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Ana Zanatti – o rosto sereno de uma vida em cena



Origem, infância e primeiro despertar artístico

Ana Zanatti (n. 1949) nasceu em Lisboa, numa família de conforto burguês que lhe garantiu estabilidade, mas não a poupou a uma infância marcada pela disciplina e pela exigência. Frequentou o Colégio do Sagrado Coração de Maria e, mais tarde, os liceus Rainha Dona Leonor e Pedro Nunes, este último um espaço de grande tradição académica.

Apesar das condições materiais privilegiadas, recorda-se como uma criança frequentemente “desajustada”. Essa tensão interior foi registada nos diários que, décadas depois, publicaria em “O Sexo Inútil” (2016), revelando um pensamento precoce sobre identidade, liberdade e afectos, e uma maturidade rara para a idade.

O seu universo formativo foi alimentado pela curiosidade cultural: leu intensamente, apaixonou-se pelo cinema americano e europeu, pela música pop anglo-saxónica e pela estética, que herdou do pai, coleccionador de arte. As viagens, nomeadamente a Paris, reforçaram o seu fascínio pela cultura.

No Liceu Pedro Nunes viveu um namoro juvenil com Marcelo Rebelo de Sousa, contado por si com humor e ternura — experiência breve, mas luminosa na lembrança. Aos dezoito anos, sentindo o peso das expectativas familiares, deixou o curso de Filologia Românica e saiu de casa, vivendo com poucos meios até ingressar no Conservatório Nacional. A opção pelo teatro marcou o início de uma vida guiada pela arte e pela autenticidade.

A estreia, a televisão e a consagração pública
Em 1968 estreou-se no Teatro da Trindade com “Cautela, Libertino!”, de Luigi Pirandello, desempenho que inaugurou uma carreira teatral sólida. Nesse mesmo ano entrou no cinema com “A Estrada da Vida”, e foi convidada pela RTP para integrar a equipa de apresentadores.

Durante 26 anos apresentou concursos, noites de cinema, rubricas culturais e várias edições do Festival da Canção. O seu timbre distinto tornou-a voz institucional do Canal Odisseia, e a sua postura — serena, clara e elegante — estabeleceu um padrão televisivo que a tornou uma referência nacional.

Participou em grandes eventos transmitidos em directo e tornou-se presença regular em galas e programas de grande impacto público.

Equus, Jack, o Estripador e o risco como método
O teatro permaneceu um eixo fundamental da sua vida artística. Em 1975, regressou em força com “Equus”, de Peter Shaffer, peça de grande intensidade psicológica, onde protagonizou a sua primeira nudez em palco — gesto arrojado num país em transição para a liberdade.

Em 1977, produziu com Zita Duarte “A Verdadeira História de Jack, o Estripador”, peça ousada que abordava temas tabu e incluía cenas de nudez. Apesar das pressões para recuar, manteve-se firme, assinando um dos momentos mais marcantes do teatro português da época.

Cinema: entre êxitos, equívocos e um clássico nacional
Entre participações diversas, enfrentou também equívocos mediáticos, como o caso do filme “Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa” (1977), cujo realizador inseriu cenas com duplos de corpo sem avisar os actores. Ainda assim, a sua trajetória cinematográfica destacou-se pela qualidade e consistência.

O auge chegou com “O Lugar do Morto” (1984), de António-Pedro Vasconcelos, um dos maiores sucessos do cinema português, onde deixou uma interpretação madura e memorável.

Vila Faia e o nascimento da ficção televisiva portuguesa
Em 1982 integrou o elenco de “Vila Faia”, a primeira telenovela portuguesa, experiência que abriu caminho a outras participações em séries e novelas, bem como à co-autoria de Passerelle (1988), escrita com Rosa Lobato de Faria. A sua presença no universo ficcional televisivo consolidou a ligação afectiva com o público português.

A escritora, a militante e a voz da liberdade interior
Paralelamente, desenvolveu uma obra literária que atravessa vários géneros — romance, poesia, contos, infanto-juvenil e ensaio. “Os Sinais do Medo” (2003), “Agradece o Beijo” (2005) e “O Sexo Inútil” (2016) exploram temas de identidade e intimidade, sendo este último uma afirmação corajosa da sua orientação sexual e um marco cívico.

Assumiu publicamente a defesa dos direitos LGBT+, tornando-se uma das vozes mais éticas e ponderadas no combate ao preconceito. Recebeu o Prémio rede ex aequo (2009, 2012) e o Prémio Arco-Íris (2011), reconhecimento do seu papel sereno, mas firme na esfera pública.

A escrita, os gatos, o silêncio e o refinamento do dia-a-dia
Com o passar dos anos, o seu quotidiano tornou-se mais introspetivo. Mantém a paixão pela leitura, pelos seus gatos e por ambientes tranquilos. Prefere a serenidade ao ruído, recusa cirurgias estéticas e assume com honestidade o desconforto com o envelhecimento, temendo sobretudo a perda de autonomia.

Reconhece arrependimentos — sobretudo o de não ter amado melhor em certos períodos — mas insiste que nunca lhe faltou amor, o elemento mais importante da sua vida.

Uma militante da delicadeza
A sua postura pública caracteriza-se por uma serenidade activa que dispensa estridências. Entre teatro, televisão, cinema, literatura e activismo, construiu um percurso longo, íntegro e coerente. Representou Portugal em eventos internacionais e integrou iniciativas dedicadas à condição feminina.

A sua figura tornou-se sinónimo de elegância ética: alguém que não precisa de levantar a voz para se impor.

O legado, a maturidade serena e a construção de uma figura ímpar
O percurso de Ana Zanatti — dos palcos à literatura, da televisão ao activismo — revela uma coerência rara. A sua presença marcou gerações pela elegância, discrição e rigor profissional, sendo associada ao refinamento televisivo das décadas de 1970 e 1980 e à maturidade artística do cinema português.

Na escrita e no activismo encontrou o núcleo mais profundo do seu legado: a coragem de dizer quem é e de defender a liberdade alheia. Continua a cultivar uma vida tranquila, a valorizar a introspeção e a assumir a idade com lucidez.

Sem filhos, mas rica em afectos, culmina uma trajetória feita de coragem, delicadeza e verdade interior.

Ana Zanatti permanece como uma das figuras mais serenas e distintivas da cultura portuguesa — uma voz que não grita, mas perdura.

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Paulo Marques