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Guilherme de Melo: um homem que urge não deixar cair no esquecimento



Guilherme de Melo (1931 – 2013), jornalista, escritor, poeta e pioneiro da luta pelos direitos dos homossexuais em Portugal, foi uma das figuras mais corajosas e singulares da cultura portuguesa do século XX. Dotado de uma personalidade frontal, culta e profundamente humanista, distinguiu-se não apenas pelo talento literário e jornalístico, mas também pela rara capacidade de assumir publicamente aquilo que muitos, no seu tempo, escondiam por medo ou conveniência.

Trabalhou no “Notícias” de Moçambique (país onde nasceu, durante o domínio português), tendo chegado a diretor-adjunto, e, depois da Revolução de Abril, já em Lisboa, no “Diário de Notícias”, até se reformar em 1996, ano em que o então diretor, Mário Bettencourt Resendes, o promoveu a redator principal, categoria profissional de topo para os jornalistas portugueses.

Guilherme de Melo era frequentemente descrito pelos colegas como um profissional rigoroso, elegante no trato e profundamente ético, pertencente a uma geração de jornalistas para quem o jornalismo era, acima de tudo, um compromisso moral com a verdade. Numa entrevista, chegou mesmo a afirmar: «No meu tempo havia ética», lamentando a crescente superficialidade e agressividade de parte da comunicação social contemporânea.

Autor de quase vinte livros, em que se destacam, talvez, “As Raízes do Ódio” (1962) – apreendido pela PIDE, “A Sombra dos Dias” (1981), “Ainda Havia Sol” (1984), “Os Leões Não Dormem Esta Noite” (1989) ou “Crónica dos Bons Costumes” (2004), dizia que a sua escrita literária tinha por escola a escrita jornalística e que era incapaz, em si, de dissociar o jornalista do escritor. A sua obra, profundamente autobiográfica em muitos momentos, revela uma personalidade sensível, observadora e marcada por um permanente conflito entre a solidão, o desejo e a necessidade de liberdade.

Em “A Sombra dos Dias”, considerado um dos primeiros romances assumidamente homossexuais da literatura portuguesa contemporânea, Guilherme de Melo expôs sem filtros a experiência de crescer homossexual numa sociedade colonial conservadora e repressiva.

Foi uma das primeiras personalidades em Portugal a assumir publicamente a sua homossexualidade, num tempo em que isso implicava coragem social, profissional e até pessoal. Entre muitas entrevistas na imprensa, na televisão e na rádio, é de destacar a sua participação num programa da RTP sobre a homossexualidade em 1982 (ano em que esta foi descriminalizada no nosso país) e na RTP2, em 1992, desta vez com o seu companheiro, Elídio Camacho (com quem teve uma relação de 24 anos), no programa “Falar Claro”, de Joaquim Furtado: foi a primeira vez que um casal homossexual apareceu na televisão portuguesa. Esse gesto teve um impacto simbólico enorme numa sociedade ainda profundamente marcada pelo preconceito. O próprio Guilherme de Melo reconheceu, anos mais tarde, que sentiu “necessidade de afirmar à sociedade” quem era verdadeiramente, recusando viver escondido ou condicionado pelo medo.

Apesar da frontalidade, nunca cultivou uma imagem agressiva ou panfletária. Pelo contrário: amigos, leitores e colegas recordam um homem afável, culto, espirituoso e extraordinariamente generoso nas relações humanas. Tinha fama de conversador brilhante, dono de uma ironia fina e de um humor mordaz que usava tanto para desmontar hipocrisias sociais como para aliviar tensões. Ao mesmo tempo, carregava uma dimensão melancólica muito própria, visível em várias entrevistas e textos autobiográficos, sobretudo quando falava da passagem do tempo, da perda ou da discriminação que viveu.

«Todos os que conviveram com ele não lhe esquecerão o profissionalismo exemplar, a coragem desassombrada, a imensa camaradagem, a capacidade de fazer amizades instantaneamente, a boa disposição permanente e aquele rasgado e malicioso sentido de humor que contaminava toda a gente», escreveu o jornalista Eurico de Barros no obituário dedicado ao escritor.

Uma das figuras cimeiras das letras e da cultura portuguesa, Guilherme de Melo foi também um homem muito à frente do seu tempo: livre quando quase ninguém o ousava ser, íntegro quando isso tinha custos e profundamente humano numa sociedade muitas vezes marcada pela intolerância. Um homem que urge não deixar cair no esquecimento.

Paulo Marques

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