Martim Alvarez tem 26 anos e faz da cidade do Porto a sua base de trabalho. É designer de moda e criador da marca AMOR DE LA CALLE. Está a desenvolver uma colecção de vestuário inspirada nos ambientes, artefactos e personagens que formam a história das dissidências sexuais no Estado Novo português. Desde o início deste ano, tem partilhado nas redes sociais a sua investigação, chamando a atenção para o desconhecimento que ainda existe sobre o passado de repressão e de silenciamento desta comunidade marginalizada. O dezanove.pt esteve à conversa com o Martim.
dezanove: Enquanto designer de moda, como surgiu o teu interesse pela história da homossexualidade no Estado Novo?
Martim Alvarez: Iniciei a pesquisa sobre a homossexualidade e sobre as dissidências sexuais no Estado Novo com o intuito de me inspirar para uma futura colecção. Foi sem querer. Comecei a ler um livro do António Fernando de Cascais [Dissidências e Resistências Homossexuais no Século XX Português (2024), edição Letra Livre] e percebi que já havia contribuições de vários autores, várias pesquisas, vários estudos feitos sobre essa temática. Coincidentemente, nessa altura mudei-me para o lado da Livraria aberta [no Porto], e eles tinham bastantes livros sobre essa temática, publicados por autores portugueses. Li-os todos.
Como tem sido o trabalho de desenvolvimento da colecção?
Rapidamente percebi tinha reunido grande parte dos temas e da documentação visual que eu precisava para me inspirar. A nível dos processos policiais, que depois fui ler fisicamente, e dos livros que eu li, percebi que essa documentação era suficientemente para me conseguir inspirar. Percebi também que estava já demasiado debruçado sobre toda essa pesquisa, e que era preciso fazer algo mais, que o meu papel já não era só para uma colecção de vestuário. Fiquei também motivado, numa primeira fase, em começar a partilhar as pesquisas em vídeos no TikTok e no Instagram.

Sentiste que seria importante trazer a esta investigação para as redes sociais
Sim. Até porque acho que existe sempre uma falha de informação no que toca a questões LGBTQIA+ actualmente, por isso, se olharmos para mais de 50 anos atrás, ainda mais falhas existem. Eu também achava que todos os textos que eu lia não eram muito acessíveis para quem não estivesse por dentro do assunto. E então, de repente, tinha a galeria cheia de fotografias dos arquivos que eu consultava, ou dos livros que tinha lido. Publiquei um TikTok na altura (uma tendência nada a ver com a temática) e fiz uma sequência de várias fotografias das minhas pesquisas, que deixaram as pessoas bastante curiosas. Depois fiz um segundo vídeo com a recomendação de livros sobre a temática e percebi que as pessoas ficaram ainda mais curiosas. Achei então que era interessante segmentar os vídeos em temáticas diferentes sobre as dissidências no Estado Novo.

Vais continuar a criar conteúdos para as redes sociais?
Quero fazer uma segunda parte dos vídeos, agora com a colecção, para mostrar as peças que tenho feito. Quero explicar cada peça, porque cada peça representa ou um cenário que é descrito num auto da polícia judiciária, ou uma personalidade, como o Júlio de Melo Fogaça, o Valentim de Barros, ou o António Botto. Apesar de eu já ter falado destas pessoas, agora vou ter algo físico que as representa. Por isso, continuar a explicá-las para o público do TikTok ou Instagram continua a fazer sentido.

O que podemos esperar da colecção? Vai ser lançada ainda este ano?
Sim. O mais rápido possível. Agora estou focado em fotografar a colecção, pensar numa campanha, que será muito inspirada principalmente nos autos da polícia judiciária, em materializar fotograficamente o que os autos relatam. O casting será todo queer, os ambientes serão dentro do imaginário onde são descritos os autos: urinóis públicos, vãos de escadas, parques, zonas de engate, numa simulação dos encontros eróticos.
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Fotos: Martim Alvarez


