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Agarrar a Faca pelo Gume, de Inês Bernardo: o corpo como memória



“Uma mulher agarra sempre a faca pelo gume.”

O ditado tsuana que abre Agarrar a Faca pelo Gume, de Inês Bernardo, anuncia desde logo o lugar ocupado pelas mulheres neste livro: o lado que corta, fere e deixa marca. São mulheres que sustentam famílias, guardam silêncios, herdam gestos e aprendem a continuar, mesmo quando continuar significa segurar aquilo que as magoa.

Com uma escrita crua, mas profundamente afectiva, Inês Bernardo constrói uma narrativa sobre mulheres ascendentes e descendentes: mães, avós, filhas e netas ligadas por formas de cuidado que nem sempre sabem nomear. O amor surge nos gestos mais concretos — levar uma criança às urgências, cobri-la de roupa, esfregar-lhe o peito com mentol, preparar-lhe chá ou vinho quente —, mas também nas frases que ferem e permanecem no corpo durante anos.

A narradora nasce prematura, pequena e frágil, como se o corpo tivesse entrado no mundo já em luta. A mãe conta o parto; as avós reinterpretam-no; cada mulher acrescenta uma versão. A memória familiar não é, portanto, um relato estável, mas uma conversa entre vozes, omissões e repetições. O corpo torna-se o arquivo onde essas histórias ficam inscritas: alergias, fraturas, fome, medo, desejo, vergonha e violência.

É também através do corpo que o livro mostra a brutalidade do olhar masculino. Num dos episódios mais duros, a narradora descreve uma experiência sexual em que deixa de ser reconhecida como pessoa e passa a ser reduzida à sua aparência. A linguagem não protege nem desvia o olhar. Mostra a violência da objetificação, o desconforto e a tentativa de afastar do corpo aquilo que lhe foi imposto. A escrita é aguçada porque não procura tornar a experiência mais suportável para quem lê.

Mas Agarrar a Faca pelo Gume não é apenas um livro sobre aquilo que é feito aos corpos das mulheres. É também sobre aquilo que esses corpos fazem: cozinham, cuidam, abraçam, recuam, observam e transmitem conhecimento. Numa cozinha, entre uma máquina de costura, um tabuleiro, uma canja e uma carta de recomendação, o cuidado circula através de objectos, alimentos e pequenos movimentos. O afecto raramente precisa de ser explicado. Está nas mãos, nos cheiros e na forma como alguém abre espaço para outra pessoa.

Os capítulos curtos funcionam como cortes. Cada passagem obriga a parar, respirar e pensar antes de continuar. Não há uma narrativa que avance tranquilamente; há fragmentos que se aproximam, se contradizem e se iluminam mutuamente. A família aparece como uma constelação de episódios breves, alguns ternos, outros violentos, todos atravessados pelo modo como as mulheres aprendem a falar — ou a não falar — sobre aquilo que viveram.

A fala, aliás, nunca está separada do gesto. Conta-se uma história enquanto se prepara comida, se trata uma doença ou se recorda uma ausência. Por vezes, o que não é dito revela-se num movimento do corpo, numa hesitação ou numa frase repetida durante anos. A memória familiar vive tanto nas palavras como naquilo que as acompanha.

Inês Bernardo escreve sobre genealogias femininas sem as idealizar. As mulheres cuidam, mas também magoam; protegem, mas podem perpetuar medos, julgamentos e silêncios. O que passa entre gerações não é apenas força: são também fragilidades, mecanismos de defesa e formas antigas de sobreviver.

Agarrar a Faca pelo Gume é, assim, um livro sobre mulheres que seguram aquilo que corta e continuam a pôr a mesa. Sobre corpos que guardam o que a linguagem não consegue resolver. E sobre a possibilidade de transformar essas marcas em escrita — uma escrita breve, afiada e suficientemente próxima para tocar sem deixar de ferir.

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Autora: Inês Bernardo 

Editora: Tinta da China

Páginas: 112

ISBN: 978-989-595-006-5