opinião

As macho(mano)(women)(facho)esferas e a LGBTQIA+fobia: indivorciáveis



Entretanto “Nação que a Virgem elegeu”…Cristiano Ronaldo afirma, no Portugal de 2025, que “Algo positivo que tenho é que não gosto de ler” e um Doutorado em Direito, Presidente da maior potência política nacional, afirma que “Só existe homem e mulher. O resto são aberrações”

País onde a pedofilia está “normalizada (4815 casos oficializados só dentro da ICAR, em 2023 e branqueados pelos seguidores da mesma), país de padristas, fatimistas, xenófobos, homofóbicos, machistas e racista, Portugal, em 2025, mostra ao Mundo o que o Brasil mostrou em 2018: tudo aquilo que um país não deve e não pode ser.

As esferas internéticas ideológicas, onde se interseccionam as macho(mano)esferas, as womenesferas (femino-esferas) e as fachisto (neo-nazi)esferas, são hoje o Educador primeiro e major dos adolescentes, muitos com idade inferior a 16 anos e, mesmo, 14 anos. Estes movimentos documentados são a expressão manifestamente em Portugal dos redpills, incels e expressões cujo combustível é a radicalização e o discurso incendiário do ódio. Nomes como Gustavo Santos, Windoh, Numeiro, Rodrigo Nogueira, Marco Pinheiro, Camilo Lourenço, Tiago Paiva ou Tiagovski, Pedro Rosário, Afonso Teixeira da Mota, Fred Canto e Castro, Pedro Frazão, Sephora Araújo, Maria Vieira, Júlia Ferreira, Maria Helena Costa, Rita Cid Matias, patrioticamente cognominada a Cidinha e, principalmente, André Ventura, Miguel Milhão, Gonçalo Sousa e Afonso Gonçalves são hoje sinónimos de “influencers do ódio”, supremacistas extremistas, axiados na toxicidade da masculinidade, homofóbicos e xenófobos de direita radical e direita extrema. Estas pessoas advogam a re-salarização da Educação, a “remigração”, a des-islamização da Europa, a objectificação e periferização da mulher e a patologização e a psiquiatrização das pessoas LGBTQIA+ e a diabolização das questões da Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Género e Características Sexuais (OIEC). Evidenciamos movimentos menos conhecidos na sociedade portuguesa, mas com um impacto significativo no discurso dos estudantes, como os movimentos #tradewifes, materializadas nas Darling Academies, em Inglaterra, e outros movimentos Floribela/Floricienta, apologistas do “bela, recata e do lar”, cujo desiderato é o despertar da “feminidade ancestral”. Estes movimentos, na minha opinião, mais não são do que formas contemporâneas de prostituição socialmente justificadas e normalizadas, assim como verificados com o Chaturbate e outros.  Já para não dizer a macabridade de ter mulheres a apoiar os supracitados André Ventura, que cognomino o Coiso, aquele cujo nome não deve ser pronunciado, para não dinamizar ainda mais a algoritmocracia, Afonso Gonçalves, líder do movimento extremista e declaradamente incel Reconquista, com 74,9 mil seguidores no Instagram e Gonçalo Sousa, em 2021, candidato pelo partido Chega à Câmara Municipal de Oeiras e, actualmente, com 98,7 mil seguidores. Destaco, ainda, os coaches e influencers da masculinidade Rui Estrela e David Araújo, cujo objectivo são retiros para reerguer o “sagrado masculino” e a “energia masculina ancestral do “macho alfa”, que na opinião dos próprios estão ofuscados pela “masculinização” e empowerment da mulher. Impossível, também não mencionar, Tito, o “gajo” dos mais de 60 dias de retenção seminal, Gabriel, o comedor de carne crua e a supracitada Maria Helena Costa, auto-denominada “mulher, casada, mãe, avó, cristã, conservadora, de direita” e uma das maiores vozes nacionais a favor da existência da retórica da “ideologia de género” e do movimento anti-”ideologia de género”. A lista de influencers destes ghettos internéticos é astronómica, por isso apresentamos os mais conhecidos, hodiendamente.

A planetarização destas esferas e a sua materialização, mostra o perigo e o impreparo do  estar Onlife OnLife, o On(l)life, que tanto se avocava no período Covid e post-Covid. Adolescentes de menos de 16 anos são diariamente metralhados por estas retóricas, praticamente todas anti-LGBTQIA+. Já para não falar que, apesar do 60/2009, de 6 de Agosto, o 51/2012, de 5 de setembro, o DL 54/2018, de 6 de julho, o 38/2018, de 7 de agosto, as questões LGBTQIA+ e as temáticas da OIEC continuam, na esmagadora maioria dos curricula portugueses, a serem periferizados/marginalizados, tabuizados, assimilacionados, super-humanizados e privatizados, como sinalizada o autor Hugo Santos (2018,2019, 2020, 2024).  Ou seja, as sexualidades humanas e o diálogo com a outridade permanecem perante esta realidade, invisibilizados e silenciados como “não questões”, o que origina um terreno fertilizado, onde estas esferas abjectamente tóxicas vão propagar o seu discurso anti-migração, ciganofóbico, ginecofóbico e LGBTQIA+fóbico, com inverdades e informações tão absurdas como a teorização da substituição racial, o coaching da masculinidade, o coaching do yin e do yang, a meritocracia, a positividade tóxica, a lei da atracção, a importância “espiritual” do perdão, o negacionismo do Holocausto, o Marxismo cultural, a cristianofobia, as constelações familiares de Hellinger, o racismo inverso/reverso, a Nova Ordem Mundial, os Illuminati, o anti-semitismo, a existência dos greys, o controle populacional, a infirmação do aquecimento global, a remigração (utilizada pelo Movimento Reconquista em 2023 e defendida por Pedro Frazão, em 2025, na Assembleia da República Portuguesa. Uma vez mais a lista é tubarónica, mas o que eu quero dizer é que estas esferas, subsidiadas por este pseudo-cientifismo, divulgam as questões das sexualidades humanas (e não humanas) não (hetero)normativas travestidas, ideologamente, de uma  perspectiva não cientificada, binarista e biologizante, patriarcalizada e cisheteronormativizada. Estas esferas internéticas, subsidiadas em e por discursos divisivos, sectarizados, assidua e altamente identitários, colectam aquilo que nos divide como indivíduos, num binarismo opositivo “eu” e o “outro”, o “opositor”, e capitalizam isso politicamente. Esta situação, infelizmente, foi já verificada em 2025, na RCM n.º 127/2025, de 29 de agosto, que considero uma Resolução anti-inconstitucionalizada pelo DL 60/2009 e o DL. N.º 51/2012, o primeiro que determina a obrigatoriedade da Educação Sexual transversalizada e nuclear nos Ensinos Primário e Secundário e o segundo, que qualifica o Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO), onde as sexualidades e saúde reprodutiva são temática conteudística nucleares. A RMC supracitada, inversamente, desnuclearizas e exclude as questões LGBTQIA+ e as temáticas da OIEC das aprendizagens essenciais e periferiza-as para o 3.º Ciclo do Ensino Básico. Sob a intencionalidade de “libertar a Cidadania das amarras dos projectos ideológicos” (Luís Montenegro) e sob a égide de “o Estado ensina e a família educa”, o “limpar os currículos de ideologia”, o “acabar com uma disciplina que permite que os filhos sejam doutrinados e o “deixem as crianças em paz” (Rita Matias, 2025), a agora aprovada Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania e Aprendizagens Essenciais (ENEC), ignota a existência de identidade de género e orientação sexual, pelo menos de forma perceptível, e obstaculiza, assim, o permitir representatividade e visibilidade positivas LGBTQIA+. E reitero, considerando os DLs sobre a temática em vigor, esta ENEC-DGE é anti-constitucionalizada, principalmente, pelo 61/2018.

Se formos a ser éticos, existe sim, uma ideologia de cishetereossexualizar no currículo escolar nacional e internacionalizar, pois todos os conteúdos que nos são apresentados são direccionados para a normalização do cisgenderismo. 

Soluções para combater esta desinformação, estes (pre)conceitos e estas esteriotipias já tentaculizadas na nossa sociedade, nacional e internacionalmente?

Em 2024, surge nos EUA um movimento nominado BlockOut 2024, cujo objectivo é bloquear pessoas que “vendem” conteúdo inalcançável e supérfluo e o dinamizar o diálogo com conteúdos mais realistas e sair de uma bolha combustada por uma meritocracia utópia, onde a pessoa é responsável pelo que lhe acontece, ignorando o factor C (contexto). Este blockout, que defendo, inclusive técnicas e práticas do seu ensino nas escolas, desvincula-se das ego trips e do material alimentício internético e tóxico dos “idioten” e dos estilos de vida “pinterest” e direcciona as pessoas a dialogar e a priorizar os amigos e conteúdos construtivos e utilitários, desfazendo a hagiografia de indivíduos como o assassinado Kirk e os seus Kirk minios, Bolsonaro e os seus Bosominions, Trump e os seus Trumpminions, Nick Fuentes e os seus Groypers e, em Portugal, Venturazar e os seu Venturaminions. 

Outros qualificadores que considero imperativos no combate à LGBTQIA+fobia e outras formas de agressividade são uma alfabetização direccionada para a criticidade e a não anedonia dos aprendentes, onde todos os actores da comunidade educativa são vozes presentes. A escola como instituição, cujo desiderato é “educar para o plural”, deve dinamizar inter(intra) institucionalmente, as dimensões eticista e não excludente, a dimensão formativa, direccionada para a capacitação e actualização da pessoa docente e da pessoa discente, a dimensão desconstructora e desinvisibilizadora do e no currículo, o queerizar, o queer(ing), a dimensão organizativa e preventiva, a dimensão integradora, curricular, universalizadora e não categorizadora, a dimensão dialógica e colabora(coopera)tiva e a dimensão (trans)(in)formadora do fazer pedagógico. Acrescento a importância da introdução de literatura queer, para dinamizar políticas e práticas inclusivas LGBTQIA+ promotoras do desenvolvimento de identidade sexual e de género positiva nas escolas, axiadas na afirmatividade, visibilidade e referenciatividade construtivas. 

E, o mais importante, nós como sociedade democrática, não podemos legitimar o inconstitucional e o intolerável, inexequíveis numa democracia, onde se pratica um fazer pedagógico, social e, primeiramente, humano, onde a socratização e viver dialógico são basilares para o viver pluralmente. 

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Jorge da Silva Pereira

2 Comentários

  • Ulisses Couvinha

    li o teu texto com atenção e gostei muito. Está muito claro, muito direto e, acima de tudo, muito necessário. Consegues apontar tudo aquilo que anda atravessado na nossa sociedade de uma forma que faz mesmo pensar. A parte sobre a influência das esferas tóxicas na internet tocou-me especialmente, porque vejo isso todos os dias nos miúdos e até em adultos que repetem discursos de ódio como se fossem factos.

    Também achei muito importante o que dizes sobre a escola e sobre como os temas LGBTQIA+ continuam a ser empurrados para o lado, mesmo com legislação que supostamente protege esses conteúdos. Tens toda a razão quando falas da falsa neutralidade. Não é neutralidade nenhuma, é só continuar a normalizar uma visão única do mundo e deixar tudo o resto invisível.

    A proposta de reforçar literacia crítica, de introduzir mais representatividade e de quebrar o ciclo dos conteúdos tóxicos faz todo o sentido. O BlockOut é um bom exemplo disso. Há mesmo que cortar o palco a quem vive do ódio e abrir espaço para o que constrói.
    O texto está forte, bem pensado e escrito com coragem. Obrigado pela partilha ✊🏼

  • Marcos

    Em Portugal está-se a repetir o pior do Brasil de 2018: normalizar o discurso de ódio, branquear abusos na Igreja, eleger a ignorância como virtude e entregar a educação dos miúdos a youtubers incels e coaches de “macho alfa.

    Bloquear gente que vive de espalhar ódio não é censura, é higiene.
    Exigir aulas de educação sexual decentes e parar de dar palco a homofóbicos e racistas que lucram com isso também não é censura.

    É só limpeza básica. É o mesmo que varrer o lixo da rua para a cidade não cheirar mal.

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