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“Saí da minha bolha”: Francisco Rodrigues dos Santos do CDS-PP revê posição sobre casamento e adopção por casais do mesmo sexo



Num episódio do podcast “Inventário Pessoal”, conduzido por Mafalda Anjos, Francisco Rodrigues dos Santos revisitou o seu percurso político e pessoal, assumindo mudanças, revisões e aprendizagens. Falou sobre arrependimentos e recordou, também, a infância e juventude no Colégio Militar. Falou da alcunha “Chicão”, que durante o período em que liderou o CDS-PP era, segundo o próprio, utilizada de forma depreciativa; hoje, assume-a com naturalidade e até com agrado.

Após alguns anos totalmente afastado dos palcos televisivos e da vida pública, agora é comentador, mas com uma perspectiva diferente sobre si próprio e sobre o espaço político que ocupa. Questionado sobre se já não é de direita, respondeu que é um democrata-cristão. Explica que houve momentos da sua vida em que considerou essencial vincar valores como a autonomia individual, a propriedade privada, a identidade nacional e uma raiz mais tradicional. Noutras fases – como a actual – sente que “há valores mais associados ao centro-esquerda que é importante afirmar porque quando a injustiça se torna lei, a resistência também se torna um dever, nomeadamente a solidariedade, a dignidade da pessoa, a preferência pelos mais vulneráveis, a tolerância, o respeito pela diferença, a igualdade de oportunidades.”

Reconhece ainda: “Eu acho que fui a pessoa que inaugurou a expressão “a direita que a esquerda gosta”, eu tornei-me a caricatura de mim próprio.” Hoje não se define como uma pessoa de direita, mas como um centrista. Para si, o centrismo permite colher o que de melhor existe quer ao centro-direita, quer ao centro-esquerda.

Sublinha que aquilo que atualmente é entendido como “direita” já não corresponde ao seu posicionamento. Não por ter alterado substancialmente as suas posições, mas porque considera que o país atravessou uma “grande centrifugação”, deslocando o eixo político para a direita. Assim, quem permaneceu no mesmo lugar – como entende ser o seu caso – aparenta agora estar mais à esquerda.

Afirma que os valores democratas-cristãos centristas sempre estiveram presentes em si. A diferença é que hoje consegue vislumbrar caminhos que antes não identificava como alternativas possíveis.

Questionado sobre arrependimentos relacionados com o período em que liderou o CDS-PP, refere que, de forma geral, se orgulha do que fez. Considera que decisões e afirmações devem ser enquadradas no tempo e no contexto social em que foram tomadas. Mantém, no essencial, as suas posições na maioria dos temas, mas admite ter revisto algumas questões. Durante a liderança do CDS-PP, posicionou-se contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção por casais homossexuais. Hoje, reconhece ter alterado essa posição. A mudança também foi referida por Francisco Rodrigues dos Santos no programa Dois às Dez, da TVI.

“Conheci realidades, saí da minha bolha”, explica. E acrescenta que mudou de posição não apesar de ser democrata-cristão, mas precisamente por o ser. Ao defender o valor da família, passou a reconhecer que esta pode assumir várias geometrias, tipos e formas. O fundamental, sustenta, é a essência dos valores e não a adesão rígida a “modelos taxativos ou a ditaduras morais”.

Depois de deixar o regime de exclusividade política, optou por não regressar à advocacia e decidiu estudar Psicologia. Está actualmente no terceiro ano e pretende exercer. Sentiu necessidade de compreender melhor a mente humana e perceber como fatores biológicos, sociais e ambientais contribuem para definir quem somos.

Para Francisco Rodrigues dos Santos, a Psicologia foi determinante na mudança de perspectivas, colocando no centro a importância da empatia e da sua operacionalização através da escuta activa. Foi também essencial “para se questionar acerca das suas certezas”. “Uma pessoa que vive de certezas absolutas é uma ilha”, diz, citando José Saramago: “É preciso sair da ilha para ver a ilha.” E acrescenta: “Eu, com a Psicologia, saí da ilha.”

Se antes acreditava ter uma autoridade ética e moral para impor caminhos, hoje valoriza a dúvida e a abertura. Para Francisco Rodrigues dos Santos “mudar de opinião é bom.”

 

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