Falar de nudez continua a ser, em muitos contextos, um tabu sobretudo num país onde a nudez masculina ainda é vista com desconfiança, até dentro da própria comunidade LGBT+. Lucas Ramos dá-lhe protagonismo e humanidade. Fotógrafo autodidacta, vive em Lisboa e usa a câmara como ferramenta de exploração artística e pessoal. Encontrou na fotografia não apenas uma paixão, mas também um escape criativo, onde dá corpo (e alma) a temas como a masculinidade, a intimidade e a expressão do corpo nu.
Nesta entrevista, fala-nos com franqueza sobre o início do seu percurso, as dificuldades de fotografar nudez num país ainda conservador, a importância da confiança com os modelos e a forma como cada sessão o transforma. Um olhar cru, honesto e profundamente humano sobre um género fotográfico ainda pouco compreendido.
dezanove: Como surgiu o teu interesse pela fotografia e, mais especificamente, pela fotografia de nus?
Lucas Ramos: O meu interesse pela fotografia surgiu desde pequeno. Adorava tirar fotos de tudo e todos. Depois, esse gosto acabou por ficar adormecido, e no final da minha adolescência voltei a explorar com fotografia de rua. Tinha bastante interesse em explorar o meu meio envolvente e capturar a vida humana no seu quotidiano.
Passado uns anos, em 2021, decidi explorar o mundo dos retratos também. Recorri a dating apps para abordar pessoas e, para meu espanto, a maioria das pessoas com quem falava tinha interesse em explorar um registo mais sensual ou até mesmo erótico… e aqui estamos.

O que procuras transmitir com as tuas imagens de nus?
Eu procuro captar diferentes nuances da masculinidade. Quer seja algo mais delicado e vulnerável, como algo mais intenso e provocador. Sinto que é um território com muito por explorar e permite-me sair constantemente da minha zona de conforto.
Como escolhes os modelos com quem trabalhas? O que procuras neles?
Para mim, o mais importante é o modelo ter vontade de fazer algo neste tipo de registo e estar disposto a entregar-se à sessão. Estando reticente, a probabilidade de o resultado ficar aquém das expectativas é grande.
Quanto à aparência física, não tenho um tipo de modelo ideal em concreto. Depende sempre da ideia que quero trazer à realidade e de quem melhor se enquadra nessa visão.
Há uma preparação emocional ou conceptual antes da sessão?
Há sempre uma preparação conceptual. Quando surge uma ideia nova, gosto de preparar um moodboard, ir à procura de lugares para fazer a sessão e de alguém que alinhe na ideia.
No começo, sentia-me sempre muito nervoso antes e durante as sessões, porque tinha medo de pedir ou fazer algo que não fosse profissional. Com o tempo, fui percebendo que com boa comunicação tudo se resolve. Quanto mais à vontade e preparado eu estiver, mais à vontade fica o modelo, e melhor é o resultado final.

Trabalhas mais em estúdio ou em locais naturais? Porquê?
Tenho um apreço especial pela fotografia com luz natural, mas este ano comecei também a explorar fotografia em estúdio e tenho conseguido alguns resultados interessantes.
Que importância tem a confiança entre fotógrafo e modelo neste tipo de trabalho?
Essa confiança é fundamental. Diria que 95% das pessoas que fotografei nunca fizeram algo parecido antes e, naturalmente, têm muitas dúvidas e ressalvas. O facto de eu gostar de conversar bastante antes das sessões sobre as ideias ajuda a que as pessoas saibam bem o que se pretende ser feito e se sintam mais preparadas. O ambiente nas sessões também é superdescontraído, e os modelos rapidamente ficam à vontade.
Diria que 95% das pessoas que fotografei nunca fizeram algo parecido antes e, naturalmente, têm muitas dúvidas e ressalvas. O facto de eu gostar de conversar bastante antes das sessões sobre as ideias ajuda a que as pessoas saibam bem o que se pretende ser feito e se sintam mais preparadas.
Já tiveste momentos delicados durante as sessões? Como é que os ultrapassaste?
Apesar do que disse na pergunta anterior, já tive uma experiência em que as expectativas, afinal, não estavam tão bem alinhadas. Foi complicado tentar improvisar ali no momento algo novo porque tinha algo muito específico em mente e, infelizmente, essa sessão nunca viu a luz do dia. Mas foi a experiência que me fez mudar a forma como abordo a fase pré-sessão, que uso até hoje, então diria que serviu para alguma coisa.
Algo mais leve: já aconteceu, para uma sessão ao ar livre que ia envolver nudez, o local pretendido (que era crucial para a ideia que tinha) estar cheio de caravanas, e por isso fazer ali era impossível. Abrimos o mapa no telemóvel e fomos para um sítio perto que parecia ser tranquilo, e conseguimos improvisar com o que tínhamos à nossa disposição. Já se passaram alguns anos e ainda é das minhas sessões favoritas.
Como ajudas os modelos a sentirem-se à vontade perante a câmara?
Como a maioria dos que fotografo são amadores, muitas das suas inseguranças partem de não saberem posar ou de como ficam retratados nas fotos. Mostrar as fotografias à medida que decorre a sessão ajuda a que vejam como está a ficar o resultado e a tirar essa ansiedade de cima.
Consideras que ainda há muitos preconceitos à volta da nudez na arte? Como lidas com isso?
Sem dúvida. Portugal ainda é um país bastante conservador, mesmo dentro da nossa comunidade, e ainda muitas pessoas vêem o tipo de fotografia que faço como pornográfico. Aos poucos, as pessoas vão aceitando melhor esta arte, mas é um caminho lento.
Já censuraram ou criticaram o teu trabalho? Como reagiste?
Por enquanto, só tive casos de pessoas que, no momento de publicar as fotos, preferiram cortes menos explícitos. Felizmente, por enquanto isso ainda não afectou o meu trabalho e, com o tempo, acontece cada vez menos.
Tens referências artísticas que te influenciam neste género?
Eu gosto de explorar trabalhos de outros artistas para ter uma noção do que é possível fazer, mas tento não me inspirar demasiado em nenhum, para garantir que não influenciam demasiado o meu ponto de vista.

Que tipo de reações recebes do público?
A recepção ao meu trabalho até agora tem sido sempre positiva. Mas, como nunca fui além das redes sociais, e pela forma como funcionam hoje em dia, encaixando tudo em bolhas, acabo por não ser recomendado a ninguém que possa estranhar muito o que faço.
É mais engraçado ver a expressão na cara das pessoas quando lhes digo pessoalmente que sou fotógrafo e mostro o meu trabalho. É algo que quase ninguém espera, então há sempre um pequeno choque, seguido de muitas perguntas.
Há alguma fotografia que te tenha marcado ou mudado a tua forma de ver o corpo?
Como tento sempre explorar coisas novas em cada sessão, cada uma marca-me por questões diferentes. Ainda assim, a sessão que fiz com o Corvus é, sem dúvida, a que me marcou mais até hoje.
Foi a minha primeira sessão ao ar livre e foi quando pude explorar algo em maior escala.
Já posaste nu para alguém? Porquê (ou porquê não)?
Ainda não. Sofro do mal de muitos fotógrafos que, por terem uma forma muito específica de trabalhar, acabam por ter uma visão muito rígida de como gostam de ser fotografados também. E parte de ser fotografado é aceitar ser visto como o fotógrafo melhor entende. É algo para o qual ainda não estou preparado, pelo menos por enquanto haha.
Qual é a parte do corpo humano que mais te fascina — e porquê?
Os olhos. O nosso olhar entrega como nos sentimos e o quão entregues estamos ao momento. Podemos mudar completamente a história que pretendemos transmitir apenas pelo olhar.
Nome, em que cidade vives, e o que quiseres dizer um pouco sobre ti
Lucas, Lisboa, 28. Formei-me em Finanças, trabalhando na área. Uso a fotografia como um meio de expressar o meu lado artístico.
Segue o trabalho do Lucas Ramos no Instagram.
https://www.instagram.com/lucasimago
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Diogo Araújo


