Quando esta maioria de Direita – Direita, ainda por cima, cada vez mais Fascizada – chegou ao poder, não faltou quem o lamentasse – eu incluído. Volvido um ano e três meses da experiência (mais o ano anterior da funesta Legislatura SpinumViva) acho que temos todos de dar a mão à palmatória e reconhecer que temos um claro défice de imaginação. Ninguém antevia, entre os críticos, em tão pouco tempo, tantas mudanças surpreendentes.
Só ontem, dia 20 de Março de 2026, por exemplo, a Assembleia da República deixou-nos a todos de boca aberta com mais uma dessas enormes surpresas, aprovando na generalidade três leis relacionadas com a identidade de género; leis que ninguém – civilizado – distraído com coisas menores como o custo de vida, tivera a imaginação de pedir; o que demonstra a capacidade intelectual desta vara de cabeças pensantes, alimentadas à saciedade pelo dinheiro dos nossos impostos. E nunca tal dinheiro foi tão bem empregue – senão, veja-se:
O Projeto de Lei n.º 391/XVII/1.ª, por exemplo, de iniciativa do Chega, proíbe cirurgias de mudança de sexo em menores. Isto é extremamente útil, porque a Ordem dos Médicos já tinha protocolos a barrar este tipo de intervenções. Isto é, o Chega proibiu uma coisa que não existia, não acontecia, ninguém fazia – o que é sempre muito bom.
Gabe-se-lhes a coerência na inutilidade e no delírio, com outras medidas, como proibir as burqas com que ninguém se cruzava nas ruas. Ou as propostas do Deputado Rui Afonso, eleito pelo Porto que, durante a campanha das Autárquicas – porque o Chega parece aqueles espectáculos de variedades em que cada actor faz uma série de personagens – se batia ardentemente por medidas como o apoio à natalidade, a isenção de IMT para jovens e a redução do IMI.. que já existiam: já havia o cheque-bebé, os jovens já não pagavam IMT e o IMI, no Porto, já estava na taxa mínima, os 0,3%.
O Chega é, por isso, de uma utilidade gritante para esta nobre nação e esta nova lei é nova prova disso. E quem disser o contrário, é mal intencionado ou – desculpem-me a franqueza – é burro.
A incompreensão de que o Chega sofre advém deste «partido» (ocorrem outros qualificativos) especializar-se em legislar cada vez mais para uma timeline alternativa. Não é inútil: é adequado a um mundo imaginário. O que é coincidente com a mentalidade do seu eleitor, que vive na Terra Paralela. Para nós, comuns mortais que vivem na Terra 1, claro, tudo isto pode parecer um autêntico embuste. Mas temos de ver o panorama completo do mutiverso e aí, talvez faça sentido.
Este projecto de lei do Chega, aliás, tem ainda o condão de introduzir o termo “perturbação” para questões de identidade de género, à revelia de qualquer orientação de quem (acha que) sabe o que é uma perturbação, seja a Organização Mundial de Saúde ou a Ordem dos Psicólogos. Cá para nós, que sabe esta gente do que quer que seja? Se soubessem muito, já não havia doenças no mundo – por isso, tomem lá, experts da treta. Expliquem agora isso, falhados.
Mas não paremos nas entradas. O banquete de estrume com que a maioria das bancadas da Direita na Assembleia da República nos serviu ontem ainda só vai nas entradas.
O PSD, que tem revelado um profundo fetiche por Fascistas, sejam os de fora (quando, por exemplo, nos envolve numa guerra ilegal contra o Irão, provocada por um pedóflio demente e cada vez mais isolado, manobrado por sua vez por um genocida com intenções imperialistas) sejam os de dentro (quando se auto-mutila voluntariosamente para se tornar cada vez mais o novo partido-lambreta, da Extrema-direita) não se quis ficar atrás, e na senda da patologização do que não é doença (ver a referência acima à OMS e à Ordem dos Psicólogos) decidiu avançar com o Projeto de Lei n.º 486/XVII/1.ª, em que faz depender a alteração do nome e sexo civil no registo (portanto, nada de cirurgias, aqui, sequer) da aprovação médica – e isto, para qualquer idade, para não dizerem que eles são idadistas. E ainda dizem que o PSD não está a investir no Serviço Nacional de Saúde ou que a Direita discrimina!
Isto é muito bom para a actividade médica, no fundo, já que promove a polivalência da classe. Assim e para lá de curarem quem está realmente doente – uma parvoíce que não interessa a ninguém – passam a estar incumbidos de emitir pareceres administrativos sobre a identidade de género de quem lhes apareça à frente.
Algo para o que, se não estão capacitados, terão de se capacitar. Tendo em conta que há tantos tempos mortos nas urgências fechadas – a combinar com quem vai efectivamente morrendo por falta de meios – até é bom eles terem agora mais esta actividade para se entreter. O Estado não quer preguiçosos (diz-se).
Aliás, até pode ser criado um novo contingente de vagas – como o das vagas unidades de saúde do interior, cronicamente por preencher – de médicos nas repartições dos registos civis das lojas do cidadão, onde quem queira mudar de nome e sexo civil pode pedir uma certidão a la minute, ao mesmo tempo que paga as contas da água e da luz. Quando se pensa com os pés, as ideias aparecem em catadupa. O que é preciso é imaginação! E se há coisa que não falta a esta gente, que deve passar os dias a pensar o que vai partir ou que grupo vai hostilizar, a seguir, é imaginação, pelos vistos. Podiam ocupar-se em criar medidas que combatessem a desertificação do interior – sei lá, finalmente aprovar a Regionalização – mas não… os seus dias são ocupados em medidas de relevância extrema, como atacar a comunidade trans.
Bem, mas pelo menos, isto não é o Bangladesh, um país com 178 milhões de habitantes, um PIB maior que o nosso e uma população em que a média de idade é os 26, enquanto aqui, é os 47. Ah, e em que as rendas rondam os €130, enquanto em Lisboa ou no Porto chegam facilmente aos €1300. Realmente, isto não é o Bangladesh. Mas viram, como é fácil citar as estatísticas que nos convém, para dizer que um país é melhor do que outro, para servir a nossa narrativa? É o que faz o Instituto +Liberdade e a Iniciativa Liberal, quando vos promete o milagre da ressuscitação das políticas Neoliberais, que provocaram o caos em países como o Reino Unido e os EUA, depois de arrebentarem com a América Latina, que estes neocolonialistas trataram como cobaias desperdiçáveis.
E que mais? Ah, sim, falta o CDS-PP (“quem?”, pergunta, com compreensível confusão quem me lê), um partido Conservador, que foi liderado por uma bicha! no armário! ridícula! durante anos que, também inspirado por todo este súbito interesse pela Medicina saiu de um sonho qualquer passado no Ultramar, para fazer aprovar, entre estas duas obras-primas da legislação medieval, o Projeto de Lei n.º 479/XVII/1.ª que proíbe o uso de bloqueadores de puberdade e terapias hormonais em menores. Freitas do Amaral dá voltas na campa, com o que fizeram com o seu partido (aliás, a este, junta-se Sá Carneiro, ao olhar para um PSD que suspira por Voldemort Coelho, o progenitor do Ventura).
Sim, o CDS-PP, que trocou a Catherine Deneuve por um boneco da Playmobil (cujo cabelo já devia ter Instagram próprio) – esse senhor-que-diz-que-é-Ministro-da-Defesa – um partido que está ligado às máquina e que só é ainda falado porque o PSD decidiu fazer DEI para partidos moribundos e os trouxe para cargos que, por candidatura própria, eles nunca teriam. É engraçado, contudo, ver a Direita constantemente acusar este ou aquele partido menor de Esquerda de ser satélite do PS, sempre que, por acaso, concordam – enquanto fazem este tipo de «jeitinho» aos amigos, seja no Governo, na Assembleia da República, nas Câmaras, etc.
Intelectuais de rara craveira, é preciso admirar a justificação retórica com que o CDS-PP, estes engulhos do Museu de História Natural, atacam uma intervenção voluntária, reversível e acompanhada medicamente por profissionais competentes. Em abono da verdade, é preciso dizer que os CDS-PPzinhos, habitando reservas indígenas de protecção ao agrobeto, onde nunca se tropeça em tal criatura, acham que “médico competente” é mitologia de bestiário quinhentista, a menos que sejam médicos do grupo CUF.
O CDS-PP, o partido-zumbi, defende a urgência da sua boçal proposta contra um processo realizado sob protocolos apertados em instituições muito específicas comparando-o com… estão preparados?
Com a castração química! Pimba! Toma lá, maluco. Até andas de lado… E assim se mata, de uma cajadada só, os coelhos da lógica, da inteligência e da racionalidade. Num país de poetas como é Portugal, o CDS-PP para o ser, tem de permanecer calado.
E, perante tudo o que o país precisa e a realidade internacional que estamos a viver, é com isto que a Direita ocupa os seus dias. Para quem gosta de esterco, está aí uma rica travessa.
Portugal prospera. Tudo bem que os preços e as condições das casas cada vez mais parecem para um episódio para os programadas dos Apanhados. Tudo bem que a inflacção dá saltos em altura que rivalizam com as prestações dos atletas olímpicos – não só nos combustíveis, como em luxos, como os alimentos. Mas, pelo menos, os putos trans já não fazem o que querem, não é? Porque a gente vai a eleições e elege esta malta, para depois eles irem para lá cumprir as agendas alucinadas dos lobbies que os apoiam, não para melhorar a vida dos cidadãos.
A propósito, como eu acredito no Pai Natal, continuo à espera dos 4% de crescimento prometidos por Luís Montenegro, em campanha eleitoral, desmentidos, quer pelo Banco de Portugal de então, quer, na cara, por Pedro Nuno Santos, em debate, e pela própria Comissão Europeia, entretanto. Isso, meus senhores, é que era civilizacional e em que a Direita, que agora tem todo o poder, se devia concentrar. Mas a prioridade é legislar sobre a liberdade dos outros poderem dispor da sua própria identidade e corpo.
Já sabemos – porque já nos foram preparando para isso – que, se não chegarmos aos tais 4%, o problema não é da Direita andar a perder tempo, a tocar viola e a desviar-nos as atenções com estes desmontes, enquanto pega fogo a Roma. Se não chegarmos aos miríficos 4% de crescimento do PIB que nos prometeram, foi por causa da nossa falta de fé, o nosso mindset de terceira divisão, que nunca chega aos calcanhares do mindset Ronaldo. Porque o que é preciso é acreditar: quando a incompetência provoca estragos e não cria nada, podemos sempre recorrer ao pensamento mágico.
Aquela chusma de 151 parasitas da Direita que emporcalha os assentos da Assembleia da República em que se vão sentando, quando não faltam, que recebe sensivelmente €5300 brutos por mês, e que nos custa a cada 30 dias €865230, no total, não foi capaz de se mexer para atribuir a baixa aos doentes oncológicos a 100%. Mas não sejam egoístas! Pensem que é isso que lhes permite depois ir para incêndios gravar directos com raminhos na mão, gravar vídeos com chuva digital a distribuir 15 paletes de 6 garrafas de litro e meio em cheias. O que conta é o gesto, minha gente! Aliás, a Direita só sabe fazer gestos simbólicos, como o vídeo do Ministro da Presidência, de mangas arregaçadas a fazer que faz, que deu tanta vergonha alheia que ele foi obrigado a apagar. O que conta é o gesto. Quando vocês não puderem mais pagar a vossa casa ou a conta do supermercado ou os vossos filhos – “deixem as nossas crianças em paz”, lembrem-se – não tiverem professor ou quando tiverem de ir, de emergência para um hospital a quilómetros e quilómetros (e vos apresentarem a conta da ambulância, se sobreviverem) lembrem-se de fazer o mesmo e pagar em gestos simbólicos.
É certo que a Ministra do Trabalho é uma fanática que quer destruir o pouco que nos resta de protecções laborais; é certo que a Ministra da Saúde é uma cadáver adiado – o que é patente até no seu ar de mosca morta/cabrito aturdido após embate com uma viatura na noite; tudo bem que o Ministro da Educação é outro paspalho cringe que não lembra ao menino Jesus; tudo bem que o já citado Ministro da Defesa está claramente acima do seu grau de incompetência; e tudo bem que o Ministro da «Reforma do Estado» tem a originalidade de uma ameba e acha que vai fazer o DOGE à Portuguesa, parecendo um ministro da IURD quando fala da IA mas… onde é que eu ia? Ah, sim… mas pensem nos putos trans, que agora não terão mais acesso a cuidados de saúde específicos, numa idade tão delicada, em que precisam de todo o nosso apoio – principalmente os que têm progenitores em vez de pais em casa. Porque isto, isto é que era o bloqueio que estava a impedir esta grande nação de se reerguer em Quinto Império.
O resto do país que arda. Assim como assim, já nos estamos a habituar aos incêndios, todos os anos, e estamos… está até a caminho de se tornar uma tradição local. Numa rara falha de visão empreendedora da Direita, com esta previsibilidade, não sei como é que ainda não fizemos um pack para atrair turismo radical, para “ir ver os incêndios anuais” em Portugal.
Este período que estamos a viver, seja pelos exemplos nacionais, seja pelos exemplos internacionais está a ensinar, pela prática, o que muitos não quiseram aprender pelos livros.
Esta época vai gerar uma série de Esquerdistas radicais – ferais, como dizem os putos – que não vão mais querer ouvir sequer menção à Direita, depois de verem o seu futuro arruinado por todos os lados, por esta cáfila de Fascistas e dos seus facilitadores. Seja no que estão a fazer ao Sistema Nacional de Ensino, que cada vez menos os consegue preparar para um mercado de trabalho cada vez mais desumano e desregulado, seja no que estão a fazer ao SNS, de que os seus familiares mais velhos já dependem e de que eles, mais tarde ou mais cedo vão precisar; seja pelo que estão a deixar fazer ao mercado imobiliário com o qual esses jovens mais tarde ou mais cedo terão de se debater; seja pelas destruição sistemática do ambiente, que a Direita chamou de “alarmismo”, quando não de “mentira” e “propaganda”; seja a destruição sistemática das protecções a mulheres e minorias que envolve os que os rodeiam e de quem gostam, quando não, eles mesmos.
A Direita está a agir como se não houvesse um amanhã perante o qual tenha de prestar contas. E, com isso, está a gerar a reacção da Esquerda. Por menos, já se tomaram Bastilhas. Continuem a falar em brioche, enquanto as pessoas vêem a miséria que têm para lhes oferecer.
Todos os dias, a caminho do trabalho, conto os pobres com que me cruzo na rua. Vejo a forma como os incomodam, de manhã, molhando o sítio onde dormem, para «limpar as ruas», obrigando-os a pegar nos poucos pertences que ainda retêm – e o meu estômago revolta-se.
Volta e meia cruzo-me com um sujeito que berra e insulta quem passa, enquanto arrasta o seu cobertor pelas ruas. Há problemas de saúde mental gravíssimos entre os nossos sem-abrigo. E dentro de portas. E dentro de portas não há só depressões: há violência doméstica assassina, cada vez mais alimentada por um ecossistema digital de influencers misóginos que agora até vão a escolas sexualizar as crianças. Há pobreza remediada. Há solidão. Há velhice indigna e que não será acarinhada por quem lhe chama “peste grisalha”.
Há cirurgias vitais em listas de espera. Os nossos profissionais de saúde estão próximos do esgotamento. As urgências funcionam intermitentemente, como luzes de Natal. Os Portugueses têm das piores saúdes orais do mundo.
Mas a prioridade, na saúde, é proibir as cirurgias que não aconteciam e acabar com os bloqueadores de puberdade ou a terapia hormonal dos putos. A mesma Direita que não quer saber das grávidas que, de caminho, têm de parir nos supermercados, quer convencer-nos que está preocupada… com as criancinhas. É de um tipo ficar rouco, de berrar a raiva que tudo isto lhe dá. A quem é que esta gente serve??
A Direita está a queimar todos os cartuchos de credibilidade que lhe restam, até chegar ao ponto da revolta das massas os cercar como cães esfaimados para os devorar, pelos crimes contra a sociedade que estão a montar contra os nossos mais frágeis. Porque é na forma como tratamos os mais frágeis entre nós que se vê o nosso grau civilizacional, não pela quantidade de AI slop que conseguimos produzir por minuto. Enquanto as pessoas não entenderem que viver em sociedade tem um carácter sistémico e que uma cadeia vale pelo seu elo mais fraco, não vamos entender que “hoje, são os trans, amanhã és tu”. Não tratemos os marginalizados dignamente, porque ficam mal habituados. Daqui a nada, querem igualdade. E depois, como fica o privilégio?
Que se dane que os bloqueadores de puberdade que, aliás, nunca foram criados sequer para ajudar as pessoas trans, mas para dar respostas a questões médicas. Que se dane que haja outros miúdos que precisam deles, por causa dessas outras questões médicas – e que a nova legislação vai afectar por arrasto. Meus caros, é o preço a pagar pelo Progresso Em Sentido Inverso! Temos pena. É lidar. Não podemos ter tudo! Há quem pense no bem maior – o bem dos já privilegiados.
Pensem, usem a cabeça: a Direita pode apresentar três leis para consumo interno dos seus eleitorados que são totalmente inúteis e perigosas para o restante do país. Mas pelo menos não temos a Esquerda no poder! Pensaram nisso? Não! Porque vocês só coçam para dentro.
É verdade que temos um Executivo liderado por um Primeiro-Ministro que tem uma empresa aberta, que é uma excelente porta para a corrupção. É verdade que ele se recusou a partilhar a lista de clientes dessa mesma empresa – o que não é nada insuspeito – e que foi preciso o Tribunal Constitucional forçá-lo a isso. Isto, do mesmo tipo que fechou os olhos à acusação de corrupção do sr. Albuquerque, na Madeira, enquanto apontava para um parágrafo assassino que acusava um António Costa de uma coisa e obrigou outro António Costa a demitir-se.
Mas, pelo menos, “não é não”. Foi nessa premissa que muita gente votou na AD – justamente para bloquear o Chega, porque o PS não parecia consegui-lo – apesar de a AD aceitar as ajudas parlamentares do Chega, fazer coligações Autárquicas com o Chega, deixar o Chega entrar na Vice-Presidência da Assembleia da República e, na pessoa daquele manso chamado Aguiar-Branco, deixar o Chega transformar a Casa da Democracia (que tanto nos custou a reconquistar) num autêntico chiqueiro. A mesma Assembleia da República em que a Deputada Eva Cruzeiro foi atacada e que agora concluiu que ela é que desrespeitou os seus deveres ao chamar racistas aos racistas dos Deputados do Chega. Ainda bem que “não é não”. Imaginem se fosse “sim”.
É a idoneidade rural do nosso Primeiro-Ministro. Há que valorizar pelo pitoresco. E agora o PSD quer propor para o Tribunal Constitucional um tipo que fala em “Deus, Pátria e Família”, que tem aversão ao 25 de Abril e que está apostado em acabar com o casamento igualitário e a coadopção dos casais homossexuais. “Primeiro, vieram pelos trans”. Isto é sistémico, como eu disse.
A seguir, serão os Muçulmanos e os Sikhs; e os Romani (Ciganos); e os Afro-portugueses; e os sindicalistas e os trabalhadores; e os jornalistas e as mulheres. Em algum momento, és tu, meu bem, porque não, tu não tens nenhum escudo invisível da Colgate a proteger-te. Esta gente vê-te como meio ou como obstáculo. Nunca como um ser humano com dignidade, autonomia, direito próprio.
Luís Montenegro é o mesmo tipo que, fazendo parte de uma Direita que adora falar em combate à corrupção, que promove a narrativa da insegurança provocada pelo crime e justicializa todos os aspectos da vida em sociedade, tentou passar a empresa para a própria esposa com quem está casado em comunhão de adquiridos, tornando o negócio uma fantasia legal – o mesmo que dizer que é um embuste, em linguagem leiga – e que quando isso deu barraca, passou para o filho; a tal empresa que foi de tudo, desde vinhos até serviços digitais (contratados a peso de ouro e executados a preços normais por outra empresa); a tal empresa fundamental para os tais clientes que só agora vamos saber quem são, que não tinha sede ou site, sequer. Eu sei, eu sei… tudo bastante suspeito… mas, pelo menos, retiramos o xuxalismo do Governo! E isso, é bom!
Olhe-se para a Argentina, que agora já vai ter 12 horas de trabalho, que deixou de ter protecções para a mulher no dia da mulher – o cinismo – e até vai permitir pagar salários em qualquer divisa. Até pode nem ser divisa, se quiserem. Pode ser em iogurtes. Flexibilização! Pensar fora da caixa! E outras palavras de ordem genéricas!
Há que ver o copo meio cheio, enquanto os recursos hídricos não forem confiscados para arrefecer os servidores do data center de IA que vão plantar no meio do nosso país, ignorando o impacto ambiental que isso vai ter, o aumento do custo da electricidade – que está barata demais, convenhamos – e as próprias consequências sobre a saúde dos locais. Pelo menos, corremos com a Mortágua do Parlamento! Nature is healing!
É quase um milagre que as empresas de IA internacionais, que estão envolvidas, neste momento, numa bolha de especulação imobiliária 17 vezes maior do que a das Dotcom, nos tenham dado esse privilégio, em vez de o manterem dentro do seu próprio país. Só não é um milagre porque resulta da visão do nosso Governo, que negociou as melhores condições possíveis para eles. Mas pelo menos vão ser gerados novos empregos: uns bons 350 deles. E isto, meus senhores, é governar, para quem nunca viu.
Como diria Eça de Queirós, “Este governo não há de cair porque não é um edifício. Tem de sair com benzina – porque é uma nódoa!”. Afinal, quando tudo está tão bom, resta-nos pelo menos o humor. E tochas, forquilhas e guilhotina.
É verdade que quando há um apagão ou um incêndio ou uma cheia ou qualquer outra catástrofe este Governo entra em modo tolo-no-meio-da-ponte, que faria rir se não fosse tão patético que até nos dá vergonha perante o mundo. Mas, pelo menos, agora, as pessoas trans têm de ir buscar o papelzinho ao senhor doutor no posto de saúde ou na repartição do registo civil, para poderem mudar o nome e o sexo, mesmo sendo maiores de idade. Salvamos o país!
Porque quando se está perante uma «perturbação», é preciso manter as pessoas supervisionadas, menorizadas, humilhadas. Tudo bem que não resolva a ponta de um corno dos problemas reais da sociedade Portuguesa e ainda se martirize mais uma das populações mais fragilizadas do mundo. Mas o que vocês, pessoas de vistas curtas não entendem, é que isto é colocar Portugal em linha com os mais recentes avanços do Ocidente. Tudo certo que são avanços às arrecuas – haverá até quem lhes chame “retrocessos” – mas a semântica (como, aliás, qualquer área das Letras) nunca foi preocupação desta gente. E por bons motivos. Se eles parassem para pensar, não faziam metade destes milagres.
Depois de nos meter numa guerra imbecil e criticar o Irão por se defender – a ousadia – o Governo lamenta profundamente a Portuguesa que foi atacada pelos colonos Sionistas – choque! Surpresa! – e pede ajuda – financeira, está bom de ver – à Europa para repatriar os nossos concidadãos que andavam a passear pelo Dubai a comprar cripto e a tirar fotografias junto de lamborghinis de aluguer (pode-se ir a correr, ajudar estes, porque não andaram armados em terroristas culturais, na Flotilha)… mas depois cobra-se-lhes a despesa, porque o Estado não tem dinheiro para andar a sustentar pançudos. Apesar de já ter recorrido a um mecanismo da UE, para o efeito. É, aliás, o milagre da multiplicação do capital. Só nos confunde a nós, porque, claro, somos todos um bando de ignorantes. Enquanto nós pensamos a 3 dimensões eles, oh, eles estão num xadrez a n dimensões. É por isso que manda quem pode e obedece quem deve.
Que o digam os ex-combatentes do Ultramar, que abandonaram as suas famílias, a escola, o trabalho, os amores, a juventude, a saúde, para irem combater pelo privilégio dos brancos ricos, para ainda hoje continuarem a ser ignorados, seja em pensões dignas, apoio psicológico, reconhecimento. Os que sobreviveram, claro, porque os que morreram, o Salazar dizia às famílias – já com este espírito de frugalidade Estatal, de Estado que não serve para nada, que o actual tão bem cultiva – que elas é que tinham de pagar para trazer os corpos de volta para cá.
Diga-se de passagem, é sempre bom um Executivo tão competente como desta Legislatura poder contar com o recurso a milagres, quando o Governo está por um fio e praticamente a exigir para ser corrido ao pontapé. Recordo, só a título de comentário, que tochas, forquilhas, etc. (metafóricas, claro) continuam a ser opção para uma populaça absolutamente farta do abuso quase diário desta Direita. Diário e geral. O problema não está apenas na Assembleia da República e no Governo. Este cancro desta nova Direita populista, demagógica, que ressuscita os cadáveres do Neoliberalismo e do Fascismo, criou metástases por todo o aparelho de Estado.
Dizia Hermes Trismegisto que “O que está em cima é igual ao que está em baixo”. Por isso, não é de surpreender que, na Câmara de Lisboa, Moedas replique em ponto pequeno – à escala da pessoa pequenina que ele é – todos os pecados do Governo: ele é catástrofes evitáveis como o Elevador da Glória (não foi ele), ele é inaugurar casas do Executivo anterior (foi ele), ele é ajudas a Jornadas da Juventude e Web Summits que ninguém compreende (foi ele e não foi ele, dependendo da ponta por onde se pega no assunto).
E agora, píèce de résistance, é gente do seu próprio Executivo – ainda para mais, e quase para fazer bingo, um histórico do CDS-PP – metida num esquema de corrupção que envolve… luzes de Natal. Porque quando a Direita se suja, suja-se por o que der. Luzes de Natal, porque não? São finos de mais para isso? O Natal é quando um homem quer. Desde que não seja um homem trans, claro! E demitias-te? O tanas. Isso é só para o Medina, o Costa, etc…
Já que falamos de gente pequenina, o Porto não destoa… depois da sua magnífica vitória, Pedro Duarte – ele próprio, um ex-membro de um dos maravilhosos Executivos montados por Montenegro – ao fim destes meses de regabofe à Direita, tem a apresentar, como obra feita, as 196 câmeras adicionais de videovigilância que instalou – o que vai ser muito útil na altura do Pride: tendo a Câmara lavado as mãos de proteger o Arraial Mais Orgulhoso, não pagando o preço que a PSP quer cobrar a uma organização de cidadãos que investem horas do seu descanso a lutar por um mundo mais justo (e, diria eu, até, mais seguro), pode ser que elas consigam capturar algum ataque da Extrema-direita.
Com o espírito de hashtag empreendedorismo que tão bem caracteriza a Direita, pode ser até que façam uns trocos adicionais, a juntar aos proventos das taxas turísticas cobradas pelos AL que, como praga que são, reproduzem-se ad nauseam, a vender cópias da gravação aos próprios Fascistas, para eles se deliciarem nas horas vagas a rever ataques a «paneleiros» e «travecas»,
Só é pena que os transportes locais continuem a treta que quem vai trabalhar todos os dias já conhece. Isso é que podia ser uma prioridade, mas o galã canastrão não tem tempo para tudo. E já vai ganhando pés-de-galinha nos olhos, à custa de estar a escolher o melhor modelo das tais cameras espalhadas pelo Concelho.
Pelo menos, já não temos Muçulmanos em cima do metro da Trindade a fechar o Ramadão, este ano. O que seria uma pena para o Gonçalinho, da Reconquista, que ficaria sem o que mostrar, não fosse agora o advento da IA generativa vir em seu socorro. Agora, ele pode continuar a espalhar mentiras, mas em HD – conquanto pague a subscrição do Artlist. Bem lhe dizia um senhor, há dias, para ele ir trabalhar. O rapaz, que não sabe o que isso é, ficou meio baralhado e até disse, do alto do seu bigodinho ridículo de chulo, que era o que estava a fazer. A falta de noção! Riamos – é um cómico da Extrema-direita!
Já estamos habituados às macaquices deles, aliás, desde que a Parrachita – sempre magnífica a fazer de Parrachita – finalmente percebeu que é uma nulidade como actriz e se reinventou como alívio cómico entre as aberrações que o Chega vai debitando. Da caridade do Herman, passou para a caridade do Ventura, sempre à sombra de um entertainer. Não fosse isso e o Macaco Adriano da Temu não teria onde cair morta estes anos todos. É o jogo da sobrevivência: a Maria Vieira faz o que for preciso. Só não lhe peçam para ser engraçada, que quebram o feitiço. Tem bom exemplo no Grande Líder do Chega, que diz que fala com Deus, que é sempre um sintoma de robusta saúde mental.
O Chega, que o Tribunal Constitucional já devia ter encerrado (pode ser que agora o Chega lhes faça a folha a eles), o Chega, que alberga pedófilos e que emite um expressivo silêncio ensurdecedor perante escândalos de pedofilia na Igreja, o Chega, ele próprio com vários internos com vários casos envolvendo menores, quer vir falar-nos de sexualizar crianças por aceitarmos que elas se declarem trans. Seria a risota total, se a pedofilia não fosse um dos crimes mais macabros da Humanidade, a que o Chega acrescenta um dos ataques mais covardes, ao atacar a comunidade trans.
Fosse o Trump de Esquerda e o Ventura não se calaria de relacionar o PS, o Bloco, o PCP, o Livre – e até o PAN levava por tabela – com o Epstein (que passou por Portugal e até pensou morar cá). Mas como o seu grande ídolo é Facho como ele, o Ventura fica sem net sempre que é para falar do caso. Mas deixem passar isto que ele volta a falar em castração química. Agora, é que não dá muito jeito, com tanta gente ligada a ele envolvida em pedofilia. Ele está mais preocupado em fazer choradinho e a exigir que o deixem meter a pata no Tribunal Constitucional. Não sei para quê, com propostas como as do PSD.
Vai candidatar-se ele mesmo, já que ele é candidato permanente? Ou vai propor o ex-Juiz Fonseca e Castro, esse tresloucado que andou anos a estudar para ser Juiz, para depois ser expulso da Magistratura e passar os dias a tentar intimidar autoras de livros infantis inclusivos?
Agora, diz que é preso político, como o outro, do movimento dos quatro dígitos – movimento que o Chega tem como aliado – um tipo que passa mais tempo na cadeia do que cá fora – e mesmo quando está preso, é um perigo para a sociedade. E é esta gente que se propõe a salvar o nosso país. Se fossem realmente Nacionalistas, desapareciam da vista de toda a gente, para deixar de fazer Portugal passar vergonhas por sua causa. Isso é que era de Nacionalista. Mas nós sabemos que o que esta gente toda quer, é tacho. Porque não têm nada a oferecer, nem a mim, nem a ti, nem a ninguém.
O Chega, a casa dos cidadãos «de bem», tem uma moralidade exemplar, para se armar em juiz dos outros: é um ninho de escândalos quase diário – seja por crimes hediondos (pedofilia, roubo, corrupção, furto, alojamentos ilegais, exploração de imigrantes, abuso de mulheres, violência, difamação… o catálogo todo), em que estão envolvidos todos os escalões da hierarquia (mas depois, os Ciganos é que têm de cumprir a Lei); seja por cenas de ameaças, insultos, pancadaria e até fraudes entre eles. Já para não falar da malta que se elege pelo partido e depois se desfilia logo a seguir. Badum-tsss!
Os Fascistas são tão construtivos e tão boa gente, que não podem nem uns com os outros. No fim, estas cenas cheias de pathos, de salero, de frou, do saco de gatos que é o Chega, até a nós, que só os queremos ver pelas costas, nos dão vergonha alheia. Depois admirem-se que a fina flor do manicómio dos sociopatas em que a Direita se tornou use o tempo que lhes pagamos para andar a fiscalizar a genitália de crianças. É que é nisto que esta gente passa o tempo, para que não percebamos que eles são um bando de desequilibrados. Vale tudo, desde que as massas aborrecidas tenham qualquer coisa com que se entreter e não vejam o elefante na sala.
O que é porreiro é ver o Ventura a fazer dancinhas e a Rita Mentias a dizer asneiras e aldrabices no TikTok, porque estes tipos não estão aqui para governar o país. Quem é que não gosta de ver o Porco Pinto a grunhir? Só lhe falta andar de bicicleta, para o mundo ser mundo. Quem é que não gosta de ficar a par do mais recente delírio do Puto Frazão, esse alienado que ocupa o seu expediente pago com os nossos impostos, a sacar «malhas» à Extrema-direita MAGA no X para depois fazer vídeos sobre isso, (alega-se) a conduzir?
O ordenado deles é para que sejam entertainers. E as massas que os seguem estão realmente entretidas. Tão entretidas que nem notam que estão cada vez mais pobres, precárias, mal servidas – e até em perigo. Enquanto as bases do Chega batem palmas para os ataques às mulheres, minorias, «Esquerdalhada», o fosso entre eles e os seus ídolos cresce – mas pronto… pelo menos, já não mexem nos símbolos nacionais no estacionário do Estado.
Para quem é que esta gente trabalha?
Para que é que a Direita serve, raios os partam??
O contributo da Direita Portuguesa para o nosso país: humilhar, precarizar, desmontar, alienar em peças, quando não, destruir. O nome que damos a isto, em biologia – uma ciência que eles adoram citar para falar das pessoas trans, mas da qual sabem o que aprenderam na quarta classe do tempo do Estado Novo – é parasitismo.
Hoje, e cada vez mais, o sol brilha sobre este país à beira-mar esquecido – o que calha bem, porque cada vez mais somos um país que vive apenas e só do e para o turismo (Portugal, o parque temático); hoje e cada vez mais sopram estas maravilhosas brisas de bafio do bom, colheita de 1933. Celebra-se a ficção do 25 de Novembro, ignora-se o 25 de Abril e cospe-se na campa das vítimas do Fascismo – que é para não serem Comunas arruaceiros que não respeitavam as leis da Ditadura do senhor da cadeira.
Aliás, e como diz o outro, devíamos ter três desses. Realmente, morrer só uma vez não lhe chega, para todo o mal que causou a este país, do qual o dia de ontem foi só mais um eco. Esse cavalheiro devia nascer para morrer outra vez, tantas vezes quantas as vidas que ele tem vitimado desde o fatídico dia em que acedeu ao poder.
Agostinho da Silva, com quem, do pouco que lhe conheço, vou tendo muitas divergências, dizia que “Portugal não é um país – é um amontoado de gente”. Quando Portugal aprender a ser país, uma sociedade funcional, vai deixar de aceitar este tipo de embuste, este jogo de espelhos da Direita, que nos diz “olha para ali”, enquanto nos vai ao bolso.
Dizia Almada Negreiros, no seu Ultimatum Futurista: “O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades.“
Eu diria que só nos falta uma coisa, que desmontaria todo este castelo de cartas: empatia.
Regozijemos, porém… o perigo trans está a ser controlado. E isso foi o que todos nós pedimos. É nisso que todos nós, cidadãos de bem, pensávamos, constantemente, para nos distrairmos da miséria crescente da nossa saca de compras, no supermercado. Não se falava de outra coisa, nas paragens de autocarro, enquanto o autocarro, cada dia menos frequente, não vinha. Hoje, somos mais felizes, porque Portugal, com contributos como estes, destes vagabundos engravatados, está cada vez melhor.
…
Se chegaste até aqui, uma última palavra:
Esta «gente» está confortável demais na sua crueldade. Não deixes que façam de ti um cúmplice, para a seguir fazerem de ti a próxima vítima. Levanta-te, denuncia, repudia. Torna-te incómodo.
Defender es nosses irmães trans é defender-te a ti. Defender a dignidade humana de qualquer um, entre nós é garantir a dignidade humana para todos.
Para que o Povo jamais seja vencido, tem de permanecer unido. Não permitas que passem.


