui tenho de dizer que a minúscula aldeia gay de Lisboa, onde procurava refúgio como tantos que vêm de fora, não ajudava nada. Embora fosse mais culto e politizado do que boa parte da “bicharada” lisboeta, era muito ingénuo, incapaz de afetar o estilo e a aparente sofisticação que servia de cartão-de-visita na altura, e, aos olhos deles, um provinciano inapresentável. Se já não me sentia aceite pela sociedade, passei a não me sentir acolhido pela comunidade. Mas sabia que éramos mais que o simples e omnipresente sexo que, como todos, eu procurava, e que aquilo que nos definia era uma procura de dignidade, de direitos, de afirmação. Mesmo que parecesse que mais ninguém estava para aí virado e todos andassem exclusivamente à procura de “fun!, fun!, fun!”, o que os tornava presas fáceis da homofobia. Também aí a evolução da realidade se encarregou de desmentir o sentimento desesperançado que, retrospectivamente, eu detecto no texto “Como quem não quer a coisa”, que publiquei nos idos de 1983 na revista Fenda, e pelo qual tenho um especial carinho, por ter sido o primeiro: de alguma maneira foi o meu Stonewall pessoal.

 

Como dizia uma minha colega lésbica, “tu és daqueles que não engana ninguém”. De facto, mesmo que quisesse, eu nunca servi para o jogo do gato e do rato, com um pé dentro e outro fora do armário, e a solução foi afirmar aquilo mesmo que era visível. A sociedade portuguesa gosta daquele jogo e não perdoa nem tolera a quem não o joga, faz-lhe pagar um preço de sangue. Garantidos já estavam o constante bullying homofóbico, a injúria, o isolamento, o boicote profissional, a solidão – desde a rua à universidade e desde aquele tempo até ao presente (sim, as histórias que eu poderia contar passadas entre colegas num meio supostamente esclarecido, crítico, inovador, etc. e as lendas negras que inventam). Perdido por cem, perdido por mil. De forma a resistir e sobreviver a isto, fui construindo um gueto onde coubesse o mundo inteiro, mas onde afinal só me encontrava eu. Descobri mais tarde que havia muitos iguais a mim. Juntámos os guetos e formámos uma comunidade. Quando isso aconteceu, foram possíveis o primeiro curso de estudos Gay, Lésbicos e Queer, em 2001, o livro Indisciplinar a Teoria, em 2004, e o Colóquio Internacional de Estudos GLQ –  Culturas, Identidades, Visibilidades, em 2005, para o qual convidámos o Didier Eribon, isto já no âmbito alargado do Festival de Cinema Queer Lisboa, onde o João Ferreira e eu organizámos os livros Cinema e Cultura Queer, em 2014, e O vírus-cinema: Cinema queer e VIH/SIDA, em 2018. Stonewall é todas as histórias que são nossas.

Colóqio GLQ Albino Cunha Didier Eribon

Albino Cunha, Didier Eribon  e António Fernando Cascais no Colóquio Internacional de Estudos Gay, Lésbicos e Queer “Culturas, Identidades, Visibilidades”, realizado em 17-18 de Setembro de 2005 organizado por António Fernando Cascais no âmbito do Queer Lisboa, então 9º Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa.

 

Nem por isso deixo de encarar o futuro com preocupação. Não é certo que a dinâmica emancipatória que sentia desde Stonewall, e que se globalizou largamente desde aí, se mantenha. Ela está mesmo a ser invertida em não poucos países. Proliferam os sinais de que o mundo em que vamos viver vai ser pior do que aquele em que a minha geração lutou pelo nosso lugar nele, em aspetos que nada parecem ter a ver com os direitos LGBTQ+, mas que em muito os afetam. Por outro lado, desgosta-me e assusta-me o atual equívoco de polarizar as discussões, se é que chegam sequer a ser verdadeiras discussões, entre, de um lado, o impulso homonacionalista que está a fazer recuar traumaticamente muitas pessoas gay e lésbicas para a radicalização direitista, e, de outro lado, a recusa do mainstreaming (recusa que por vezes se assume como “abolicionista”, seja lá o que isso for), que mais parece dada a birras politicamente corretas do que à luta por direitos que é a única maneira de realmente os conseguir. Os direitos adquiridos só continuarão a sê-lo se soubermos não brincar com eles. Sejam quais forem os pretextos para a irresponsabilidade, as consequências são por igual fascizantes. Esquecermo-nos disso é esquecer o que nos trouxe até aqui.

 

António Fernando Cascais, Professor na Universidade Nova de Lisboa e investigador queer

 

Um Comentário

  • Vitor Grade

    Li este texto do Prof. António Fernando Cascais, apesar de datar de 2019, com o respeito devido a quem viveu tempos difíceis, enfrentou a descriminação real, atravessou a tragédia da SIDA e participou na construção de espaços de afirmação, estudo e visibilidade para pessoas homossexuais em Portugal.
    Esse percurso merece reconhecimento e muito respeito. Mas reconhecer o passado não nos obriga a aceitar, sem crítica, todas as leituras políticas que dele se fazem.
    Neste texto, já existia a ideia, que me parece particularmente discutível, de que existe uma espécie de “radicalização direitista” de homossexuais e lésbicas, como se a aproximação de alguns homossexuais a posições mais conservadoras, liberais, patrióticas ou de direita fosse uma espécie de desvio traumático. O que não é verdade.
    Ser homossexual não obriga ninguém a ser de esquerda, nem obriga ninguém a subscrever políticas identitárias. Não obriga ninguém a aceitar agendas queer, abolicionistas, anárquicas ou revolucionárias e, muito menos, obriga alguém a aceitar que só existe uma forma politicamente “correcta” de viver a sua orientação sexual.
    Hoje, até já podemos ver que a radicalização não está apenas à direita, mas também, e muitas vezes de forma muito agressiva, à esquerda. Ela vê-se no cancelamento, no silenciamento, na patrulha moral, na transformação de identidades pessoais em armas políticas, na recusa do diálogo e na tentativa de expulsar do espaço público todos os que não repetem a cartilha dominante.
    Durante décadas, lutou-se para que as pessoas homossexuais pudessem viver livremente, sem medo e com direitos iguais. Seria profundamente irónico que, depois dessa conquista, se tentasse criar uma nova forma de “armário” para sermos encerrados. O armário ideológico, um espaço onde podemos ser “livremente” homossexuais, mas apenas se pensarmos como a esquerda identitária permite.
    Esse caminho é profundamente errado, pois cria novas barreira à liberdade e ao respeito.
    O que devia existir era diálogo construtivo entre as várias sensibilidades políticas dentro deste universo. Colocar na conversa as pessoas de esquerda, de direita, liberais, conservadoras, sociais-democratas, democratas-cristãs e independentes. Todas com experiências diferentes, mas todas capazes de contribuir para uma sociedade mais justa, mais livre e mais responsável.
    Talvez um dia possamos perceber que somos detentores dos mesmos direitos de qualquer outro cidadão, consigamos sair desta lógica de trincheira e construir algo verdadeiramente positivo, não apenas para uma “comunidade” encerrada sobre si própria, mas para a sociedade no seu conjunto.
    Porque cada vez mais o que deve distinguir uma pessoa não é a sua orientação sexual, mas aquilo que faz em prol dos outros, da sua cidade, do seu país e da comunidade humana a que todos pertencemos.
    Porque a orientação sexual, tal como a cor dos olhos ou da pele, faz parte de quem somos, mas não pode ser tudo o que somos. E nunca deverá ser transformada numa prisão política.
    Nos países ocidentais onde os direitos fundamentais estão já amplamente reconhecidos, o desafio talvez já não seja viver eternamente como minoria organizada em gueto identitário, mas assumir plenamente o nosso lugar na sociedade como cidadãos livres, responsáveis, iguais perante a lei e diferentes nas nossas ideias.
    A igualdade verdadeira não é todos pensarmos da mesma maneira, mas podermos discordar sem sermos expulsos da conversa.

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