Jacob Israël de Haan foi mais do que um escritor. Foi um homem que se recusou a caber nas gavetas que o seu tempo lhe impunha. Judeu, homossexual, sionista que se tornou antissionista, religioso e transgressor, a sua vida é um lembrete de que a liberdade individual raramente é linear. No início do século XX, quando o desejo entre homens era crime, doença e pecado, De Haan escolheu a palavra como arma de autoafirmação.
Com Pijpelijntjes, em 1904, De Haan cometeu um acto político sem pedir licença ao movimento político. Descreveu o amor e o desejo homossexual com uma frontalidade que a Holanda puritana não perdoou. Perdeu o emprego como professor e jornalista. Pagou o preço que os pioneiros sempre pagam: a solidão e a exclusão. Mas abriu uma porta. Mostrou que a literatura podia ser espelho e não só moral. Foi transgressão cultural antes de haver bandeiras, marchas ou direitos. Isso é ser pioneiro.
A sua mudança para a Palestina em 1919 revela outra dimensão da sua coragem: a capacidade de se contradizer. Chegou sionista, converteu-se num opositor feroz do projeto de Estado judeu. Não por cinismo, mas por convicção humanista. Aliou-se aos judeus ultraortodoxos de Jerusalém e defendeu o diálogo com os líderes árabes. Num tempo de nacionalismos crescentes, De Haan escolheu a paz e a coexistência. É fácil ser fiel a uma ideia. Difícil é ser fiel à justiça quando ela muda de lado.
O que liga o escritor de Pijpelijntjes ao político de Jerusalém é a mesma ética: recusar a hipocrisia. Na Holanda enfrentou a hipocrisia sexual de uma sociedade que criminalizava o desejo enquanto o escondia. Na Palestina enfrentou a hipocrisia política de um movimento que falava de libertação mas preparava a dominação. Em ambos os casos, usou o corpo e a palavra como território livre. Não separava a libertação íntima da libertação coletiva. Para ele, um povo que oprimia outro jamais poderia ser livre, tal como um homem que negava o seu desejo jamais seria inteiro.
A sua vida íntima escandaliza ainda hoje os que querem heróis sem manchas. De Haan manteve relações com jovens árabes enquanto era porta-voz de uma comunidade religiosa conservadora. Esta contradição não anula o seu legado, humaniza-o. Ele viveu num corpo atravessado por desejos, fé e política, sem aceitar que uma parte tivesse de matar a outra. Exigir pureza ideológica a quem viveu há 100 anos é um luxo de quem não arriscou nada.
Foi assassinado a 30 de Junho de 1924 em Jerusalém, com três tiros, por ordem da Haganah. O motivo foi apenas um: De Haan preparava-se para viajar para Londres onde iria discursar contra a Declaração de Balfour e contra a criação de um Estado judeu. Como porta-voz dos Haredim, negociava directamente com líderes árabes como o emir Abdullah da Transjordânia, defendendo um acordo que rejeitava o sionismo político. Para a liderança sionista, ele tornara-se um traidor perigoso, com influência internacional e legitimidade religiosa. Mataram-no para o calar antes que a sua voz chegasse à Europa.
Hoje, versos seus estão gravados no Homomonument em Amesterdão. É justo. Ele merece ser lembrado como pioneiro da autoafirmação homossexual europeia. Mas reduzir De Haan a símbolo é trair a sua complexidade. Ele não cabe num cartaz. Foi um homem religioso que amou outros homens, um antinacionalista que morreu às mãos do nacionalismo, um poeta que fez da própria vida um texto incómodo.
Jacob Israël de Haan ensina-nos que a liberdade não é coerência, é integridade. É ter a coragem de mudar, de desejar, de discordar e de pagar por isso. Num tempo em que se exige que cada um escolha uma tribo e odeie a outra, a sua memória é um acto de resistência humanista. Reivindicá-lo é reivindicar o direito a ser inteiro, com todas as contradições que a dignidade humana exige.
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João d’Oliveira


