opinião

Se isto fosse normal, o Pride não existia (uma explicação simples para quem diz que já não é preciso)



Um árbitro pede o namorado em casamento num estádio de futebol.
É um gesto romântico e banal, um daqueles momentos que normalmente acabam com aplausos e fotografias. Foi exactamente isso que aconteceu com o árbitro alemão Pascal Kaiser, em um estádio de futebol, em Colónia, na Alemanha.


Mas a história não acabou aí…
Depois do pedido de casamento vieram ameaças, perseguição e agressões fora e dentro da sua própria casa.
Num país considerado avançado em matéria de direitos LGBT e numa das cidades mais abertas da Europa, um gesto banal foi suficiente para desencadear violência.

Pedido de casamento termina em agressão homofóbica

É precisamente aqui que começa a resposta à pergunta que todos os anos reaparece: para que serve o Pride?

As críticas que aparecem todos os anos
Décadas depois, quando chegam as marchas Pride, a conversa repete-se.
Ouvem-se sempre as mesmas frases:
“O Pride já não é preciso.”
“Hoje em dia já têm direitos.”
“O problema são os exageros.”
“Andam despidos.”
“Assim nunca vão ser respeitados.”
“Façam isso em casa.”

É curioso que estas críticas raramente falem de violência ou discriminação. Falam quase sempre da aparência do Pride, das bandeiras, da “liberdade”, da exposição.
Mas discutir estética não responde à pergunta essencial: porque é que o Pride existe?

O Pride não nasceu como festa (a versão curta da história)
O Pride nasceu como resposta à violência.
Em 1969, no Stonewall Inn, em Nova Iorque, a polícia fazia rusgas a bares frequentados por pessoas LGBT. Pessoas eram presas, humilhadas e expostas publicamente apenas por estarem nesses espaços.
Numa dessas noites, porém, as pessoas resistiram. Esse episódio ficou conhecido como Rebelião de Stonewall.
As marchas Pride começaram no ano seguinte. Não como festa, mas como uma afirmação pública: pessoas LGBT existiam e recusavam continuar escondidas.

O que estas críticas ignoram?
Mesmo hoje, a hostilidade não desapareceu.
O caso de Pascal Kaiser aconteceu na Alemanha, um país considerado progressista em matéria de direitos LGBT.

Portugal também não é uma excepção. Casais continuam a ser insultados ou agredidos na rua por demonstrações de afecto. Jovens continuam a ouvir insultos homofóbicos em escolas e espaços públicos. Muitos destes episódios passam quase despercebidos mas continuam a ser reportados nas associações quase diariamente.

É por isso que a discussão sobre “exageros” falha completamente o ponto.
Mesmo quando há pessoas mais expostas numa marcha, a pergunta continua a ser simples: qual é exactamente o problema?
Numa sociedade livre, as pessoas são livres de se expressar, de se vestir como querem e de ocupar o espaço público. Isso acontece em festivais, no Carnaval, em festas de verão e em inúmeros outros contextos.

Quando acontece numa marcha Pride, de repente torna-se escandaloso.

Mas mesmo que alguém discorde da forma como outras pessoas se expressam, isso não muda o essencial: ninguém deveria ser insultado, ameaçado ou agredido por existir em público.

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