Preciso de me sentar. E quando eu preciso de me sentar, é porque o nível de vergonha alheia ultrapassou a minha capacidade de ficar calada. Que já por si não é grande. Mas hoje o silêncio é que seria obsceno.
Um grupo de influenciadores portugueses viajou a Israel esta semana. Com tudo pago. Pela embaixada. Entraram em Gaza. Filmaram os túneis do Hamas. Publicaram stories. No mesmo dia em que um ataque israelita matou seis pessoas no mesmo território que eles filmavam com ring light e boa disposição. Jornalistas estrangeiros estão proibidos de entrar em Gaza. Mas influencers podem. Porque os jornalistas fazem perguntas e os influencers fazem conteúdo. E o conteúdo não incomoda. Entretém. Como as flores num funeral. Bonitas. Mas não ressuscitam ninguém.
Os nomes já circulam nas redes. Nenhum tem formação em jornalismo, ciência política ou estudos do Médio Oriente. Uma é sionista assumida na bio. Outra fez uma tatuagem numa zona de guerra. Um conduz TVDEs. E todos entraram em Gaza quando os jornalistas não podem. Não têm currículo. Têm seguidores. E no mercado da propaganda, seguidores valem mais do que factos.
Descreveram os túneis como se lessem o comunicado do governo israelita. Promoveram associações israelitas. Mostraram o memorial do Festival Nova. Não mostraram os 70 mil mortos. Viram o que lhes mostraram. E mostraram o que lhes pagaram para mostrar. Os mortos ficaram fora do enquadramento. Como sempre ficam.
Mas vamos ao dinheiro. Porque é sempre sobre o dinheiro. O orçamento israelita para relações públicas internacionais foi quadruplicado em 2026 para setecentos e trinta milhões de dólares, segundo o Jerusalem Post.
Quem os recrutou? Diana Duarte. Uma jornalista portuguesa. Agora assessora de imprensa da embaixada de Israel em Lisboa. Uma jornalista portuguesa a recrutar influencers portugueses para branquear um genocídio documentado pelo Tribunal Internacional de Justiça. A profissão que devia fazer perguntas decidiu vender respostas.
E houve quem dissesse que não. O Kiko is Hot, activista LGBTQ, recusou o convite e expôs a mensagem publicamente. Meio milhão de visualizações. Disse o que precisava de ser dito: que não foram convidados porque são bonitos, que é diplomacia política, que é limpar a imagem.
E disse-o com a clareza de quem sabe que a consciência pesa mais do que uma semana com tudo incluído. O Kiko fez bem. E faz bem todos os dias. Tem feito um serviço à comunidade que muitas associações com sede e orçamento não fazem. E é exactamente por isso, por gostar dele e pelo que representa, que vou dizer o que vem a seguir com cuidado mas sem filtro: recusar o convite da embaixada é um acto de coragem. Mas o pinkwashing não é só uma viagem a Tel Aviv. É uma rede. E essa rede tem tentáculos que chegam mais perto do que pensamos.
O EuroPride 2025 em Lisboa foi boicotado por mais de quarenta associações LGBTQ por causa de uma pessoa: Diogo Vieira da Silva. Fundador da Variações, a associação de comércio e turismo LGBTI que ficou com a organização do EuroPride depois de a ILGA, a rede ex aequo e a AMPLOS abandonarem o barco.
Leram bem. Quarenta associações. Abandonaram. E mesmo assim o evento aconteceu.
O mesmo Diogo Vieira da Silva que foi chefe de imprensa da embaixada de Israel em Lisboa. Que organizou a Israeli Pride Party no Finalmente Club em 2023, alvo de protestos. Que foi investigado pelo Ministério Público por burlas, branqueamento de capitais e falsificação de documentos. Que recebeu meio milhão de euros em fundos públicos para a Variações. E que foi nomeado comissário municipal do EuroPride por Carlos Moedas através do vereador Diogo Moura, ex-membro da Associação Lusa Portugueses por Israel.
Recusar o convite da embaixada é bom. Mas o chá que vos vou dar agora é mais amargo. O Porto Pride que conhecemos agora foi criado pelo mesmo Diogo Vieira da Silva. A Variações, a associação dele, desvinculou-se publicamente do homem e acabou com o evento. Mas o evento continua. Com a sombra dele por trás. O falso hastear “oficial” da bandeira arco-íris em frente à Câmara do Porto? Iniciativa dele. Não da autarquia. Dele. E em setembro, o Porto Pride, com o mega patrocínio do Idealista, terá eventos com o ADN dele onde artistas da comunidade vão actuar. O Kiko incluído. E o Kiko, que teve a coragem de dizer não à embaixada, merece saber em que palco está a pisar. Não para o acusar. Para o informar. Porque recusar a viagem sem questionar o ecossistema é como recusar o jantar mas aceitar a sobremesa. E a sobremesa, filha, foi feita na mesma cozinha.
O dinheiro israelita em Portugal não é o dos influencers. É o imobiliário. Oitenta milhões só da Youropa, escritório na Boavista. E os portuenses que protestaram foram chamados de “extrema-esquerda imbecil e semianalfabeta” por Francisco Assis.
No parlamento, a resolução de apoio a Israel foi aprovada com noventa e quatro por cento. E o Paulo Rangel? Reconheceu a Palestina em setembro de 2025. Tarde. E quando o fez, reafirmou no mesmo discurso “a especial amizade entre os povos português e israelita.” Filha, isto não é diplomacia. É contorcionismo. O Rangel é a versão diplomática dos influencers. Só que em vez de ring light, usa gravata.
E os influencers que foram? Voltaram. Com stories. Com conteúdo. Com a consciência limpa e o telemóvel carregado. Chamaram-lhes “tontos úteis com stories patrocinadas.” Eu acho que é generoso. Um tonto não sabe o que faz. Estes sabem. Só não se importam.
Eu sei. É muita informação. É muita porrada de uma vez. Apetece fechar o telemóvel e ir ver o Love Island. Eu percebo. Às vezes também me apetece. Há dias em que a Mia Cheia de Graça quer salvar o mundo e a Xeila quer só um copo e uma playlist. Somos humanas.
Mas filhinhos, especialmente as mais novas, que cresceram com o Instagram como se fosse oxigénio: a vossa atenção é o recurso mais valioso que existe. Mais do que o lítio de Covas do Barroso. Mais do que os setecentos e trinta milhões de Netanyahu. Porque sem a vossa atenção, as publicações não valem nada. A luzinha apaga-se. E o esquema pára.
Não vos peço que sejam activistas. Peço-vos que sejam chatas. Que perguntem quem pagou a viagem. Que perguntem porque é que aquele influenciador está ali. Que perguntem o que ficou fora do enquadramento. Ser chata é o primeiro acto político. E vocês, filhas, são lindas quando são chatas.
É preciso dizer o óbvio porque o óbvio já não é óbvio: criticar o Estado de Israel não é antissemitismo. Criticar um governo que bombardeia hospitais, assassina jornalistas, impede a entrada de ajuda humanitária e contrata influencers para filmar os escombros com ring light não é antissemitismo. É a coisa mais básica que se pode fazer com uma consciência e uma ligação à internet.
E agora, se me dão licença, vou-me sentar outra vez. Não de cansaço. De nojo. E de luto. Porque algures em Gaza, enquanto uma influencer fazia uma tatuagem, uma mãe procurava o corpo de um filho nos escombros. E essa mãe não tem Instagram. Não tem stories. Não tem ring light. Tem só as mãos. E as mãos não chegam.
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Mia Cheia de Graça


