Portugal é frequentemente apontado como um dos países europeus mais avançados em direitos LGBT. O casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adopção e a legislação anti-discriminação são conquistas reais e importantes. Ainda assim, existe um sentimento crescente, inclusive dentro da própria comunidade, de que o activismo LGBT em Portugal perdeu eficácia.
Este não é um texto contra o activismo. É uma reflexão sobre porque é que, apesar da visibilidade, muitos problemas concretos persistem e o que poderia ser feito de forma diferente.
Avanços legais, realidade estagnada…
Segundo o relatório Rainbow Europe da ILGA-Europa, Portugal mantém uma boa posição no ranking europeu de direitos LGBT, mas tem vindo a estagnar, sendo ultrapassado por outros países nos últimos anos. Ao mesmo tempo, o Observatório da Discriminação contra Pessoas LGBTI+ registou centenas de denúncias entre 2020 e 2022, mostrando que a existência de leis não se traduz automaticamente em segurança, igualdade ou bem-estar no quotidiano.
Este fosso entre direitos legais e direitos vividos exige respostas práticas, mas grande parte do discurso activista continua focado noutros campos.
Importação de debates que não são portugueses
Uma das fragilidades do activismo actual é a importação acrítica de debates dos Estados Unidos, com linguagem, prioridades e conflitos que não reflectem a realidade social portuguesa.
Isto cria:
– Dificuldade de identificação por parte da população em geral;
– Sensação de artificialidade;
– Rejeição por quem não se reconhece nessas narrativas;
Portugal tem problemas próprios e precisa de respostas adaptadas ao seu contexto cultural, social e económico.
Moralismo em vez de comunicação
Outra tendência problemática é a moralização excessiva do debate. Questionar estratégias, linguagem ou prioridades é muitas vezes tratado como sinal de ignorância ou hostilidade.
Este tipo de abordagem:
– Afasta aliados potenciais;
– Silencia críticas internas legítimas;
– Cria um activismo mais preocupado em corrigir pessoas do que em resolver problemas;
Activismo eficaz convence, explica e dialoga. Não impõe nem rotula.
Foco simbólico, problemas reais em segundo plano
Enquanto se discute intensamente linguagem, representação e polémicas de redes sociais, temas centrais continuam sub-representados:
– Saúde mental;
– Discriminação no trabalho;
– Dificuldades no acesso à habitação;
– Envelhecimento e solidão;
– Jovens expulsos de casa;
Mesmo dentro da comunidade LGBT, muitos sentem que o discurso dominante não corresponde às suas preocupações reais.
O que poderia resultar melhor
Um activismo LGBT mais eficaz em Portugal passaria por:
– Usar dados nacionais de forma consistente;
– Comunicar em linguagem clara e acessível;
– Priorizar problemas concretos e mensuráveis;
– Aceitar crítica interna como sinal de maturidade;
– Reduzir o moralismo e aumentar a estratégia;
– Adaptar o discurso ao país real, não a modelos importados.
A causa LGBT em Portugal continua a ser justa e necessária.
Mas activismo não se mede pela intensidade do discurso, mede-se pelo impacto na vida das pessoas.
Questionar o que não está a resultar não enfraquece o movimento é a única forma de o tornar mais eficaz, mais inclusivo e mais relevante.



Um Comentário
António Fernando Cascais
É minha convicção de há muito que a homolesbotransfobia nacional se limitou a entrar no armário (dela), mas está longe de ter pura e simplesmente desaparecido e só relativamente se atenuou. Não poucas vezes, ao exprimir esta opinião em público, tive de enfrentar reações escandalizadas, que não podia ser, que eu não acreditava que as sociedades podem melhorar, que menosprezava os combates do associativismo, que a mudança nas leis provocava equivalentes transformações nas sociedades como a portuguesa, onde tanto se tinha evoluído em termos de reconhecimento de direitos, liberdades e garantias. Pois, é o que se vê. Uma das grandes conclusões que se podem tirar dos estudos que cada vez mais e melhor se fazem sobre a realidade portuguesa, é que as comunidades LGBTQIA+ mudaram imenso, se transformaram e evoluíram radicalmente, a tal ponto que se pode dizer que constituiram um dos mais espetaculares fenómenos de mudança social desde o 25 de Abril de 74. Nem seriam preciso estudos científicos para o provar: basta pensar nas marchas espalhadas pelo país fora e nas dimensões da marcha nacional, e com ceteza que muito mais. Em contrapartida, fora dos reduzidos círculos mais próximos das nossas comunidades, a sociedade portuguesa não acompanhou essa mudança. Não mudou, nem em quantidade, nem em qualidade, tanto como nós. Isto não deixa de constituir um enorme risco. Por outro lado, as gerações LGBTQIA+ mais jovens têm tendência a dar por adquirida essa evolução e garantidas as condições para passarem a outro estádio mais avançado, que já nada tem a ver com os desafios e os problemas enfrentados pelas gerações mais velhas e, nomeadamente, as que fundaram o associativismo. Que já não se volta atrás, como se a história fosse libertadora por inércia e não precisasse de combate político e ação cívica permanente. Que aquilo que precisamos é seguir os modelos dos países com uma longa história de ativismo e que já se encontram num nível em que elas próprias, as novas gerações, também já estão e que aquelas que as antecederam não podem entender e por isso constituem uma espécie de empecilho e de lastro que é preciso ser largado para dar lugar ao futuro que elas representam, que elas já são. Por isso, têm tendência a definir-se por contraste em relação a elas dentro das comunidades LGBTQIA+, mais do que contra a sociedade homolesbotransfóbica que nos rodeia a todos, por vezes com enorme agressividade, intolerância a críticas, e uma vontade feroz de censura e cancelamento. Como se os principais obstáculos estivessem cá dentro. Cá dentro há homolesbotransfobia, racismo, misoginia, xenofobia, etc., sem dúvida, mas equipará-los ao que vem do meio ambiente social que nos rodeia é errar o alvo, julgar que abatendo-o cá dentro, ele logo desaparece lá fora. Por acharem que já não vivem nesse mundo atrasado, têm extraordinária dificuldade em aplicar as suas problemáticas, estratégias e prioridades ao contexto social cultural e económico português, referido no texto lúcido e inteligente do Diogo Araújo, que não é, evidentemente um texto contra o ativismo.