Nos seus vinte anos, Mário Cesariny (1923 – 2006) teve uma intensa relação amorosa com um homem, do norte do país, conhecido do meio literário, que o poeta-pintor nunca identificou e que, mais tarde, se percebeu ser o escritor, jornalista e publicitário Carlos Eurico da Costa (1928 – 1998), também ligado ao movimento surrealista, que um dia lhe enviou uma carta que a PIDE apreendeu. Esse homem terá sido o grande amor da vida de Cesariny: «Foi extremamente belo o que entre mim e o Costa se passou na Barca. (…) Ele está agora numa crise grande, em Viana, e precisa de ânimo e notícias tuas (…). Creio que lhe é horroroso viver naquele mundo, depois dos dias de liberdade e amor – grandes – que teve na Barca.» – In “Cartas a Cruzeiro Seixas” (abril de 1950).
Em entrevista concedida a Miguel Gonçalves Mendes (documentário “Autografia”, 2004), quando questionado sobre se havia encontrado «o amor da sua vida», Mário Cesariny confessou: «Acho que encontrei. Nos primórdios da coisa, houve uma confusão de sentimentos, entre mim, entre nós. E o moço, não quero dizer o nome que não vale a pena, e que era tudo menos homossexual… apaixonou-se por mim, pura e simplesmente.
Os dois éramos inábeis na cama. Nas poucas ocasiões em que houve cama.
E um dia ele escreveu-me uma carta de Viana do Castelo.
Porque ele estava na tropa, era oficial miliciano, onde dizia assim: “Blá, blá… os nossos patrões, os americanos, ainda não me deixam sair.”
A PIDE abria a nossa correspondência, e informou o comando militar. E isso ia dando uma tragédia total! Queriam mandá-lo para África e não sei que mais, mexeram-se influências e só esteve seis meses ou quatro, no forte de Caxias. Isso era um amor muito puro, quer dizer, metia sexo, mas era realmente!…
Ele um dia embebedou-se para me matar. Porque lá dentro, ao mesmo tempo não estava a aceitar. Depois, como se vê pela gravura junta, não me matou. E estás a ver o que é um amor em que foi misturada a PIDE, a família, a saber tudo? Foi uma coisa horrível.
Isso podia ter sido uma ligação profunda, não sei se duradoura. Depois, é claro, tive amantes, mais por sexo, mais por Eros do que por Psique.»
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EM TODAS AS RUAS TE ENCONTRO, MÁRIO CESARINY
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
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