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Colapso, de Édouard Louis: a lenta queda de um homem abandonado pelo mundo



 

“Não senti nada ao saber da morte do meu irmão.”

É com esta frase seca e brutal que Édouard Louis abre Colapso, um livro sobre a lenta destruição da vida do irmão, morto aos 38 anos, depois de décadas marcadas pelo abandono, pelo alcoolismo, pela precariedade, pela violência e por sucessivas expulsões. Não há um momento único de queda: o colapso acontece devagar, através de pequenas ruturas que se acumulam até já não parecer possível regressar.

Louis reconstrói essa vida através das suas memórias e dos testemunhos das mulheres que se relacionaram com o irmão. Não o transforma apenas numa vítima. O irmão bebia, agredia mulheres e reproduzia discursos racistas, misóginos e homofóbicos. Mas o autor recusa também reduzi-lo a um monstro. Procura compreender como alguém simultaneamente ferido e violento foi produzido por uma família, por uma classe social e por uma sociedade que o foi deixando para trás.

No centro desta história está um pai oriundo das classes operárias francesas, violento, alcoólico e incapaz de transformar a própria humilhação noutra coisa que não fosse brutalidade doméstica. Quando abandona a família, o filho mais velho passa a viver em torno dessa ausência, como se todas as suas relações futuras fossem tentativas de reabrir a mesma ferida. A mãe, protectora, procura manter os filhos unidos e insiste para que Édouard volte a falar com o irmão. Mas o cuidado materno não consegue substituir empregos dignos, serviços de saúde, políticas públicas ou redes de proteção social.

Édouard Louis é o outro irmão: o rapaz gay, alvo de bullying e de violência homofóbica, que teve de partir para sobreviver. Afastar-se da família, da pobreza e dos códigos masculinos do lugar onde cresceu foi uma forma de salvação. O irmão representa tudo aquilo de que fugiu, mas também a origem comum que nunca conseguiu apagar. É desta distância que nasce a culpa: poderia ter feito mais? Poderia ter compreendido aquilo que, enquanto acontecia, apenas lhe provocava medo, vergonha ou repulsa?

Colapso é também um livro sobre a crueldade de uma sociedade individualista à qual o Estado social deixou progressivamente de responder. Quando a pobreza, a dependência e o desemprego são tratados apenas como falhas pessoais, o sofrimento transforma-se em ressentimento. E é nesse vazio que os populismos encontram terreno fértil, oferecendo culpados fáceis: as mulheres, os migrantes, as pessoas negras, árabes ou LGBTQIA+.

O irmão de Louis reproduz precisamente essa linguagem. Incapaz de controlar a própria vida, procura exercer poder sobre pessoas ainda mais vulneráveis. A sua violência não é desculpada, mas é situada numa estrutura social que produz humilhação e depois responsabiliza exclusivamente os indivíduos pelo seu fracasso.

Édouard Louis humaniza, assim, a desumanidade do capitalismo. Não procura absolver o irmão, mas impedir que a sua vida seja reduzida ao álcool, à violência ou à morte. Por detrás do homem que feriu existiu uma criança abandonada, um trabalhador precário, um filho à procura do pai e alguém que desejava ser amado.

O colapso do irmão torna-se, por isso, o colapso de uma sociedade que destruiu solidariedades, individualizou o sofrimento e depois se surpreendeu ao ver a raiva capturada pela extrema-direita. Ao escrever sobre ele, Louis já não o pode salvar. Pode, no entanto, devolver-lhe uma humanidade que o mundo lhe retirou.

 

 

Chancela Elsinore

Autor Édouard Louis

Tradutor Diogo Paiva

ISBN 9789895890781

Data de publicação:  Outubro de 2025

Páginas 176