opinião

As bolhas de proteção



Decidi instalar um ar condicionado no meu apartamento. Mas esta história não é sobre instalar um ar condicionado. É sobre todas as suposições temerosas que aprendemos a aceitar para nos protegermos dentro da nossa própria casa.

Começa logo na conversa com o vendedor:

“O seu marido aceitou o orçamento?”

“O seu marido vai estar em casa?”

Perguntas lançadas como se fossem inofensivas, mas que questionam a minha autonomia para decidir algo tão banal como um ar condicionado. Há demasiados anos que ouço estas microagressões para ainda ter energia para corrigir ou explicar que as mulheres conseguem tomar decisões sem um aval masculino.

A resignação chega cedo. E depois instala-se. Como um ar condicionado.

O que me assusta é já não saber quando deixei de corrigir. Quando é que a injustiça deixou de ser insuportável e passou a ser apenas “a forma como as coisas são”. Há uma normalização perversa que acontece quando repetimos algo vezes suficientes:

o medo deixa de parecer medo. Parece cautela. Parece prudência.

Mas o verdadeiro ritual começa no dia da instalação.

Horas antes, arrumamos tudo. Limpamos tudo. Somos mulheres, e ainda por cima duas. Que escândalo seria deixar à vista os sinais normais de uma vida quotidiana:

uma manta mal dobrada no sofá, uma chávena na mesa, uns sapatos perto da porta.

Porque não estamos apenas à espera de um técnico. Estamos à espera de um julgamento.

O julgamento de quem entra pela nossa porta carregando expectativas silenciosas sobre como uma mulher deve viver. Sobre como uma casa “normal” deve parecer.

Eu já vivi isto tantas vezes que deixou de ser surpresa. Tornou-se protocolo.

Depois vem o momento que realmente nos apaga: esconder as nossas fotografias juntas. Guardar o quadro daquela foto na praia tirada há dez anos.

Não por vergonha. Nunca por vergonha.

Mas porque não sabemos quem nos vai entrar pela porta.

Porque aquele visitante pode sentir-se desconfortável perante uma imagem de amor que não segue o guião esperado. E há algo particularmente violento em escolher desaparecer dentro do nosso próprio espaço para evitar esse risco.

As microagressões fazem barulho. Vêm em perguntas, comentários, suposições.

Mas este silêncio é diferente. Este silêncio somos nós.

Vivemos num país que gosta de se imaginar seguro. A lei diz-nos que somos iguais.

As conversas de café dizem-nos que “as coisas já melhoraram muito”. E talvez tenham melhorado em muitos lugares.

Mas dentro de casa continuamos a aprender pequenos gestos de sobrevivência.

Aprendemos a esconder.

Aprendemos a medir palavras.

Aprendemos a parecer invisíveis.

Enquanto os técnicos trabalham, movemo-nos pela casa com um cuidado coreografado. Evitamos o toque. Falamos com distância. Tratamo-nos quase como colegas de quarto.

É uma performance exaustiva.

Portugal gosta de se vender como um país tolerante, mas essa tolerância tem letras pequenas: funciona melhor quando não incomodamos a vista.

E só quando a porta finalmente se fecha é que o alívio se torna físico.

O ar condicionado já funciona. A casa ainda cheira à presença de quem nos obrigou, mesmo sem intenção, a voltar para o armário durante algumas horas.

Então tiramos as fotografias da gaveta. Voltamos a colocar a moldura da praia no lugar.

E voltamos, finalmente, a existir inteiras.

Susana Pinto

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