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Ainda tenho medo de contar aos meus pais: o que continua a surgir na terapia — e porque importa falar disto



Há perguntas que regressam à consulta com a persistência das coisas que ainda não encontraram lugar. Ao longo dos anos, e ainda hoje, continuo a escutar homens gays de diferentes idades, percursos e contextos sociais trazerem, com palavras distintas, a mesma inquietação de fundo: “Como digo aos meus pais quem sou?”, “Será que alguma vez me vão aceitar?”, “Porque continuo a ter medo disto sendo já adulto?”.

Resolvi escrever esta reflexão porque estas perguntas raramente dizem apenas respeito a sexualidade. Falam de amor, pertença, vergonha, silêncio familiar, identidade e do desejo profundamente humano de continuar a ser filho sem deixar de ser inteiro. Escrevo enquanto psicólogo clínico, psicoterapeuta e homem homossexual, a partir da intersecção entre escuta profissional, conhecimento científico e experiência vivida, com a esperança de que este texto possa oferecer compreensão, linguagem e algum alívio a quem ainda carrega esta luta em silêncio.

Há perguntas que regressam à consulta com a insistência das coisas essenciais. Mudam os rostos, mudam as idades, mudam as profissões, mudam os bairros de Lisboa, mudam as histórias familiares, mudam os corpos que se sentam diante de mim. Mas a pergunta, de uma forma ou de outra, permanece. Surge em homens de 19 anos e em homens de 49. Surge em quem ainda vive em casa dos pais e em quem já partilha apartamento com o companheiro há uma década. Surge em executivos, médicos, professores, artistas, engenheiros, desempregados, homens discretos e homens exuberantes. Surge em vozes seguras e em vozes partidas. A pergunta é simples apenas na aparência: “Como digo aos meus pais que sou gay?” Ou então: “Será que digo?” Ou ainda, talvez a formulação mais dolorosa: “E se eles nunca me aceitarem?”

“E se eles nunca me aceitarem?”

Sou psicólogo clínico, psicoterapeuta, trabalho na área da sexologia clínica e acompanho frequentemente pessoas LGBTQIA+ em processos ligados à identidade, vergonha, desejo, intimidade e relações familiares. Sou também homem homossexual. Não escrevo isto como detalhe biográfico irrelevante. Escrevo-o porque sei, no corpo e na escuta clínica, que há perguntas que não são apenas cognitivas — são perguntas nervosas, perguntas musculares, perguntas que vivem no peito, no estômago, na garganta. Há homens que conseguem falar fluentemente sobre investimentos, política internacional, estratégias empresariais, práticas sexuais, luto, traumas antigos — e, no entanto, bloqueiam quando tentam imaginar uma frase diante do pai: “Há alguém na minha vida.” O corpo sabe antes da linguagem o que está em jogo.

Durante anos – e até ao início da minha vida adulta – pensei que o meu próprio pai talvez nunca compreendesse. Vivi, como tantos outros homens gays, essa forma particular de dissociação: ser uma pessoa no mundo e outra na imaginação familiar. Tive medo de que a verdade me custasse o vínculo. Quando finalmente falei, ouvi dele algo simples e radical: que me amava e que isso era independente de tudo o resto. Lembro-me da estranheza quase humilhante de perceber que eu vivera anos submetido a uma sentença que não existia. Mas também aprendi outra coisa importante: a minha história não pode ser usada como receita para a vida de ninguém. Há pais que acolhem. Há pais que silenciam. Há pais que rejeitam. Há pais que amam mal à primeira e aprendem tarde. Há pais que nunca chegam. A clínica ensina-nos a respeitar esta diversidade sem cinismo e sem ingenuidade.

Vivi, como tantos outros homens gays, essa forma particular de dissociação: ser uma pessoa no mundo e outra na imaginação familiar.

Quando um homem gay adulto me diz que não consegue contar aos pais, raramente penso: “tem dificuldade em assumir-se”. Penso antes noutra formulação: tem dificuldade em continuar a ser filho depois de deixar de esconder. A orientação sexual, em si mesma, não é perturbação, problema ou défice. As principais organizações científicas internacionais são claras há décadas: a homossexualidade não constitui doença mental, e a prática psicológica deve ser afirmativa, não patologizante e sensível ao impacto do preconceito e da discriminação (American Psychological Association [APA], 2012). O sofrimento costuma nascer noutro lugar: na vergonha aprendida, no medo de perda de amor, no stress minoritário, no silêncio familiar, na necessidade crónica de avaliar risco emocional antes de dizer a verdade (Meyer, 2003).

É importante dizê-lo sem rodeios: muitos homens gays não têm medo de ser gays. Têm medo de descobrir que o amor dos pais era mais condicional do que esperavam. O que dói não é o desejo por homens. O que dói é a hipótese de que o desejo revele fragilidade onde antes havia segurança. Por isso, um homem pode ter carreira consolidada, vida sexual satisfatória, relação estável, casa partilhada, independência financeira e, ainda assim, regressar internamente a estados infantis quando imagina a reação da mãe ou do pai. O desenvolvimento adulto não elimina automaticamente feridas relacionais precoces. Podemos pagar as nossas contas e continuar simbolicamente dependentes do olhar de quem primeiro nos ensinou o que significava pertencer.

Na consulta, encontro muitas vezes homens que se envergonham de ainda não terem contado. Dizem-no como quem confessa atraso moral: “Já tenho 35 anos, isto é ridículo.” “Já devia ter resolvido isto.” “Sou psicologicamente imaturo.” Eu costumo contrariar essa narrativa. Não existe cronologia ética da coragem. Há histórias diferentes, contextos diferentes, sistemas nervosos diferentes, riscos diferentes. O rapaz que se calou aos 15 pode ter feito exactamente o que precisava para sobreviver naquela altura. O problema começa quando a estratégia de protecção se transforma em prisão identitária.

A teoria queer ajuda-nos muito aqui. Eve Kosofsky Sedgwick mostrou que o “armário” não é apenas um segredo individual; é uma estrutura social organizada em torno de quem pode viver sem se explicar e de quem precisa de se revelar para ser inteligível (Sedgwick, 1990). A heterossexualidade entra numa sala sem precisar de anúncio. A homossexualidade, demasiadas vezes, sente que precisa de justificar a sua presença. Quando só algumas pessoas precisam de “assumir-se”, não estamos perante uma neutralidade cultural. Estamos perante uma assimetria de poder.

Vejo isto clinicamente em formas subtis e devastadoras. Pais que nunca insultaram o filho, mas deixaram simplesmente de perguntar pela sua vida afectiva. Mães que tratam o companheiro como “amigo especial”. Pais que convivem cordialmente, desde que nada seja nomeado. Famílias onde toda a gente sabe, mas ninguém fala. Não há expulsão. Não há drama cinematográfico. Há apenas uma amputação silenciosa da realidade. E importa dizer: o silêncio também fere. A invisibilidade repetida pode produzir tanta vergonha como a crítica explícita. Há mesas de família onde ninguém é posto fora, mas onde certas partes da pessoa nunca se sentam.

Do ponto de vista da sexologia clínica, esta invisibilidade tem efeitos profundos. O erotismo não vive separado do psiquismo. O desejo precisa de espaço simbólico para respirar. Muitos homens chegam à vida adulta com vidas sexuais aparentemente funcionais, mas internamente atravessadas por dissociações: prazer acompanhado de culpa, intimidade acompanhada de medo de exposição, excitação atravessada por vigilância, ternura contaminada pela sensação de estar a viver algo que não cabe no mundo de origem. O corpo pode gozar e, simultaneamente, continuar a pedir desculpa. A clínica sexual ensina-nos que não basta “aceitar-se intelectualmente”; muitas vezes é preciso reinscrever o desejo no corpo como algo digno, não clandestino.

Há ainda outra vergonha específica: a vergonha do atraso queer. Muitos homens gays sentem que chegaram tarde a tudo. Tarde ao primeiro beijo, tarde ao primeiro namoro, tarde ao sexo vivido sem terror, tarde ao descanso. Mas não chegaste tarde à tua vida. Chegaste no tempo possível depois de atravessar o que tiveste de atravessar. Algumas pessoas puderam experimentar cedo porque encontraram segurança. Outras cresceram em contextos onde qualquer gesto de autenticidade parecia ameaçador. Não comparemos sobrevivências como se fossem calendários.

Quero também falar de algo que regressa ciclicamente ao debate público e que, para muitas pessoas heterossexuais, parece apenas tema ideológico: as chamadas “terapias de conversão”. Para muitos homens gays, o simples reaparecimento social desse discurso reabre feridas antigas. Porque comunica uma mensagem brutal: ainda há quem ache que quem tu és pode e deve ser corrigido. A evidência científica disponível e as orientações éticas contemporâneas rejeitam estas práticas por falta de eficácia robusta e pelo risco de dano psicológico significativo (APA, 2012). Mas para além da ciência, há algo humano a dizer: quando uma cultura insiste em tratar certas identidades como erro, semeia medo muito para além dos consultórios. Semeia-o em quartos adolescentes, em jantares de família, em decisões adiadas durante décadas.

Como profissional, não considero o coming out um mandamento terapêutico. Não empurro pessoas para se exporem para provarem autenticidade. O objectivo clínico não é “fazer contar”. É aumentar liberdade interna. Ajudar alguém a distinguir pais reais de pais fantasiados. Ajudar a separar medo actual de memórias antigas. Ajudar a perceber que contar pode ser escolha, não obrigação. Ajudar a pessoa a reconhecer também o custo de continuar calada: o parceiro invisível, a narrativa truncada, o cansaço de editar pronomes, a vida vivida por compartimentos.

Também importa dizer isto à comunidade: não transformemos o coming out numa nova moralidade. Há homens que contam cedo e homens que contam tarde. Há homens que nunca contam de forma formal porque preferem viver naturalmente até que a realidade fale por si. Há homens que escolhem limites claros com famílias incapazes de reciprocidade emocional. Há homens que ainda estão a tentar perceber se querem paz ou aprovação. Todas estas trajetórias merecem respeito se forem escolhidas com consciência e não impostas pelo terror.

Não transformemos o coming out numa nova moralidade

A teoria queer e o activismo ensinaram-nos outra coisa preciosa: família não se esgota no sangue. Muitos de nós aprendemos a sobreviver porque encontrámos casa em amigos, amantes, parceiros, comunidades, mesas onde não precisávamos de amputar metade da verdade para sermos recebidos. Isto não elimina a dor de uma família biológica limitada. Mas impede que ela tenha monopólio sobre o significado de pertença.

E, ainda assim, compreendo profundamente quem continua a desejar ser visto pelos pais. Esse desejo não é fraqueza. É humano. Todos queremos, em algum grau, que quem nos viu nascer consiga reconhecer quem nos tornámos. O problema começa quando entregamos a essas mãos o certificado da nossa legitimidade. O amor dos pais pode aquecer zonas antigas da alma. Pode reparar histórias. Pode devolver paz. Mas não pode ser o alvará da tua existência.

Se esta reflexão chegar a algum homem gay que ainda treme quando pensa em contar aos pais, quero dizer-lhe algo simples: o teu medo não prova cobardia. Prova que há amor em jogo. Prova que a pertença importa. Prova que és humano o suficiente para querer ser visto por quem importa. Mas talvez esteja a chegar o tempo de uma pergunta nova. Não “como faço para que me aceitem?”, mas “como quero eu viver daqui para a frente, com ou sem essa aceitação?” Não “porque demorei tanto?”, mas “quanto de mim quero ainda adiar?” Não “serei legítimo quando eles souberem?”, mas “quem me convenceu de que alguma vez deixei de o ser?”

Nunca foste o problema a resolver. Foste uma pessoa inteira a tentar crescer num mundo que, por vezes, soube amar antes de saber reconhecer.

Nuno Tomaz Santos

Sobre o Autor

Nuno Tomaz Santos é psicólogo clínico (OPP 30806), psicoterapeuta de orientação relacional e profissional com formação especializada em Sexologia Clínica, Intervenção Psicológica com Pessoas LGBTQIA+, Suicídio e Comportamentos Autolesivos, Dependências e Luto. Exerce prática privada em Lisboa e online, acompanhando adultos em áreas como sexualidade, identidade, intimidade, trauma, luto, depressão, ansiedade, relações afetivas e crescimento pessoal. Doutorando em Psicologia Clínica, integra na sua prática o diálogo entre escuta clínica, investigação científica e uma perspectiva profundamente humana sobre o sofrimento psíquico. Tem particular interesse no acompanhamento afirmativo de pessoas LGBTQIA+, procurando contribuir para uma cultura mais informada, ética e sensível sobre diversidade sexual, vínculos e saúde mental. É autor de ensaios e textos de reflexão que aproximam conhecimento especializado da experiência vivida.

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Referências

American Psychological Association. (2012). Guidelines for psychological practice with lesbian, gay, and bisexual clients. American Psychologist, 67(1), 10-42.

Meyer, I. H. (2003). Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: Conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 129(5), 674-697.

Sedgwick, E. K. (1990). Epistemology of the closet. University of California Press.

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