Quando muitos de nós crescemos a ver filmes românticos (quase sempre heterossexuais), ninguém nos preparou para a realidade do sexo entre homens. Ser passivo envolve mais logística do que preparar um jantar de Natal para 20 pessoas. Há que pensar no timing, na alimentação, na ida à casa de banho, no duche, no inevitável “só mais uma vez para ter a certeza”… e depois chega o momento da verdade.
E mesmo quando a vontade é arriscar no calor do momento, o resto do tempo passa-se em rezas silenciosas para que não aconteça nenhum acidente, sobretudo quando nos deparamos com órgãos masculinos que mais parecem reto-escavadoras.
Por isso, quando uma empresa afirma ter criado um dispositivo capaz de substituir por completo o tradicional duche anal, é difícil não perguntar: será que estamos finalmente perante o fim de um dos rituais menos glamorosos da vida sexual de muitos homens gays?
Chama-se A-BALL e tem sido apresentada como uma das maiores inovações dos últimos anos na área da saúde e do bem-estar sexual. Mas será que cumpre realmente aquilo que promete? E, mais importante, como funciona?
Afinal, o que é a A-BALL?À primeira vista, a A-BALL parece apenas uma pequena esfera macia. Mas não se deixem enganar pela expectativa: A esfera não lava o reto, não liberta água, não dissolve fezes e também não funciona como uma esponja.
Na prática, funciona como uma barreira física temporária, semelhante a um tampão ou aos Portões de Nárnia, onde tudo o que fica para lá… não sai.
Ou seja, depois de introduzida no reto, posiciona-se acima do canal anal e ajuda a manter eventuais fezes mais acima no intestino, reduzindo a probabilidade de estas descerem durante a relação sexual.
Ao longo das horas, o material biodegradável vai amolecendo até ser eliminado naturalmente na evacuação seguinte.
Isto significa que a A-BALL não substitui o duche porque limpa o reto. O que faz é tentar manter a zona utilizada durante a penetração livre de resíduos, recorrendo à própria anatomia do intestino.
Como funciona na prática?
Tudo isto assenta num pormenor da anatomia que muita gente desconhece.
Quando não sentimos vontade de evacuar, a parte inferior do reto costuma estar vazia. As fezes permanecem armazenadas mais acima e só descem quando o organismo desencadeia o reflexo da evacuação.
É precisamente esse espaço que a A-BALL pretende ocupar temporariamente, criando uma separação entre o conteúdo intestinal e o canal anal.
Convém esclarecer uma coisa: a esfera não cria uma vedação completa nem impede uma pessoa de evacuar caso tenha essa necessidade. A ideia é apenas diminuir a probabilidade de resíduos chegarem ao canal anal durante o sexo.

Quais são as vantagens?
Se cumprir aquilo que promete, a A-BALL poderá oferecer várias vantagens:
- Evitar a necessidade de fazer um duche anal antes de cada relação.
- Reduzir o tempo de preparação.
- Permitir maior espontaneidade.
- Evitar a utilização repetida de água no reto.
- Diminuir a ansiedade relacionada com possíveis acidentes durante o sexo.
E as desvantagens?
É aqui que entra o lado menos entusiasmante da história.
Apesar do interesse que o produto tem despertado, ainda existem poucos estudos científicos independentes que confirmem a sua eficácia e segurança em utilização real.
Além disso:
- poderá não funcionar da mesma forma em todas as pessoas;
- continua a exigir preparação, já que deve ser colocado antes da relação sexual;
- pessoas com determinadas doenças do reto ou do intestino deverão falar com um profissional de saúde antes da sua utilização;
- não protege contra infecções sexualmente transmissíveis e não substitui o preservativo, a PrEP nem qualquer outra estratégia de prevenção.
Vale a pena?
A ideia é, sem dúvida, original. Em vez de tentar limpar o recto através de água, procura resolver o problema de outra forma, aproveitando a anatomia natural do intestino.
Se os estudos independentes confirmarem aquilo que o fabricante promete, poderá tornar-se uma alternativa interessante para muitas pessoas.
Mas, para já, ainda é cedo para dizer se estamos perante uma verdadeira revolução ou apenas mais uma ideia engenhosa. Como acontece com qualquer inovação na saúde sexual, será a experiência dos utilizadores e a evidência científica a dar a resposta. Ou, como diria a minha avó… “Bola enfiada, queca descansada”



