a ler

“A Viagem Inútil”, de Camila Sosa Villada



No seu mais recente livro publicado em Portugal, Camila Sosa Villada regressa à origem da sua relação com a literatura, tanto enquanto leitora como escritora, e à forma como esta se tornou indispensável à sua existência. 

Um dos nomes mais celebrados da literatura latino-americana contemporânea, a escritora e actriz argentina oferece-nos uma narrativa autobiográfica sobre a infância, a identidade, a pobreza e as relações familiares, evidenciando as marcas emocionais dos conflitos, das mudanças e da procura de pertença.

Ainda que, para a família e as pessoas ao seu redor, a escrita fosse entendida como um “acto de vadiagem”, para a autora foi-se transformando numa condição de sobrevivência. Afirma mesmo que, sem ela, a sua vida poderia ter sido um inferno: “ter-me-ia suicidado, farta de ser invisível até para mim. Ter-me-ia matado sem a escrita, nem que fosse para chamar a atenção, por ser tão estúpida, para fazê-lo demasiado bem. (…) Sem a escrita não havia hipótese de eu viver”.

Nessa relação íntima e transformadora com a literatura encontramos a presença de duas figuras fundamentais da sua infância: o pai e a mãe. É pelas mãos do pai que a escrita entra na sua vida. “Esse período de aprendizagem ao lado do meu pai é o que me diz «nem sempre estiveram em guerra». Houve amor. Rimo-nos juntos.” Ainda assim, como também refere, “partimos desse gesto de amor e acabamos muito longe um do outro”, sendo que essas recordações se apagam sob as ruínas deixadas pela violência, o alcoolismo, a indiferença e a solidão que sente desde que nasceu até aos 18 anos, momento em que saiu de casa dos seus pais.

Já a leitura chega-lhe pela voz da mãe, que lhe lê, pacientemente, página após página de histórias. No entanto, o que começa como um momento de partilha transforma-se, gradualmente, num espaço de descoberta individual. À medida que a leitura se torna parte de si, Camila procura a tranquilidade do quarto para se perder entre páginas e livros. “Encontro um refúgio, que é o que mais procuro naquela idade.” Se foi a mãe que lhe apresentou os livros, foi também através deles que a autora encontrou um lugar que era apenas seu.

A literatura surge, assim, como espaço de fuga, de sobrevivência e de reinvenção. Para a autora, o seu segredo – o de escrever e ser travesti – expulsou os pais do seu mundo e, simultaneamente, salvou-a do ódio deles. É na escrita que encontra a possibilidade de existir e de construir um lugar próprio, transformando-a num lugar de abrigo perante a violência do mundo que a rodeia.

Ao longo do livro, Camila partilha algumas das vivências que mais a marcaram. Entre elas, aquela que descreve como o seu primeiro ato de travestismo: “O meu primeiro ato oficial de travestismo não foi sair à rua vestida de mulher dos pés à cabeça. O meu primeiro ato de travestismo foi através da escrita.”

E foi precisamente a partir desse primeiro acto de travestismo literário que toda a sua vida mudou.

.

ISBN: 9789895822232

Ano de edição: 06-2026

Editor: Quetzal Editores

Páginas: 104

.

Passatempo em breve no Instagram do dezanove.pt

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *