opinião

O Turismo e a Homossexualidade



Estamos a chegar ao Verão e à época do turismo intenso, por isso vem a propósito falar do turismo. Várias designações têm sido apresentadas para caracterizar a sociedade contemporânea: Guy Débord chama-lhe “a sociedade do espectáculo”; Daniell Bell chama-lhe a “sociedade da informação”; Ralph Keyes chama-lhe “a sociedade da pós-verdade”; Byung-Chull Han chama-lhe a “sociedade do cansaço”; Christoph Türcke chama-lhe a “sociedade excitada”. Propomos a designação de “sociedade do turismo”, e aliás as designações destes autores podem também aplicar-se ao turismo de massas, e de certa têm também como origem esse mesmo turismo.

Partindo da justificação de que fazer turismo dá prazer, e que esse é o principal motivo para haver tanto turismo, e que mesmo outras motivações também dão prazer, as pessoas procuram o que lhes dá prazer. Fazer turismo dá prazer, logo as pessoas fazem turismo. No entanto, embora o objectivo seja principalmente o prazer de viajar, a expansão do turismo no mundo de hoje deve-se também ao facto de a sociedade de hoje ser mais aberta e menos moralista. Por exemplo, ao contrário do que sucedia antigamente, nos tempos de hoje há mais mulheres que viajam sozinhas, devido à emancipação das mulheres em vários países ocidentais, e ao facto de serem sociedades mais abertas, inclusivamente do ponto de vista moral, o que contribui para que as mulheres possam viajar mais, e muitas delas o façam sozinhas.

Por exemplo em Portugal, antigamente (até 1969) uma mulher casada, para viajar, estava sujeita à autorização do marido, quer tivesse passaporte próprio, quer o seu nome fizesse parte do passaporte familiar, cujo titular era sempre o homem, o chefe da família. Sem o visto marital, a mulher não podia viajar sozinha, e mesmo uma mulher solteira era mal visto que fosse viajar. Toda essa moralidade mudou, graças à revolução portuguesa do 25 de Abril.

Nos tempos de hoje vivemos numa sociedade mais hedonista a nível geral, e isso também se reflecte no facto de actualmente as pessoas fazerem turismo como forma de obterem prazer, e de haver menos moralismo. Por consequência, o prazer de viajar aumentou muito, e outros interesses associados ao turismo, incluindo a busca do prazer sexual. Desde sempre, sexo e turismo estiveram relacionados, por exemplo as viagens de pessoas com posses económicas a Paris, em busca de prostitutas e de prostitutos, ou as viagens de homens com posses económicas ao norte de África (sobretudo a Marrocos, à Argélia, e à Tunísia, em busca de prostitutos). Ora, nos tempos de hoje, em que há mais liberdade sexual, o turismo tem também crescido devido à busca de experiências sexuais. Actualmente o turismo sexual deve-se à busca de prostituição masculina e feminina por baixo custo económico, como por exemplo na Tailândia, em Cuba, no Brasil, ou em países do leste europeu, em comparação com o seu custo económico muito elevado em países europeus. Noutros países o turismo sexual é procurado não por ser mais económico, mas por acontecer em locais onde existe uma mentalidade mais aberta e maior liberdade sexual, como por exemplo em Amesterdão, nos Países Baixos, onde a prostituição é legal, e onde esses turistas se sentem, portanto, mais à vontade.

Estudos e pesquisas indicam que os homossexuais viajam mais e gastam mais em viagens, do que a média da população, sendo os homossexuais um segmento lucrativo para a indústria do turismo. Um dos melhores exemplos que mostram isso é o Spartacus, um guia turístico gay internacional, que foi criado em 1970, que disponibilizava informações para turistas homossexuais, que era muito popular entre os homossexuais, fazendo aumentar também o turismo. Actualmente existem homossexuais que, devido ao facto de nos seus países a homossexualidade ser ilegal, ou devido ao facto de ser difícil encontrarem um companheiro nos seus países, se deslocam para países onde é fácil encontrarem indivíduos do mesmo sexo, para encontrarem um companheiro e formarem um casal, ou apenas para terem relações sexuais. Muitos outros vão em viagens de negócios, mas aproveitam a oportunidade para terem também relações sexuais, pois nos seus países isso é proibido.

O turismo homossexual está mais facilitado nos tempos de hoje, também devido ao facto de haver vários locais nos países ocidentais, com muita abertura e acolhimento à comunidade LGBT, tais como por exemplo o bairro da Chueca em Madrid, ou o bairro Marais em Paris. Festivais, desfiles (como a Parada do Orgulho LGBT) e locais de vida nocturna específicos, mas também estabelecimentos que acolhem muitos homossexuais provenientes de países onde a homossexualidade é criminalizada, são também motivos que levam esses turistas a viajarem.

Tendo aumentado a liberdade sexual em alguns países, a informação sobre a existência desses lugares acaba por ser transmitida também para outros países, informação essa muito facilitada por sites na Internet e pela confidencialidade do correio eletrónico, e isso também tem motivado muitos indivíduos a viajarem. O turismo é uma oportunidade para a aventura, a evasão, o entretenimento, a fuga à rotina e às preocupações do dia-a-dia, e a sexualidade é uma das formas de se concretizar essa necessidade. Nos tempos de hoje existem muitas alternativas para os turistas que procuram sexo consensual em países onde há muito turismo, como por exemplo nos Países Baixos, nomeadamente em Amsterdão, uma cidade cuja popularidade turística se deve também à sua mentalidade aberta e à sua liberdade sexual. O Bairro da Luz Vermelha (Red Ligh District, ou De Wallen) em Amsterdão é um ponto turístico extremamente popular e atrai milhões de turistas todos os anos, muitos deles apenas para verem as prostitutas expostas na vitrins. Muitos turistas são movidos pela mera curiosidade, vão apenas para ver, resultando uma concentração excessiva de turistas nesse local.

Há muitas mais pessoas a viajar nos tempos de hoje, também devido à forma como são constituídas algumas famílias: há casais que preferem não ter filhos, e ficam com mais disponibilidade e com mais poder económico para viajar. Por um lado, é devido ao facto de haver actualmente muitas pessoas que não têm filhos, ou que têm só um filho, que viajam tanto, e por outro lado há casais que não têm filhos, ou que têm apenas um, para terem mais tempo livre e poderem viajar. Há pessoas que não têm filhos não por razões de infertilidade, mas sim por escolha própria, e um dos motivos dessa escolha é a maior liberdade que isso lhes proporciona, na qual se inclui a maior possibilidade de viajar.

Nos tempos de hoje há também muitos casais de homossexuais, e que devido ao facto de não terem filhos, têm também mais disponibilidade para viajar. Muitos outros homossexuais, mesmo não formando um casal, e dado que não têm compromissos familiares, são dos que mais viajam no mundo de hoje. Há mesmo lugares no mundo que se tornaram destinos turísticos famosos, quase exclusivamente para homossexuais, como por exemplo a ilha grega de Mykonos, e a ilha espanhola de Ibiza.

Actualmente existem também agências de viagens especializadas para a comunidade LGBT, entre as quais a Vacaya, que foi a primeira empresa de férias mundial, construída para toda a comunidade LGBT. Existem também cruzeiros especificamente para os homossexuais. A Atlantis Events, é a maior operadora mundial, famosa por cruzeiros com 2.000 a 5.500 convidados em navios de grande porte. A VACAYA disponibiliza também cruzeiros e resorts inteiramente dedicados à comunidade LGBT, com festas temáticas, jogos e shows. Por seu turno, o The Cruise – European Gay Cruise é um cruzeiro focado na Europa, com um ambiente de “vila” a bordo, festas na piscina e entretenimento noturno.

As celebrações mundiais do World Pride e do Europride, com cidades capitais do dia orgulho LGBT e as suas marchas, tem feito também aumentar muito o turismo, com milhares de visitantes internacionais cada ano onde se realizam essas celebrações internacionais. Muitos homossexuais não viajam só para irem à marcha LGBT, pois ficam mais dias nessas cidades, gerando uma grande percentagem da receita de hotéis, bares e restaurantes não apenas localizados na zona gay friendly da cidade, mas noutras zonas das grandes cidades europeias e mundiais. Estes números mostram como o turismo cresceu também com a ajuda da comunidade LGBT, um motor económico potente em alguns países, entre os quais Portugal.

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Victor Correia

Foto: https://depositphotos.com/pt/

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