A história dos movimentos LGBT é marcada por muitas lutas, mas também por silêncios e esquecimentos. Durante muito tempo, várias figuras fundamentais foram apagadas e esquecidas, apesar de terem lutado por muitos dos direitos que perduram até hoje. Mariasilvia Spolato é um desses casos. Desempenhou um papel importante na luta pelos direitos das mulheres LGBT no pós-Segunda Guerra Mundial.
Nascida em Pádua, Itália, a 26 de Junho de 1935, era uma aluna excepcional de Matemática. Dessa forma, seguiu a sua carreira como professora da área.
Após terminar a sua formação e com o diploma em mãos, mudou-se de Pádua pela primeira vez, partindo para Milão. Nessa grande cidade, além de dar aulas de Matemática, também escreveu alguns livros e artigos. A sua presença na política foi-se tornando cada vez mais evidente: uniu-se a movimentos de libertação civil a partir de 1968.
Nos seus primeiros movimentos políticos e revolucionários, Mariasilvia desenvolveu, em 1971, a Frente de Libertação Homossexual (FLO), o primeiro movimento italiano a favor da comunidade lésbica. Também fundou uma revista chamada FUORI!, que tinha como objetivo promover a visibilidade LGBT.
No ano seguinte, publicou um livro intitulado I movimenti omosessuali di liberazione (tradução: Os movimentos homossexuais de libertação). No dia 8 de Março de 1972, Dia Internacional da Mulher, Mariasilvia participou numa marcha em Roma e tomou a atitude mais corajosa da sua vida: levou um grande cartaz onde se lia “Eu amo uma mulher”. Pela primeira vez em Itália, uma mulher assumia-se publicamente como lésbica.

Após esse momento, Mariasilvia passou por um processo de isolamento: foi despedida do seu cargo de professora e rejeitada pela família. Ainda assim, nunca deixou de lutar pelos seus direitos. Chegou a ficar sem casa, dormindo em casas de amigos e até em bancos, mantendo esse estilo de vida durante os anos 90, sem cuidar da sua saúde nem da sua alimentação de forma adequada.
Como consequência, desenvolveu uma infecção na perna e, em 2012, foi levada para o hospital. Inicialmente, recusava-se a permanecer lá, pois queria continuar a lutar. Apesar da resistência inicial, acabou por aceitar ser cuidada e permaneceu na instituição até 2018, convivendo com outros pacientes, tirando fotografias, até falecer.
Infelizmente, Mariasilva permaneceu esquecida durante muito tempo. Só recentemente começaram a surgir associações com o seu nome, dando continuidade aos seus princípios. Mariasilvia dedicou a sua vida a mudanças que ainda hoje se fazem sentir. Ser relembrada é o maior acto de amor, agradecimento e reconhecimento pelo seu percurso.
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Carolina do Nascimento Bueno, Mestre em História de Género
Autora do blog Mulheres que marcaram



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